Estive na posse e entreguei a faixa presidencial sem sequer ter saído de casa. Em alto e bom som: foi uma mulher preta!

Escrevo este texto tomada por forte emoção. Não é tarefa fácil verter em palavras o que eu e milhões de brasileiras e brasileiros sentimos neste dia 1º de janeiro de 2023, histórico pela própria importância enquanto rito de troca de governança num Estado democrático de direito, cujo processo eleitoral garante a própria saúde do regime. Sabemos que, neste último pleito, a democracia estava num leito de uti. 

Ao assumir seu 3º mandato de forma democrática e após tudo o que foi feito para destruir sua biografia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tornou a cerimônia da posse um momento de fortes significados com caráter de celebração, reencontro, pacificação, ode à diversidade, festividade. E que festa!

O número de chefes e representantes de Estado presentes mostrou o desejo internacional de estender a mão ao Brasil após 4 anos de incivilidade e isolamento. As delegações de África se fizeram presentes também em número record, apontando um novo e necessário caminho de cooperação entre povos com passado colonial de dor e espoliação.

Entre tantos atos protocolares o mais aguardado em razão de um ineditismo tosco- a ausência do chefe do executivo federal, que evadiu-se do cargo e do país- a entrega da faixa presidencial gerou grande expectativa. A quem caberia tão honrosa função? Seria um figurão dos outros poderes? O suspense foi mantido até a cena antológica ser exibida para o mundo: o povo brasileiro, representado por pessoas advindas dos grupos excluídos, subindo a rampa. Indígenas, mulheres, pessoas com deficiência, negros, operários, professores, moradores das periferias.

Poderia ser qualquer uma daquelas pessoas e o gesto já entraria para a História com o simbolismo de restituição do poder ao povo brasileiro e quando digo POVO me refiro aos grupos subalternizados para os quais pouco se olhou e, inegavelmente, quando passaram a ter alguma visibilidade e atenção por parte do poder público foi durante as gestões progressistas e, por que não dizer, petistas.

Foi uma mulher preta! Novamente interrompo a escrita porque as lágrimas não cessam…

A faixa presidencial fora entregue ao presidente Lula pelas mãos de uma mulher com a cor da minha pele, com tranças como as que estou usando no momento, o mesmo sobrenome e uma trajetória marcada pelos atravessamentos que dificultam nosso caminhar. Aline Sousa, de 33 anos, catadora, filha e neta de mulheres negras também catadoras.

Entendi este ato como uma mensagem necessária à sociedade em relação ao crucial movimento da base a que nos relegaram fazendo de nós, mulheres negras, o grupo que amarga as mais perversas estatísticas. Este país só será melhor quando nos forem assegurados os meios de dignidade, justiça que convergem com as políticas do bem viver que tanto buscamos.

O nome disso é ressarcimento, mas posso também chamar de justiça ancestral.

Aline Sousa, obrigada por nos levar até o Planalto dando total sentido ao “sou porque nós somos” dos últimos tempos,


*Josi Souza é Historiadora, Professora da educação básica (Sec-BA), Mestra em Educação (PPGE-UEFS), militante feminista antirracista.

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