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Negras e negros estão mais próximos do feminismo do que brancos no Brasil, aponta pesquisa

Datafolha também mostra que quase metade dos homens evangélicos apoiam o movimento

Por Vitória Régia da Silva* no Gênero e Números

Coletividades negras se reúnem em manifestação no 8 de março, em São Paulo|Foto: Tuane Fernandez/Mídia Ninja

As pretas são as brasileiras que mais se consideram feministas, entre as mulheres que declararam adesão à causa política. Entre os homens, quase metade dos praticantes de religiões evangélicas declaram apoio ao movimento. Esses são alguns resultados da primeira pesquisa do Datafolha direcionada para o tema, divulgada neste domingo (14/04).

As mulheres que se autodeclararam feministas representam 47% das pretas, 37% das pardas e 36% das brancas ouvidas no levantamento. No geral, 38% das brasileras se consideram feministas, enquanto 52% dos homens dizem apoiar o feminismo.

“Se por um lado vivemos um momento mais conservador e reacionário, a pesquisa mostra que tivemos transformações na percepção e identificação com o feminismo. O número de mulheres negras que se identifica como feminista mostra que, pelo menos, o feminismo não é rejeitado dentro desse grupo”, afirma a pesquisadora e doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) Flávia Mateus Rios à Gênero e Número.

O Datafolha ouviu 2.086 brasileiros com idade mínima de 16 anos. Foram 1.095 mulheres e 991 homens em 130 municípios de todo o país, nos dias 2 e 3 de abril. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Para Rios, o crescimento e expansão do feminismo negro [vertente do feminismo que discute questões de gênero e raciais] se deve a ações afirmativas que permitiram que as mulheres negras chegassem à universidade, tivessem mais acesso a informação e se agrupassem em coletivos de mobilização.

“As feministas negras se apropriaram de ferramentas de tecnologia e comunicação, como as redes sociais, o que também possibilita uma difusão maior das discussões mais periféricas e da população negra. Também é importante destacar coletividades como os slams, a cultura hip hop e o funk, que têm se afirmado em termos de gênero e afetam principalmente as mulheres pretas, que são, em sua maioria, parte desse estrato social”, destaca.

Uma outra pesquisa realizada no Dia Internacional das Mulheres, 8 de março, em 2017, e divulgada com exclusividade pela Gênero e Número, já revelava que a maioria das manifestantes via a causa das mulheres negras como prioridade para o movimento feminista.

Homens e feminismo

Entre homens evangélicos, o apoio ao feminismo é significativo e chega a 45%. Entre os neopentecostais (de igrejas como Universal do Reino de Deus e Assembleia de Deus), esse índice sobe para surpreendentes 48%. Algumas lideranças desses segmentos são notórios detratores do movimento, como Silas Malafaia, pastor da Assembleia de Deus, e Marcos Feliciano (Podemos/SP), deputado federal e membro da mesma igreja.

Ainda entre os homens que declararam apoiar o movimento feminista, a proporção de pretos e pardos é maior (55% e 54%, respectivamente) que a de brancos (50%).

De acordo com a pesquisadora, há uma diferença significativa na forma como o feminismo negro lida com os homens negros e como o feminismo de modo geral lida com os homens, o que poderia explicar a diferença de apoio. “O feminismo negro nunca se radicalizou em relação à figura do homens, justamente pela experiência de opressão comum ao grupo racial, embora tenha forte críticas, seja autônomo, e enfrente o problema de gênero no interior da comunidade negra.”

Ela ainda destaca que as mulheres negras lutaram por uma politização maior dos homens negros no que diz respeito às hierarquias de gênero e a violência doméstica. Aos poucos, isso tem gerado uma conscientização maior e a construção de debates autônomos mais recentes, como a discussão da masculinidade negra.

Violência contra a mulher

De acordo com o Datafolha, nove em cada dez brasileiros concordam totalmente ou em parte que a violência contra a mulher aumentou no último ano. As pessoas pretas são as que mais discordam de que as leis no Brasil são adequadas para proteger as mulheres: 61%, contra 57% de brancas e 55% de pardas.

“Se as políticas públicas por um lado geram mais debate e recursos protetivos com relação à violência, não necessariamente elas vão reduzir objetivamente as agressões a que essas mulheres estão submetidas”, afirma Rios. “A população negra, as mulheres em particular, se sente muito vulnerável em relação ao Estado devido ao racismo institucional. O tratamento distinto entre negros e brancos faz com que as mulheres negras sintam essas diferenças e todas essas dimensões de discriminação”, completa.

Ao longo de uma década, entre 2007 e 2016, a taxa de homicídios de mulheres negras cresceu 23%, diante do aumento de 3% na taxa para mulheres não negras, segundo informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Datasus.

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