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Especialistas refletem sobre como a heteronormatividade compromete as relações

Ela não tinha medo de bolada ou esbarrão. Jogava ‘feito um menino’- diziam. Era chamada de ‘Moleque Macho’ por não gostar tanto de boneca e não ter um ‘jeito sensível e delicado’. Além de esportes, a comunicóloga Laiz Mesquita, 30 anos, sempre gostou de luta, skate e de coisas tidas como masculinas.

Por Naiana Ribeiro, do Me Salte 

“Quando quis meu primeiro skate, lá pros sete anos de idade, ouvi: ‘Você não pode porque é menina’. Com carrinho de controle remoto foi a mesma coisa”, conta ela, que é heterossexual. Desde cedo, Laiz entendeu como funciona a sociedade: quem não se encaixa nos padrões ditos como ideais é excluído. “Percebi o quanto isso era ruim ainda na infância, quando era proibida de brincar de coisas simplesmente por ser menina”, afirma.

Laiz Mesquita (Foto: Arquivo Pessoal)

Ela não fazia ideia na época, mas todas essas regras sociais são fruto do sistema heteronormativo. E, ao contrário do que muita gente pensa, afeta não só homossexuais. “Heteronormatividade tem a ver com uma idealização de expressão de gênero. É essa obrigação de que todos se comportem como heterossexuais, tendo ou não práticas heterossexuais. Nessa ordem social, entende-se que homem tem que ser másculo, viril e a mulher tem que ser feminina. Quem foge do padrão é marcado”, explica o psicólogo Gilmaro Nogueira, que pesquisa Cultura e Sexualidade pela Universidade Federal da Bahia (Ufba).

No sistema, os comportamentos associados a cada gênero são postos como a única opção válida e normal aceita pela sociedade, pontua Nogueira. “Precisamos nos desfazer dessas ideais de gênero. De que tal corpo é natural e os outros são desviantes”, acrescenta.

Psicólogo Gilmaro Nogueira (Foto: Reprodução/Twitter)

Essas normas também refletem na sexualidade. A comunicóloga Laiz, por exemplo, chegou a pensar que era lésbica – o que não seria um problema – por conta de tantas imposições. “Tinha uma amiga muito próxima, fiquei pensando sobre esse sentimento e percebi que era só amizade. Muitas vezes teve burburinhos na escola e na faculdade. É louco como as pessoas estão se preocupando com a sexualidade de uma pessoa que não tem nada a ver com a vida delas e ainda insistem como se tivessem plena certeza sobre aquilo”, destaca ela, que foi muito cerceada na infância e na adolescência.

Tudo porque, além de ter praticado esportes radicais e lutas – como capoeira, judô, krav magá, entre outras – Laiz fala palavrão, expressa suas opiniões e se impõe. “Esse posicionamento de não abaixar a cabeça pra tudo é visto como ‘de menino’, o que é bizarro. Tomo a frente para defender meus amigos. Esse lugar da proteção, da segurança, é socialmente visto como um ‘lugar de homens’”, exemplifica.

Apesar de ter sofrido bastante, a pesquisadora tenta desconstruir padrões heteronormativos com os sobrinhos, através de presentes, brincadeiras e ações diárias.

“Me sinto mulher, não tenho questões com meu gênero e nem com a sexualidade. Mas determinadas coisas era complicado ouvir porque só eu sei como sou e como me sinto. Não temos que provar nada para ninguém. Não preciso provar minha feminilidade. Minhas atitudes e gostos não vão me tornar mais ou menos mulher”, defende Laiz.

Quem também sofreu com esses padrões de gênero ainda na infância foi o diretor de cinema Klaus Hastenreiter, 27, que sempre teve referências muito femininas. “Detesto futebol. E quando eu falava isso com orgulho na infância perguntavam se eu era gay. Nunca chegou a me incomodar, por eu sempre entender não ser algo pejorativo, mas me parecia um preconceito tão bobo que só fez eu me afastar mais dos meninos da escola. E é tão engraçado ver hoje essas mudanças de consciência e conseguir ver todos eles percebendo um a um os erros que a heteronormatividade levavam eles a pensar. Até quando eu decidi me tornar ator fizeram muitos comentários sobre sexualidade”, comenta ele, que é hétero.

Klaus Hastenreiter (Foto: Arquivo Pessoal)

Uma vez, em uma peça da escola, Klaus quis fazer um papel feminino e foi de vestido para o ensaio. Seus pais foram chamados na escola e, na sala da direção, ele teve que se explicar. “Meu pai lembra dessa história com muito orgulho, quando eu respondi na frente da diretora que queria fazer um papel de mulher. Eu não sou ator, ora?”, lembra.

Hoje, Klaus tenta desconstruir estereótipos diariamente. Ele, inclusive, é diretor do curta-metragem O Sorriso de Felicia, que fala sobre a relação opressiva da heteronormatividade em festas sob uma ótica de terror musical com uma protagonista lésbica. O filme foi selecionado para o Transforma – Festival de Cinema da Diversidade, em Florianópolis.

“A heteronormatividade é péssima para sociedade porque apresenta um modelo de vida considerado como normal, marginalizando qualquer tipo de pensamento que discorde do status quo. Quem não segue, não pertence”, opina.

Machismo estrutural
E, se Klaus e Laiz sofreram com as pressões dessas normas, imagina quem não é hétero? “Não é uma olimpíada de sofrimento, mas isso atinge heterossexuais e homossexuais de forma diferente. Os héteros podem se expressar em público. Quem é gay precisa socialmente se comportar como hétero”, afirma Nogueira, que é gay.

Heteronormatividade, para ele, tem a ver com a materialidade do corpo, com o parecer ser. “Precisamos humanizar corpos diferentes. A sociedade valoriza muito a materialidade do corpo. A heteronormatividade atinge a todos. Mas as bichas afeminadas, por exemplo, são as que mais morrem. Um homem gay que é bem masculino nunca vai ser alvo de injúria. Já uma bicha afeminada… A heteronormatividade pune quem desobedece. E funciona como ameaça”, acredita o especialista.

Apesar de entender que essas imposições afetam héteros, gays e bissexuais, independente de gênero, a especialista em políticas públicas e justiça de gênero Bruna Santiago Franchini acredita que as mulheres – principalmente lésbicas – são as mais afetadas por essas normas. “Todas as mulheres vivenciam a heterossexualidade compulsória ao longo de toda sua vida por terem sua sexualidade não só apagada e deslegitimada, como instrumentalizada e até erotizada”, afirma.

Bruna Santiago Franchini (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar de similar, o conceito de heterossexualidade compulsória é anterior à ideia de heteronormatividade. Tem a ver com uma análise das estruturas de poder que criam e se beneficiam da heterossexualidade enquanto instituição política, enquanto ferramenta de manutenção de determinada ordem social. “A heterossexualidade não é só uma orientação sexual, mas uma ferramenta de controle, uma forma de manter a supremacia masculina. Por meio da romantização das relações heterossexuais – tanto afetivas, amorosas, quanto sexuais – a mulher é levada a construir toda a sua vida em torno de homens”, explica a bacharel em Direito.

Elas também são ensinadas a rejeitar relações com mulheres, acredita Bruna: “Faz parte da tanto a noção de que a heterossexualidade é normal e a homossexualidade/a lesbianidade são desviantes, quanto a construção de que ‘amizade entre mulheres não existe’, ‘mulheres são naturalmente competitivas’… Tudo feito para minar as potencialidades de relações entre mulheres”.

Por isso, acrescenta Bruna, tantos homossexuais acabam por se descobrir mais tarde, alguns até depois de terem vivenciado relações heterossexuais, como foi o caso da youtuber Alexandra Gurgel, 30, que se entendeu lésbica aos 29 anos. “Olhando pra trás, percebi que sempre fui sapatão. Não foi fácil”, conta ela em um vídeo no seu canal do YouTube.

Alexandra lembra que tinha uma necessidade de se reafirmar como hétero a todo momento e procurava a validação de um homem. “Queria ser aceita de alguma forma. E aí percebi que a gente cresce assim. Desde pequena aprendi que tinha que ser bonita para agradar ao homem. A menina tem que conquistar um menino. Ela vai ser a princesa, fofa, delicada, maternal e sensível. E o menino vai ser esperto, inteligente, viril e provedor da casa. Quando me entendi mulher lésbica percebi que tolhia a minha sexualidade desde pequena”, acredita Alexandra.

Para Bruna, a heterossexualidade compulsória não dita só que o ‘normal’ é a atração pelo sexo oposto, mas pelos papéis sociais que cada gênero desempenha. “Não basta uma mulher gostar de um homem e se relacionar com ele: é necessário que cada um desempenhe determinado papel nessa dinâmica. Por trás da compulsoriedade da heterossexualidade está a necessidade de manutenção dos papéis sociais de gênero porque tais papéis são essenciais para manutenção da ordem social patriarcal”, explica.

Enquanto mulher hétero, a especialista Bruna conta que também sofreu com essas normas no limite do que uma mulher heterossexual pode sofrer. Teve relacionamentos abusivos e chegou a aceitar determinados comportamentos de parceiros para agradá-los. “Fazendo um balanço, eu vejo o quanto me submeti a relacionamentos muito abusivos por conta dessa ideia de que ‘mulheres têm que lutar pelo relacionamento’, ‘mulheres têm que ensinar homens como se relacionar’, ‘tem que ter paciência’, ‘homem é assim mesmo’. Eu fui ensinada a colocar meu amor próprio, meu orgulho, minha autoestima e meus limites de lado para agradar homens. Fui ensinada a mudar minha aparência e minha personalidade pra ficar mais agradável pra homens”, relembra.

“Passei muitos anos da minha vida me fazendo de burra e de desentendida para que o cara pudesse se sentir ‘grande’ do meu lado. Acho que isso foi o que mais me marcou”, acrescenta. A heterossexualidade compulsória e o sistema heteronormativo afetaram, inclusive, a relação de Bruna com mulheres. “Aprendermos que mulheres não são amigas de verdade, que não são confiáveis… Passei anos acreditando nisso e focando em fazer amizades com homens”, conta.

As coisas só mudaram depois que a pesquisadora começou a estudar teoria feminista radical e mergulhar de cabeça no movimento. “Passei a centrar toda a minha vida em torno de mulheres. Reavaliei minhas amizades, minha relação com minha mãe e até quem produzia os produtos que eu consumia. Isso só foi possível porque entendi o quanto a heterossexualidade compulsória havia deixado marcas profundas na minha vida”, considera.

Mini-glossário

Heterossexualidade compulsória: Expressão criada pela estadunidense Adrienne Rich compreende a heterossexualidade como uma instituição política. Com isso, a mulher é parte da propriedade emocional e sexual dos homens.

Heteronormatividade: Termo criado em 1991 pelo teórico americano Michael Warner busca dar conta de uma nova ordem social. Esse sistema exige que todos indivíduos – independente de sexualidade – organizem suas vidas conforme o modelo da heterossexualidade.

Gênero: A maneira como você se enxerga; o gênero com que se identifica fazendo parte.

Orientação sexual: Indica por quais gêneros a pessoa sente-se atraída, seja física, ou emocionalmente. Mostra para qual – ou quais – lados a sexualidade está orientada.

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