Em terra de tosco, quem tem olho puxado pode levar pedrada

Por:Leonardo Sakamoto

Particularmente, acho divertido quando me chamam de “japa”, “japs”, “nipo”, “china”, “cabotchã” (abóbora, em japonês, por conta da cabeça grande, é claro). Ou quando as expressões surradas de velhas são resgatadas, como “abre o olho japonês”. Lembro da época de criança, quando todos éramos muito bobos.

Já recebi mensagens de leitores desabafando que não gostam de serem tratados através dessas “brincadeiras” no trabalho ou na escola. Muitas vezes, há maldade embutida nisso e acredito que quem se sinta desrespeitado deve procurar fazer com que o outro entenda isso. Eu prefiro conceder ao máximo o benefício da dúvida. E mesmo quando comprovada a má fé e vejo que não há diálogo para uma mudança de comportamento, opto por – não raro – não alimentar os pombos.

Pincei as frases abaixo de comentários de leitores do meu blog. Elas vão mais fundo, não ficando apenas na “brincadeira” ignorante. Refletem uma visão de mundo questionável:

“Você deveria ter vergonha. O japonês é um povo honrado e trabalhador, que conquista as coisa do próprio suor. Não fica defendendo invasão como você.”

“Sakamoto, com esse sobrenome, vc não deve conhecer nada de rivalidade no futebol sul americano.”

“Sakamoto desonra a sua raça.”

“Tu num deve manjar nada de Brasil. É japa! Então, devia parar de falar o que não sabe.”

“O Japão lutou contra o comunismo e o Sakamoto não entendeu nada.”

“Um japa comunista é uma aberração.”

“Volta pro Japão, Sakamoto! Deixa o Brasil para os brasileiros.”

“Era só o que faltava! Um japonês querendo falar mal do meu país. Volta pro Japão, Sakamoto!”

Os comentários são autoexplicativos da falta de conhecimento sobre a própria identidade e sobre o que é ser brasileiro. Desconhecimento do outro que pode levar à nada ou ao medo. Medo que pode levar à intolerância. Intolerância que sabemos aonde vai dar.

Mas é interessante que quem não se adequa ao modelo “Ilha de Caras” (mais ricos), “Família Margarina” (classe média) e “Núcleo Suburbano da Novela das 21h” (mais pobres) não raro é excluído do rol de “brasileiros possíveis” na cabeça de certas pessoas que não foram educadas para a diferença e procuram te encaixar em algum modelo para justificar a sua existência.

Tive um casal de avós paternos japoneses, mas contei com bisavô alemão (nascido em Bonn), pai da minha avó materna italiana (nascida em um vilarejo na Calábria) que se casou com meu avô materno grego (de Thessaloniki). Ou seja, sou difícil de catalogar. Mas posso dizer que, ao mesmo tempo, represento esse ponto de encontro que é o Brasil.

Tem gente que considera a diversidade complicada e lança para longe qualquer tentativa de abraçar a diferença. Besteira. O arco-iris é lindo. O cinza é que é uma cor extremamente monótona.

Fonte:Blog do Sakamoto

+ sobre o tema

Site Minas Mais espalha preconceitos contra ‘nordestinos’ no site Reclame Aqui

Empresa de internet chama nordestinos de "vagabundos" em site...

“Mapa da Intolerância Religiosa 2011″, por Márcio Alexandre M. Gualberto

“Mapa da Intolerância Religiosa 2011″ O “Mapa da intolerância religiosa...

Alunos do 6º ao 9º vão simular tribunal do júri em casos de preconceito

Alunos da escola Coopec vão simular um tribunal do...

para lembrar

Chefe de Estado Maior dos EUA condena “racismo e intolerância”

O chefe de Estado Maior dos EUA, Joseph Dunford,...

Ataques levam Finlândia a oferecer aulas a imigrantes sobre como tratar mulheres

Preocupado com o aumento de abusos, o governo finlandês...

Bolsas de estudo: Japão oferece curso profissionalizante com tudo pago para jovens brasileiros

O MEXT (Ministério da Educação, Cultura, Esporte, Ciência e...

Pelo fim do racismo e da intolerância

Um dos eventos mais traumáticos e doloridos da história...
spot_imgspot_img

Os milhões de corpos negros que habitam o fundo do mar

750 seres humanos. Não é um número pequeno. Cruzar fronteiras, a tragédia migratória que acomete africanos todos os dias em busca de uma vida...

Mulheres de diferentes continentes relatam realidade da imigração

Em busca de segurança, melhores condições de vida e proteção social, mulheres imigrantes saíram de seus países e vieram para o Brasil para encontrar...

Nota oficial de Ivanir dos Santos: O que aprendi com a tolerância

Como professor de História Comparada, aprendi que quase 400 anos de porões de navios negreiros, senzalas e chibatas não passaram em vão. E que...
-+=