Entre Rock in Gil e Desmonte, Larissa Luz reivindica o rock como identidade negra

29/05/26
Por Letícia Leobet
Em conversa sobre seu espetáculo e novo álbum, a artista fala sobre Salvador, teatro, memória, cultura e o gesto político de desmontar estruturas para reconstruir narrativas.

Tive a oportunidade de assistir, no dia 26 de março, em Salvador, ao espetáculo Rock in Gil, de Larissa Luz, e posso afirmar que sair dele não é exatamente sair, é permanecer atravessada. Depois disso, tive a oportunidade de conversar com a artista sobre o show, a produção e o lançamento de seu novo álbum, Desmonte. Com participações de ÁUREA SEMISERIA e Zé Atunbi, o disco chega às plataformas digitais em 29 de maio e mescla o rock aos ritmos afrobaianos em uma abordagem transgressora

Larissa Luz, soteropolitana nata, é uma das maiores artistas da música brasileira contemporânea e carrega em sua trajetória uma profunda conexão com a música preta baiana. Sua passagem pelo Araketu, um dos grupos mais emblemáticos da cultura afro-baiana, é uma marca que se desdobra em sua carreira solo. 

Larissa Luz – Foto: Jordan Villas

Há também, em Larissa, uma artista formada por muitas travessias: pela música, que é a mais óbvia, mas também por uma teatralidade. Em 2018, Larissa interpretou Elza Soares no premiado musical biográfico Elza. Além disso, Fez outras artistas importantes da cena nacional, mulheres que vieram antes dela, lhe serviram como referência e foram fundamentais para a formação dessa identidade artística. 

“A minha construção de espetáculo hoje passa muito por uma teatralidade, por uma encenação, por uma construção de narrativa. Isso tudo vem muito do teatro, vem muito da atriz. Eu vivi Elza, vivi mulheres importantes no teatro e isso me deu muitos tons para chegar aqui e fazer esse show e esse novo disco”, disse a artista.

Ao conversar com Larissa, é interessante perceber que  Rock in Gil nasce de uma pesquisa musical, mas também é parte de um processo de retomada de si mesma. “Ficar dois anos sem subir num palco mexeu muito comigo. O palco, de certa forma, era o meu lugar de cura. Então fui acumulando muita coisa que me fez ficar um pouco retraída, até no meu processo criativo. Depois comecei um processo de retomada de mim mesma, da minha conexão com o mundo e com a arte de uma forma mais visceral, mais livre.”

Larissa relata sua experiência enquanto artista que atravessou a pandemia, o acúmulo de silêncios, muitos deles mobilizados pelo racismo e sexismo, além de retrações criativas e processos de autoconhecimento. Ela conta que identificou no palco um espaço de cura, expressão e liberdade. Segundo a artista, o palco não se restringe ao lugar de performance, é o território onde se torna possível romper cascas, enfrentar uma antiga timidez, escapar das vigilâncias impostas pela cultura do cancelamento e recuperar uma versão de si anterior ao que o mundo tenta nos atribuir.

Bem, é preciso dizer que Rock in Gil é mais do que um show. É um posicionamento. Ao longo do espetáculo, Larissa reafirma seu lugar como uma artista que entende a cultura como campo de disputa. Isso fica evidente quando, ao compartilhar com o público sua recente conquista do Prêmio Shell pela atuação na adaptação teatral de Torto Arado, fez questão em afirmar: “consumam as produções daqui, valorizem o que é produzido aqui”. Soou como um chamado à valorização da produção cultural negra, local e historicamente marginalizada.

Esse chamado ganha ainda mais força ao ouvir Larissa sobre sua relação com Salvador. “Saí de Salvador com vinte e poucos anos para morar no Rio, mas eu nunca saí de Salvador. Eu vinha praticamente todo mês, tinha projetos aqui, ofereci minha arte para a comunidade daqui. Minha produtora é soteropolitana. Nunca deixei de ser daqui. Sempre briguei pela cidade, apesar de achar que, em alguns momentos, a cidade não me viu como deveria. Mas eu nunca desisti de Salvador.”

Ao apresentar sua relação com o rock, Larissa recupera uma memória pessoal: o fascínio adolescente ao assistir artistas do rock quebrando guitarras no palco. Mas, rapidamente, desloca essa imagem para uma leitura realista de que aquele rock sedutor, barulhento, transgressor, não se apresentava como um espaço plenamente acessível para uma jovem negra baiana. É nesse ponto que surge uma das frases mais potentes da noite: “Eu não podia quebrar a guitarra, então resolvi quebrar o sistema”.

E é interessante como essa frase faz o link entre Rock in Gil e  o conceito de Desmonte, seu novo álbum, que será lançado em breve, em todas as plataformas digitais. A vontade adolescente de quebrar tudo, quando amadurecida, se transforma em outra pergunta: o que é possível quebrar, desmontar,  e com qual finalidade? O que fazer hoje, com essa guitarra nas mãos? A rebeldia permanece, mas ganha método. Não se trata de destruição, trata-se de uma rebeldia com causa, uma energia revolucionária que precisa ser canalizada para abrir caminhos, especialmente para mulheres e meninas que também desejam entrar na roda, ocupar a cena, fazer barulho e liderar movimentos.

Nesse sentido, Rock in Gil é também um reencontro de Larissa com a adolescente que foi: uma menina de espírito coletivo, liderança intuitiva e desejo de transgressão. Uma menina que, antes de o mundo lhe impor a necessidade de caber, já carregava uma força que não aceitava ser domesticada. Larissa falou sobre a sensação de precisar ser polida para transitar em determinados espaços, uma existência dosada, mediada, ajustada para ser suportada. 

Vinda de uma realidade periférica, mas também atravessada por trânsitos com a classe média, ela reconhece os modos sutis pelos quais se exige de uma mulher negra certa contenção. O rock, então, aparece como uma linguagem que intervém nessa conformidade. Como possibilidade de devolver aspereza, volume e ruído àquilo que tantas vezes foi convocado a ser mais leve para poder sobreviver.

Para além da dimensão mais subjetiva, Larissa reivindica o rock como música negra, como fato histórico. Ao mencionar figuras como Sister Rosetta Tharpe, ela reinscreve o gênero em sua genealogia afro-diaspórica e desmonta a narrativa hegemônica que embranqueceu suas origens.

No que diz respeito ao legado, para além de uma homenagem, Rock in Gil é um diálogo e uma pesquisa. O espetáculo se inicia com uma troca de áudios entre Larissa e Gil, em um movimento de pedir licença e orientação, mas também de afirmar a continuidade. Gil, figura central da Tropicália, já havia tensionado  as fronteiras da música brasileira ao incorporar o rock como linguagem de experimentação e ruptura. Ao revisitar sua obra com a lente do rock, Larissa a interpreta a partir de uma perspectiva feminina e contemporânea. Ela encontra o rock em Gil e, ao fazer isso, também encontra uma chave para recontar sua história e a história da música preta brasileira, que é consideravelmente alimentada pelo rock.

Essa recontagem, como Larissa me disse, tem a ver com uma retomada. Retomada de coisas que nos foram retiradas pelos processos de colonização. Quando pessoas negras reivindicam uma parte da história que não foi contada, não se trata de apagar ninguém, nem de transformar memória em ataque. Trata-se de inclusão, justiça e reparação. Ainda assim, esse gesto provoca um embate imediato, porque toda vez que uma narrativa negra reivindica seu lugar, a branquitude tende a ler essa afirmação como ameaça. Por isso, é preciso desmontar essas estruturas: para que a história possa ser vista em sua inteireza, segundo a artista.

O espetáculo também está profundamente ancorado no presente. Vivemos um momento político global marcado pelo avanço de agendas conservadoras, pelo recrudescimento do racismo e pelo enfraquecimento de direitos. Nesse contexto, a arte não pode se dar ao luxo da neutralidade. Em um dos momentos mais diretos do show, Larissa afirma em alto e bom som: nenhum passo atrás”. A frase ecoa como palavra de ordem, atravessando o público com a força de quem entende que cultura também é ferramenta de mobilização. “Eu não separo cultura de existência. A cultura é crucial na nossa formação como indivíduos e na formação da nossa identidade. Ela ajuda a gente a se conectar com a nossa história, com  nossas origens, faz a gente se sentir pertencente e ter outra postura diante do mundo.”

Segundo Larissa, a cultura mexe com camadas profundas da vida: com a crença em nós mesmas, com a possibilidade de amar, de criar, de resistir e de imaginar outros futuros. “Toda arte é política, não porque precise necessariamente carregar um discurso explícito, mas porque molda pessoas, subjetividades e formas de estar no mundo.

A potência do espetáculo é ampliada por uma banda composta, majoritariamente, por homens negros, muitos deles jovens, mas já com trajetórias relevantes. Juntos, constroem uma sonoridade com intensidade musical, densidade política e tecnologia. Há algo muito bonito nessa cena: uma artista negra no centro, conduzindo uma pesquisa sobre memória, rock, ancestralidade e futuro.

Esse movimento agora se desdobra em Desmonte, seu novo álbum. Para a artista, Rock in Gil abriu caminhos para Desmonte, como forma de  aprofundar essa travessia em chave autoral. O disco nasce dessa mesma energia de retomada e transgressão: desmontar estruturas, desmontar apagamentos, desmontar aquilo que nos disseram que não era nosso. “Rock in Gil foi um projeto trampolim. Ele me abriu portas para acessar camadas mais profundas de mim mesma. O disco é quase uma parte B desse projeto, uma parte autoral desse momento. Quero seguir com os dois shows, quase como lado A e lado B: o mundo da releitura e o autoral”, conclui.


Letícia Leobet, coordenadora adjunta da área internacional de Geledés 

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