Entrevista exclusiva com Criolo: ‘Fomos criados em uma sociedade onde vendem a mentira de que não somos capazes de nada’

Após dez anos, Criolo lança a regravação de seu primeiro álbum  ‘Ainda Há Tempo’. O álbum conta com parceiros como  Cabral Nave, Sala 70, Grou, Deryck Cabrera, Sem Graça, Papatinho, Tropkillaz, Daniel Ganjaman , Marcelo Cabral e o MC Rael. Em entrevista exclusiva Criolo fala sobre, música, cultura, genocídio e política.

Por Natália Sena para o Portal Geledés

PG:  Criolo, primeiro eu gostaria que você me falasse  um pouquinho deste relançamento do ‘Ainda Há Tempo’.Porque você sentiu a necessidade de relançar algo e não criar um álbum novo?   Também gostaria que você comentasse se existe diferença nas suas músicas do começo da carreira e as músicas de hoje.  No álbum ‘Convoque seu buda’ por exemplo sinto um contexto de aprendizado do decorrer da vida, um discurso mais amadurado. Já no do ‘Ainda Há Tempo’ percebo um disco de protesto, da realidade na zona sul de SP.

Criolo: Olha, o que aconteceu é que eu e Dandan acalentamos um sonho de um dia fazer um show de “Ainda Há Tempo’, que nunca fizemos, só que assim que a gente fechou a tampa do disco, sumiu a master do disco e ninguém conseguiu achar, então tudo surgiu da vontade de fazer um show que fosse para comemorar  os dez anos do primeiro disco. Ai o Ganja teve a ideia de convidar uma serie de beatmakers e produtores para fazer parte deste segundo momento desta história que é uma mesma história só que em outro momento. Eu achei maravilhoso porque essa ideia dele, trouxe um movimento que aconteceu há quinze anos atrás de eu ir nas quebradas visitar os produtores e  mostrar uma letra ou pedir um beat e assim surgia um tanto de musica,  foi ai que surgiu o ‘Ainda Há Tempo’ e isso foi bem legal.

O ‘Convoque seu Buda’ ele vem desse meu berço no rap e de um caminho recente, que começou com o ‘Nó na Orelha’ , de experimentar o que é cantar com um bando, do que é ter a oportunidade de gravar com músicos, o que é a oportunidade de gravar outras músicas de outros seguimentos musicais que eu tinha e pouca gente sabia, então eu vivi essa primeira experiencia no “No na Orelha’ e foi bem loko, e ai na estrada foi se criando uma unidade sonora, porque você vai se entrosando com os músicos, você vai tendo uma amizade e aprendendo com eles, tanto que  no  ‘Convoque seu Buda’, a gente teve muito mais colaboração, não apenas dos talentosos Daniel Ganjaman e de Marcelo Cabral na direção deste disco, mas de músicos fazendo uma construção sonora.

Eu acho que mistura um tano de coisas, o ‘Ainda Há Tempo’ saiu em 2006 mais eu pensei em fazer um disco em 2001, eu acho que é um conjunto de todas essas energias de antes, todas essas energias deste pequeno durante e deste agora que se reúnem e vão refletindo neste momento, de modo sonoro, de modo escrito e isso vai aparecendo. Mas existe muita coisa disto que eu tô te falando e muita coisa pontual de cada um em casa momento, e é muito loko isso porque ‘Chuva Acida’ foi gravada em 2006 mas foi escrita em 1997, então não é só um recorte desde 2006, já que vem muitos outros lances lá de trás, algumas musicas que foram para o Nó na Orelha já existiam há alguns anos e  de idéias antigas de  um outro tempo e de ideias urgentes naquele momento, não tem uma regra, é um tanto disto que eu estou te expressando e um tanto que eu não consigo expressar ou te descrever.

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PG Você precisou mudar alguma letra neste álbum?

Criolo: Eu falei recentemente para o Catraca Livre e para o Rap Nacional, quantas coisas a gente reproduz sem nem se ligar o que aquilo era, que foi absorvido culturalmente desta cultura cotidiana deste verbo vivo, que é resquício de um colonialismo. Quando Dandan chegou em mim e disse: “olha você usou a palavra denegrir, você sabe o que isso significa? Ta errado irmão, eu vou te explicar” , ele me deu a luz do conhecimento, e isso há 20 anos atrás. Muitas coisas da musica eu mudei, porque não mudar? Vai atrapalhar em quê…? Vai somar!

E não é só a música que você mudou, é uma história que você conta: “Olha por ignorância minha, por me faltar alguém pra me dar um toque eu cometi estas gafes. ” Quantas pessoas está música magoou? Porque a arte é sempre maior, não adianta o artista achar que ele é mais que a arte que ele desenvolve, porque não mudar? Quando eu falo: “Se o demônio usa saia, valorize sua mina”. Eu queria passar uma outra ideia, mais depois com o tempo você vai aprendendo que aquele jargão popular é mais um dos mecanismos de satanização da imagem da mulher . São pequenos detalhes que fazem toda diferença, e você aprende isso não tendo medo de ter contato com as pessoas , não tendo medo de ouvir as pessoas, não tendo medo de uma pessoa chegar e falar a real para você.

PG: Para você, porque é importante estar disponibilizando o seu álbum em download gratuito, porque você sente a necessidade de disponibilizar seus discos desta forma?

Criolo: A gente vem de um lance no rap da felicidade de passar uma fita para um amigo escutar, as vezes passava três meses para saber o que um amigo achou,  e ai quando saiu o CD, foi uma loucura,  porque era o lance do momento, e quando saiu o CDR…? Todo mundo pegava suas bases, fazia seu som com voz e batida pra mandar para os amigos e nisso tudo ainda vem internet, quando se fazia um corre atras de uma lan-house, é muito loko porque isso ajudou a gente, baixar beat de não sei onde, baixar beatstep de alguém, ver um documentário de não sei quem, mandar seu som por e-mail para alguém, era surreal isso, então a gente aprendeu isso, o natural, e eu segui está naturalidade, quando veio o ‘Ainda há Tempo’ ja na sequencia vários parceiros, vários blogs e site  deixaram disponível e é natural esse processo pra gente.

Porque é muito loko também, não é porque você deixou na rede que vão estar te escutando, não é porque está na rede que vão fazer download, tem tanta coisa boa e é muita soberba pensar assim, tem tanta coisa boa, mesmo que a pessoa curta a parada que você curte ou conhece seu trampo a pessoa tem a vida dela, as pessoas tem o seu tempo tomado por outras coisas, então só de se saber que existe uma possibilidade de alguém escutar seu som, isso ja é algo muito especial, no decorrer do tempo eu não esqueci de saber o quanto é especial alguém escutar um som seu. Então pra gente (quando eu falo pra gente, falo de todas as pessoas que estão trabalhando comigo) é muito especial. a gente foi aprendendo com esta comunicação com as ferramentas para esta comunicação.

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PG: O Criolo da favela das imbuias imaginava o Criolo de 2016 cantando fora do pais e com essa grande massa de publico ? 

Criolo: Nossa, você não sabe a felicidade que eu fiquei quando o Paulo Brown rolou uma musica minha na 105, no Balanço Rap, Nossa Senhora…! Um programa de rap que rolava cinco horas, você não sabe a felicidade que eu fiquei. O amor pela parada é eterno, o jeito, o como, os aprendizados, os sotaques, a bagagem cultural que cada pessoa te oferece no decorrer da sua vida faz total diferença, soma! E ai a gente vai vivendo nesse decorrer, no decorrer do cotidiano.

PG: Você descobriu a arte/rimas dentro da periferia, hoje outras pessoas continuam aprendendo e descobrindo arte através de saraus de dentro das suas comunidades de bairros periféricos.  Para você qual é a importância da periferia aprender a cultura dentro da periferia e qual a importância das outras pessoas aprenderem a cultura da periferia sem marginalizar a população existente daquele grupo?

Criolo: Eu acho extremamento importante você já, desde pequeno, reconhecer e sentir a real presença de uma possibilidade de ser capaz de construir algo. Quando o rap chegou para mim eu vi um amigo fazendo um versinho e achei aquilo loko, guardei. Mas o rap chegou pra mim mesmo quando eu escutei uma musica que tinha sete minutos e tudo rimava, no final, o locutor falou: “essa é a musica ta, da pessoa tal, e isso se chama rap”. E falava da quebrada, o cara não era do meu bairro, não sabia da minha história de vida, da minha família ou qual que era o nosso role, mas parecia que o cara estava cantando para mim.

E eu imaginei: “Se esse irmão fez eu posso fazer também. Será que é errado fazer?” Porque nós fomos criados em uma sociedade onde vendem uma mentira de que não somos capazes de nada, somos pessoas que tem que apertar os botões, somos os serviçais. Então a arte vem para mostrar que você é capaz, que você é ser humano, a  arte humaniza, ela te faz lembrar que você não é um robô que os caras querem que você seja. É muito importante qualquer ação, pequena ou grande, qualquer ação, quando é de arte.

La no Grajaú tem o  Xemalami, que dá aulas de xadrez e faz analogias sociais de como nós nos encontramos, como enxergam e como movem estas pessoas. E eles tem uma preocupação social absurda.

O pagode da 27, nasceu de um grupo de meninos que estavam fazendo um som na quebrada e viram que a molecada da rua reparava nos instrumentos musicais, achavam bonito, hoje o pagode 27 tem mais de dez anos e é de valorização do compositor das quebradas de todos os bairros.

São muitas ações, o projeto imargem  com tantas pessoas  que fazem coisas maravilhosas e tem uma preocupação de jogar para a sociedade como resolver esta questão de manancial se cada vez mais vocês jogam nosso povo às margens? Vocês nos jogam aqui e nos esquecem aqui, sem saneamento básico? Sem o minimo de uma preocupação, para gente crescer, e se desenvolver?

Como é importante a gente ver, viver e sentir cada pequena ação que acontece, a gente se reconhece mais forte, a gente se vê um ser humano capaz, quando qualquer adolescente percebe que ele é capaz de fazer algo, que ele é capaz de uma mudança, que ele é capaz de contribuir com algo maior… é uma libertação.

Só o processo criativo que nasce dentro da periferia já é absurdo, mas tudo o que está ao redor e não se percebe ou não tem nome também causa um impacto social de crescimento, de reflexão, que é brutal.

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PG: O genocídio do jovem negro ou da população periférica  é uma realidade  que chega em você hoje ou chegou em algum dia?

Criolo: Este termo, esta frase ‘O genocídio do jovem negro’ , ‘O genocídio da população negra’ é uma frase que alerta para uma coisa que acontece desde que o Brasil é Brasil. A gente que é de quebrada vê muita coisa, não é que a gente leu um livro ou viu na televisão uma imagem de um bairro distante onde atrocidades ocorrem, a gente estava la, a gente está la.

Eu vi algumas coisas minha irmã, vi o ódio que tem ao redor, o ódio que é jogado pra cima da gente e todas as ferramentas que nos oferecem para uma auto-destruição, todo descaso social é uma ferramenta, toda arma que chega, toda droga, é uma ferramenta para a nossa auto destruição.

Ai minha irmã é aquela fita: “ah, esses barrigudinho ai, vai morrer de desnutrição, esquente a cabeça com eles não” , e a gente não morre. “Isso ai com 13 ou 15 vai morrer de violência urbana” e a gente não morre, e a gente estuda e mostramos a nossa capacidade, o nosso potencial, e o que eles fazem? Sucateiam a escola, humilhando a imagem do professor. E o que a gente faz? Vai para as universidades… Tentam de todas as formas, mas não vão conseguir, não vão conseguir.

O que ta acontecendo hoje é que  muito mais gente está tendo uma visão da periferia de como os nossos jovens negros são tratados, e como é bom terem este contato, muita gente se assusta. Eu tenho falado isso, pessoas horrorizadas e eu também , com a menina que foi empancada por causa da cor da roupa dela, menina trabalhadora, uma criança…

E quando você vira para uma pessoa horrorizada com esta situação e diz que na quebrada as pessoas são assassinadas pela cor da pele? É um choque de mente, mas não para deixar ninguém para baixo, é pra pensar junto no que fazer de positivo para mudar isso, porque tem umas paradas que não dá pra aceitar. Tem que respirar fundo, ter serenidade que os caras querem mesmo que a gente perca a cabeça. O nosso povo é lindo, não vamos deixar os caras vender está ideia de que o nosso povo é bagulho.

PG: Você comentou que hoje mais pessoas sabem da realidade de dentro da periferia, você acha que o rap tem uma influencia nisso?

Criolo: Muito, muito. O rap foi criando força e o mérito é dos nossos professores que iniciaram tudo isso aqui, de todos os DJs, de todos os MCs , que lutaram pelo espaço do hip hop, com todas as suas vertentes. Sempre gritamos isso, sempre falamos isso, o rap  sempre falou: “tem uma coisa errada acontecendo aqui, e a hora que o bagulho virar não reclama”  porque o mal quando vem é pra todo mundo, não adianta você achar que ele não vai chegar em você.

PG: Como você sente que vai ser com este novo cenário politico?

Criolo: Não da para saber, porque é um movimento pautado em uma não melhoria para o Brasil, essa guerra de interesses visa interesses que não estão ligados na melhoria do nosso povo, agora ao mesmo tempo você vê as pessoas lutando pelo que acreditam, cada vez mais, e é nisso que temos que nos apegar, o que eu posso te dizer é que para nós nunca foi facil, eles estão com o poder nas mãos desde que as caravelas aqui chegaram, agora, cada vez mais, cada um ao seu modo de uma maneira natural eu percebo que os jovens se articulam e fazem uma total diferença.

PG: O que tem na sua música que consegue atingir alem da periferia?

Criolo: A música não pergunta CEP, a arte é isso, ela não pede licença, a arte ensina, eu imagino a arte sendo uma energia que vem de várias formas.

PG: Varias pessoas que estão começando mandam material para o Portal Geledés para divulgação, o que você diria para estas pessoas que estão começando?

Criolo: Faz com sua energia, com seu coração que um dia isso vai chegar nas pessoas.


Você pode baixar o download completo de Ainda há Tempo neste link 

Confira o álbum Ainda Há Tempo completo:

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