Empresa diz que não contrata mulheres

Eu tenho 21 anos, sou mulher, negra, feminista e faço Engenharia Mecânica numa faculdade particular. Não preciso nem explicar muito o quão difícil é minha convivência no ambiente acadêmico, mas vou explicar. Primeiro: as pessoas carregam os mais diversos preconceitos e acham que não são preconceituosas. Segundo: metade dos alunos do meu curso me odeia porque questiono esses comportamentos preconceituosos, principalmente os comportamentos machistas e homofóbicos.

Beatriz Silva me enviou este relato – de Lola escrava Lola:

Toda essa “richa” com alguns colegas começou numa aula de Relações Humanas do Trabalho. Como esta é uma disciplina mais relacionada à área de humanas e a professora é uma psicóloga, ela sempre abria espaços para debates mais sociólogos em sala de aula. Isso me deixava à vontade, já que sempre sentia que os alunos tinham um perfil bem preconceituoso como um todo, apesar do preconceito racial nunca ter sido exposto de forma explícita (a quantidade de negros é alta e isso contribui, de certa forma, para uma redução do racismo).

Em uma dessas aulas, ocorreu uma discussão sobre vestimentas e comportamento social e a maioria da sala defendia um dos pontos mais sujos do machismo, aquele que a mulher não pode reclamar se é tratada como prostituta ou atacada na rua (seja de maneira verbal ou física) se estiver com roupas curtas e “provocantes”. Até esse momento, poucas pessoas sabiam que eu era feminista, mas no meio de comentários como esse eu não pude resistir e tive que me expressar. Além de ser um absurdo achar que roupa justifica algum tipo de agressão, ser prostituta ou parecer uma também não justifica qualquer tipo de tratamento agressivo.

A partir desse dia, eu me tornei a intolerante (pois é, eles acham que eu sou intolerante), e passei a ser excluída do convívio de alguns colegas (não que isso realmente me incomode); cheguei a perder uma eleição para representante dos alunos por ser mulher e, principalmente, por ser feminista. Vários colegas passaram a fazer piadas e “brincar” de machismo para me irritar.

Teve uma outra situação também em que estávamos em um laboratório da área de fabricação e depois de operarmos as máquinas, os restos de materiais ficam todas espalhados e precisam ser limpos pelos alunos, cada um limpa o que sujou. Na hora da limpeza, um colega meu pegou a vassoura e a pá e perguntou a mim e duas colegas minhas se não queríamos limpar, já que somos mulheres e isso cabe melhor a nós. Naquele momento, eu e minha amiga respondemos de forma bem impetuosa; ele fez pouco caso.

Mas, para minha sorte, o coordenador do curso, que estava nos acompanhando no laboratório, é uma pessoa muito consciente e militante, e eu sei que sempre posso recorrer a ele, pois ele não admite preconceito dentro do nosso curso e sempre deixa isso bem claro.

É ótimo que o coordenador seja um militante porque o número de alunas e professoras no curso é infinitamente menor que o de homens. Na minha sala, por exemplo, são quatro alunas numa turma de mais de 40 alunos. De 32 disciplinas que já cursei, só tive seis professoras ministrando aulas, e dessas seis só duas ministraram disciplinas da área de Exatas. Isso dá um sentimento de desvantagem, muitas vezes.

Minha motivação para escrever esse guest post para o blog de Lola são várias. Sempre quis contar um pouco sobre o machismo presente nos cursos de Exatas e acho que esse blog é o melhor lugar para eu expor isso (sou uma graaande admiradora da Lola). Porém esses dias eu tive um porquê ainda mais forte.

A história é a seguinte: meu curso tem uma proposta diferenciada em relação às matérias e ao estágio, e estamos justamente na época de buscar estágios na nossa área -– a maioria é articulada com a própria faculdade. Houve uma entrevista para uma empresa aqui na Bahia, e eles pediram para que os interessados enviassem seus currículos para uma posterior entrevista presencial. Eu não me candidatei a essa vaga, mas duas colegas minhas sim — e uma delas é bem próxima a mim.

Minha amiga me ligou hoje para contar como foi a entrevista e me disse algo que me deixou chocada. O entrevistador se pronunciou em relação às duas candidatas presentes dizendo que seria difícil elas conseguirem a vaga porque existiam poucas mulheres na empresa e eles não tinham o perfil de contratar mulheres para atuar (pois é, ele disse isso), e que era bastante complicado para as mulheres trabalharem lá por causa do cargo (nem preciso explicar o quão machista e sexista isso foi, né?), e que pelo fato de ter muito “peão”, pessoas com baixa escolaridade, esses trabalhadores não aceitavam bem mulheres na empresa e não respeitavam.

Agora eu me pergunto: como uma empresa de grande porte com anos de mercado se sujeita a um papel desses? Como ela permite que um entrevistador se posicione dessa forma tão machista com as entrevistadas? Como uma empresa que quer liderar um mercado permite que trabalhadores preconceituosos ditem suas políticas organizacionais?

Depois disso tudo, eu só posso chegar a uma conclusão: a empresa não simplesmente compactua com tudo isso, como também abraça essa ideia retrógrada como sua política organizacional, como perfil, como atitude dentro do mercado. Isso é um absurdo, é algo vergonhoso, algo que deveria fazer essa empresa ser punida.

Infelizmente, eu não posso fazer uma denúncia formal porque não aconteceu comigo e eu não estava nem ao menos presente, então faço esta denúncia aqui através do blog de Lola para mostrar a todos como uma empresa vem agindo conosco, mulheres da área de Exatas, nos menosprezando e nos colocando em uma situação de opressão.

Essas atitudes só demonstram as dificuldades enfrentadas por nós no dia a dia, na escola, na faculdade, em casa, no trabalho. Demonstra que não podemos nos calar porque nossa força é nossa voz, é nossa luta. Não podemos desistir.

 

Fonte: Lola escreva Lola

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