“O clima global está em situação de emergência. O planeta Terra está sendo levado para além de seus limites. Todos os principais indicadores climáticos estão em alerta vermelho.” A declaração alarmante do secretário-geral da ONU, António Guterres, nesta segunda-feira, 23, sobre o recém-divulgado Relatório do Estado do Clima Global 2025, da Organização Meteorológica Mundial (OMM), confere ao documento um caráter que ultrapassa seu registro técnico. Não se trata de mais um balanço anual, mas de uma síntese histórica de um sistema climático que entrou em regime de instabilidade prolongada. Pela primeira vez, o relatório incorpora entre seus principais indicadores o chamado desequilíbrio energético da Terra — a diferença entre a energia que o planeta recebe do Sol e aquela que é devolvida ao espaço. Esse indicador, considerado um dos mais abrangentes para medir o aquecimento global, revela o acúmulo contínuo de calor no sistema terrestre e ajuda a explicar a intensificação simultânea de fenômenos como o aquecimento dos oceanos, o derretimento de geleiras e a elevação do nível do mar, consolidando evidências de que o planeta já opera sob um novo regime climático. Nesse sentido, Guterres saiu da previsibilidade de apenas debater as questões do clima para evidenciar relevante e preocupante constatação: a crise climática deixou de ser prospectiva, e se tornou presente, mensurável, cumulativa — e, principalmente, socialmente e racialmente seletiva.
Produzido a partir de contribuições científicas globais e de um sistema integrado de observação que articula dados de superfície, sensores oceânicos, plataformas criosféricas e satélites, o relatório consolida uma base empírica de alta precisão. Entre seus achados mais contundentes está a posição de 2025 como o segundo ou terceiro ano mais quente em uma série histórica de 176 anos. Esse dado, por si só, já indicaria a persistência do aquecimento. Mas o que o torna ainda mais relevante é o contexto: a transição de um intenso El Niño para condições de La Niña, que, em circunstâncias normais, produziria um arrefecimento das temperaturas médias globais. Um dos dados mais alarmantes é que janeiro de 2025 foi o mais quente já registrado em todos os tempos. O sistema climático, portanto, opera atualmente sob um novo regime, no qual as variabilidades naturais já não conseguem mais conter o acúmulo de energia.
A origem desse desequilíbrio é inequívoca. Em 2024, as concentrações de gases de efeito estufa atingiram os maiores níveis em pelo menos 800 mil anos. O dióxido de carbono alcançou 423,9 ppm, representando 152% dos níveis pré-industriais. Metano e óxido nitroso seguiram a mesma trajetória ascendente. Mais preocupante do que o volume é a velocidade com que esse fenômeno acontece: o incremento anual de CO₂ em 2024 foi o mais elevado desde 1957!! Essa aceleração revela não apenas a continuidade da queima de combustíveis fósseis, mas também a perda de eficiência dos sumidouros naturais. Florestas degradadas e oceanos saturados já não conseguem mais absorver carbono na mesma proporção, convertendo-se, progressivamente, de amortecedores em fontes adicionais de instabilidade.
Os oceanos, responsáveis por absorver cerca de 91% do excesso de calor do sistema terrestre, registraram em 2025 o maior conteúdo de calor já observado e a taxa de aquecimento nas últimas duas décadas mais do que dobrou em relação ao período entre 1960 e 2005. Essa energia acumulada se traduz em fenômenos cada vez mais frequentes e intensos: aproximadamente 90% da superfície oceânica global foi atingida por pelo menos uma onda de calor marinha ao longo do ano. Os efeitos são conhecidos e sistêmicos: colapso de recifes de coral, deslocamento de espécies, redução de estoques pesqueiros e comprometimento direto da segurança alimentar de milhões de pessoas ao redor do mundo.
A criosfera — conjunto de todas as regiões da Terra onde a água se encontra em estado sólido, incluindo gelo marinho, geleiras —, por sua vez, oferece evidências visuais do colapso em curso. O balanço de massa dos glaciares indica perdas contínuas e aceleradas, com oito dos dez anos mais críticos desde 1950 concentrados após 2016. Na Islândia, por exemplo, o ano mais quente já registrado coincidiu com perdas excepcionais de gelo, agravadas pela redução do albedo decorrente da deposição de partículas escuras sobre a superfície. O gelo marinho segue tendência semelhante: no Ártico, a extensão máxima de março de 2025 foi de 14,19 milhões de km² — significativamente abaixo da média histórica de 15,07 milhões. Na Antártida, a extensão média anual figura entre as três menores já registradas. Essa retração reduz a capacidade do planeta de refletir radiação solar, intensificando o aquecimento global em um ciclo de retroalimentação.
A elevação do nível do mar condensa esses processos em um único indicador. Desde 1993, o oceano global subiu cerca de 11 centímetros, com a taxa anual passando de 2,65 mm para 4,75 mm na última década. Em regiões como o Pacífico Sul e o Sudoeste do Pacífico, esse aumento ocorre de forma ainda mais acelerada, ampliando riscos de salinização do solo, perda de terras agricultáveis e deslocamentos populacionais forçados. A escala deste fenômeno passou a redefinir a geografia do risco climático.
Impacto humano
É nesse cenário que o calor extremo emerge como um dos principais vetores de impacto humano. Estima-se que mais de 1,2 bilhão de trabalhadores estejam expostos anualmente a riscos térmicos no ambiente laboral. Agricultura e construção civil são as atividades que concentram os maiores níveis de exposição, mas o fenômeno se expande, impactando a saúde das pessoas. O aumento das temperaturas intensifica a fadiga, eleva a incidência de acidentes e agrava condições como desidratação, doenças renais e transtornos mentais. Diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da própria OMM recomendam a reorganização das jornadas de trabalho, acesso à água potável, sombreamento e sistemas de resfriamento. Ainda assim, a governança global permanece insuficiente: em 2023, apenas cerca de metade dos países dispunha de sistemas de alerta precoce adaptados ao setor de saúde.
Racismo estrutural e o clima
No Brasil, o impacto desse novo regime térmico revela, com nitidez, a engrenagem do racismo estrutural. Dados de pesquisas baseadas em pesquisas conduzidas por cientistas brasileiros — com destaque para trabalhos ligados à UFRJ (Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais – LASA), em que foram analisados cerca de 9 milhões de registros de óbitos do Sistema Único de Saúde (SUS), indicam que o calor não atinge todos da mesma forma. Entre 2000 e 2018, cerca de 50 mil mortes prematuras foram associadas à exposição a altas temperaturas em áreas urbanas. Quando esses dados são desagregados, emerge um padrão consistente: pessoas pretas e pardas, especialmente mulheres e indivíduos com menor escolaridade, apresentam maior probabilidade de morrer durante ondas de calor.
“A emergência climática não é apenas ambiental, ela é também social e racialmente estruturada. O aquecimento global intensifica desigualdades históricas e transforma o calor extremo em um risco distribuído de forma desigual. No Brasil, essa dinâmica revela a sobreposição entre racismo estrutural e racismo ambiental, que definem quem está mais exposto, quem adoece e quem morre. Populações negras e periféricas enfrentam condições urbanas mais precárias, menor acesso à infraestrutura e maior tempo de exposição ao calor. Diante disso, não há resposta possível à crise climática sem uma transição justa, que enfrente essas desigualdades, redistribua recursos e coloque no centro os territórios e sujeitos historicamente marginalizados. Falar de clima é, necessariamente, falar de justiça racial, de direito à cidade e de quem tem condições reais de sobreviver em um planeta em aquecimento”, afirma Mariana Belmont, assessora de Clima e Racismo Ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra.
As disparidades são expressivas. Em São Paulo, a probabilidade de morte durante eventos extremos é cerca de 10% maior entre pessoas com baixa escolaridade em comparação àquelas com ensino superior. No Rio de Janeiro, essa diferença alcança aproximadamente 25%; em Porto Alegre, 42%; em Belém, 53%; em Manaus, 62%; e em Recife, impressionantes 96%. Quando o recorte racial é incorporado, as assimetrias se aprofundam: o excesso de mortalidade entre pessoas pretas e pardas supera o de pessoas brancas em diversas capitais, com diferenças de 10% no Rio de Janeiro, 15% em Belo Horizonte, 17% em São Paulo, 33% em Manaus, 40% em Recife, 44% em Belém, 60% em Brasília, 80% em Goiânia e 92% em Curitiba.
O dado mais extremo evidencia a interseccionalidade dessas vulnerabilidades: na região metropolitana de Cuiabá, por exemplo, a probabilidade de morte de uma mulher idosa exposta ao calor extremo é 203% maior se ela for preta ou parda em comparação a uma mulher branca na mesma condição. Esses números não refletem diferenças fisiológicas, mas a operação concreta do racismo estrutural, que organiza o acesso desigual a recursos, serviços e condições de vida.
As cidades funcionam como amplificadores dessa lógica. O efeito de ilha de calor urbano eleva as temperaturas em até 5°C em áreas densamente construídas. No entanto, essa elevação não é homogênea: bairros periféricos, majoritariamente ocupados por população negra, apresentam menor cobertura vegetal, maior densidade habitacional e infraestrutura precária. Interrupções frequentes no abastecimento de água e energia, somadas a moradias mal ventiladas, limitam a capacidade de adaptação. A exposição prolongada ao calor torna-se, assim, parte da rotina cotidiana.
A mobilidade urbana agrava esse quadro. Trabalhadores que vivem em áreas periféricas percorrem longas distâncias em sistemas de transporte público frequentemente superlotados e sem climatização. Ou seja, esse tempo adicional de exposição térmica, somado a jornadas de trabalho em ambientes insalubres ou ao ar livre, amplia os riscos à saúde. Portanto, trata-se de uma cadeia de vulnerabilidades que se retroalimenta, ancorada em uma estrutura social racializada.
Os efeitos do calor sobre o organismo humano são amplos e cumulativos. O estresse térmico compromete os mecanismos de termorregulação, elevando a temperatura corporal e a frequência cardíaca. Ele agrava doenças cardiovasculares, respiratórias e renais, aumenta internações hospitalares e pode levar à morte prematura. Na saúde perinatal, associa-se a prematuridade, baixo peso ao nascer e aumento da mortalidade materna. No campo da saúde mental, contribui para o aumento de ansiedade, depressão e taxas de suicídio. Ainda assim, sua letalidade permanece subnotificada, frequentemente registrada sob outras causas. O calor, nesse sentido, opera como uma violência silenciosa.
Diante desse cenário, a adaptação climática exige uma abordagem para além da engenharia e da tecnologia. É necessário integrar sistemas de alerta precoce, fortalecer a vigilância epidemiológica e incorporar dados climáticos aos processos decisórios em saúde. Mas essas medidas só serão efetivas se acompanhadas do enfrentamento direto ao racismo estrutural que organiza a exposição ao risco. Políticas urbanas que ampliem áreas verdes, melhorem a infraestrutura em territórios periféricos e garantam acesso universal a serviços básicos são parte indissociável dessa agenda.
Iniciativas conjuntas da Organização Mundial da Saúde e da Organização Meteorológica Mundial têm buscado avançar na integração entre ciência climática e políticas públicas. Ainda assim, o relatório evidencia que o desafio é sistêmico. Ele não se limita à redução de emissões ou à adaptação de infraestruturas: envolve a transformação das estruturas sociais que determinam quem está mais exposto, quem adoece e quem morre.
“É necessário continuar reforçando que a adaptação climática para lidar com a intensificação dos desastres e aumento de temperaturas só será possível com a redução das desigualdades que estruturam nosso país e o Sul Global. Populações negras, indígenas e periféricas estão sobrevivendo com essa sobrecarga desproporcional e é preciso responsabilizar os Estados por uma política de adaptação prioritária para essas populações. Priorizar esses corpos é corrigir o padrão de mortes evitáveis que temos acumulado a cada novo evento climático extremo”, conclui Thaynah Gutierrez, assessora de clima e racismo ambiental de Geledés.
Ao final, o documento da OMM organiza evidências que já não permitem ambiguidades. O planeta aquece em ritmo acelerado, os sistemas naturais entram em colapso progressivo e os impactos recaem de forma desproporcional sobre populações historicamente racializadas. Como indicou Guterres, o caminho exige ciência, coragem e ação imediata. Mas exige, sobretudo, reconhecer que, em um mundo em aquecimento, o racismo estrutural continua sendo um dos principais determinantes da vulnerabilidade climática.