“EM FAMÍLIA” foi a cara do Brasil: Machista até o último capítulo!

Depois do que pareceu mesmo durar duas décadas, a saga entre as Brunas Marquezines – a jovem Helena e sua filha Luiza – finalmente chegou ao fim. Apesar das críticas e do sentimento geral de rejeição à novela, o que fica marcado por Em Família é a contradição da personagem principal de todas as obras de Manoel Carlos: a família brasileira.

Fabricio Longo

Maneco é inegavelmente um autor de sucesso, que deixará um legado valioso para a nossa dramaturgia. Entretanto, parece que depois de 30 anos caminhando pelo Leblon ao som de Bossa Nova, o público se cansou da fórmula. A questão é: não gostamos da novela porque ela foi particularmente ruim, ou porque sua familiaridade foi tão realista que chegava a incomodar? Acho que a melhor resposta talvez seja “um pouco dos dois”.

Em Família realmente teve várias situações ridículas e completamente inverossímeis, mas podemos dizer o mesmo de Avenida Brasil e Amor à Vida, que fizeram tanto sucesso. Talvez, o que tenha incomodado tanto seja o fato de que essa “família brasileira” representada ali esteja acabando mesmo, e não por causa de beijos gays como o do casal Clara e Marina. O molde tradicional de família está em mudança, e não cabem mais certas representações tacanhas, carregadas de valores ultrapassados e decadentes. Ainda temos um longo caminho pela frente. Vivemos em um país conservador, extremamente machista e racista, que se pretende “liberal” e “moderno” na base de caipirinha e futebol. Acontece que não temos o costume de assumir esse tipo de coisa.

A trama foi machista do início ao fim.

Na primeira fase, a jovem Helena era responsabilizada por seduzir os amigos Virgílio e Laerte, inclusive levando a culpa pelas cenas de ciúme do noivo. A rival Shirley, desde o princípio, reforçou o estereótipo da mulher invejosa, que concorre o tempo todo com outra por causa da coisa mais desejável e necessária do mundo: um homem.

Aliás, esse homem tinha açúcar. Laerte, embora fosse possessivo, ciumento, infiel, violento e descontrolado até o ponto de tentar matar alguém, foi o objeto de desejo e afeto de várias mulheres da trama. A mãe, que ficou louca quando perdeu o marido – claro, né? Imagina, viver sem homem – o superprotegia e acusava todas as potenciais noras de afetá-lo negativamente. Shirley, mesmo se portando como uma mulher “moderna” e “de bem com a vida”, passou a vida toda correndo atrás dele e se prestando a ser uma amante ocasional. Helena foi marcada pelo trauma com o relacionamento malfadado com o primo, e só não o disputou de forma aberta com a filha porque a novela foi encurtada e a rejeição aos personagens já era grande, então a trama original não pôde se desenvolver. Luiza, que também era descrita como “moderna e independente”, se prestou a uma relação abusiva contra tudo e todos, mesmo depois de Laerte dar provas claras de que continuava maluco. E por fim, a pianista Lívia NÃO SUPORTOU ver esse homem tão maravilhoso se casando com outra, ficou histérica pelo recalque e deu um tiro nele, encerrando a promissora carreira na música como assassina.

No mais, Juliana passou a novela toda descompensada pelo desejo obsessivo de ser mãe, também no limite da violência. Quando se casou com Jairo por puro interesse em ficar com a filha dele, era frequentemente mostrada se negando a fazer sexo e depois sendo dominada pelo marido, que não sabia escutar não e que “tinha pegada”. A jovem Alice, abalada ao descobrir ser fruto de um estupro, decide se tornar policial e abandonar a dança – para desgosto da mãe. Diga-se de passagem, a cena na qual Neidinha é violentada foi extremamente gráfica, sem considerar as milhares de vítimas que estavam assistindo – e consequentemente revivendo traumas – uma questão tão delicada ser retratada assim.

A relação lésbica entre Clara e Marina foi realmente o melhor ponto da trama, mas também criou situações discutíveis. Durante a maior parte da novela, a personagem Vanessa seguiu obcecada por Marina, chegando até a fazer escândalo em eventos sociais. Quando Clara enfim se separou de Cadu, a médica Sílvia e a pianista Verônica entraram numa disputa ridícula pelo “novo coração” dele, aparentemente porque “homem novo no mercado” seria algo bom demais para deixar passar. Verônica saiu “vencedora” e grávida, já que um casal só pode ser feliz com filhos, e Sílvia terminou com Felipe depois de ter transado com ele bêbada e nem se lembrar. Tiveram um bebê também.

Outra personagem digna de nota foi Branca, que além de ser representada como uma “dondoca fútil”, passou a novela toda perseguindo loucamente o ex-marido e armando para se vingar dele apenas por não aceitar a separação. No final, foi revelado que ela era a mãe biológica de André, adicionando um “abandonou o filho para curtir a vida quando era jovem” ao seu currículo.

E como aparentemente nenhuma mulher pode ser feliz sem homem, Luiza não poderia terminar reconstruindo sua vida ao lado dos pais ou curtindo sua viagem à Paris. Foi preciso arrumar um músico para deixar implícito que ela estava novamente “aberta para o amor”.

Somos hipócritas demais para ver a nossa “moral” exposta na TV. Geralmente, preferimos elogiar pela frente e falar mal pelas costas, e por isso é tão incômodo ver o nosso senso comum passando todo dia na Globo. Gostamos mais das tramas rocambolescas porque não forçam a opinião pública a discutir o que tratamos como natural e, portanto, não denunciam a mudança de paradigmas.

Uma das novelas mais famosas da nossa história é a inesquecível Vale Tudo, que começava com Gal Costa pedindo que o Brasil mostrasse sua cara. Com Em Família, nós mostramos. Pena que é uma cara que não gostamos de ver.

 

Fonte: Os Sentidos

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