Em nome da liberdade, homens são proibidos em vilarejo do Quênia

Cansadas de serem violentadas, mulheres se fecham em uma comunidade exclusivamente feminina

 

Em tempos de revoluções twittadas, o que acontece na vila de Umoja, no Quênia, é uma das manifestações mais subversivas do planeta. A ideia é abrigar mulheres que escaparam de estupros, agressões, casamentos forçados, mutilações genitais e outras covardias. E para deixá-las totalmente à vontade e livre do trauma que inevitavelmente segue uma experiência dessas, nada de homens – a não ser os que lá nasceram.

enviado por: Amaral Ivson Cesar Kaiowá

Essa história de resistência e coragem começou há 22 anos como uma inofensiva cooperativa de artesanato, que produzia e vendia peças de miçanga. Apesar da evolução, o espírito cooperativo permanece intacto: as mulheres dividem a carga e trabalho igualmente e tudo funciona na base da conversa, sem hierarquia. A coisa mais próxima de uma chefe que o vilarejo possui é Rebecca Lolosoli, que está mais para líder espiritual dos 48 moradores. E essa mulher merece um parágrafo à parte.
O pai de Rebecca tinha 3 esposas. O marido de Rebecca a comprou por 17 vacas. Essas duas informações impressionam, mas isso não é exatamente absurdo no Quênia, milhares de outras mulheres de lá passam pela mesma situação. Acontece que Rebecca levantava sua voz sempre que achava que algo de errado estava acontecendo: algo inconcebível para uma mulher. Apesar do casamento forçado, Rebecca até que gostava de seu marido. Até o dia em que ela foi espancada por soldados ingleses por ter denunciado os estupros que eles vinham realizando sumariamente na região – e seu marido achou normal. Isso a deixou assustada e fez cair ficha: ela não tinha a proteção de ninguém, poderia morrer a qualquer momento que não faria a menor diferença pro seu marido. Afinal de contas, ela morrendo, ele compraria outra mulher e vida que segue. Antes que isso acontecesse, Rebecca, que também tinha sido estuprada, resolveu fugir.
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As mulheres, as miçangas e o sorriso aliviado. Cena rara fora do vilarejo //Crédito: Divulgação
Com a ajuda de 15 mulheres que tinham um passado mais ou menos parecido com o seu, ela fundou a Umoja. Só o fato delas serem as donas da terra é uma subversão, já que mulheres não podem ter uma propriedade. Além das oficinas de artesanato com miçanga – uma fonte de renda em potencial que pode torná-las independentes – elas são alertadas sobre o tratamento pré-natal e recebem assistência para que o parto em si também seja o mais seguro possível. Os casos de estupro também estão sendo levados à Justiça, graças à ajuda de um advogado britânico especializado em direitos humanos.

Sobre a cultura do estupro, por Cynthia Semíramis

A cultura do estupro gritando – e ninguém ouve

Fonte: Observatório do Cidadão

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