Estou farta de meu corpo ser mais do que um corpo

Estou nua, em pé diante do espelho do banheiro.

Por Danielle Campoamor Do Brasil Post

Meu corpo já caminhou muitos quilômetros, praticou snowboarding em montanhas e nadou em oceanos. Já sentiu dor imensa e níveis surreais de prazer. Já sentiu nada a não ser a doce inconsciência de uma boa noite de sono. Já correu quilômetros, foi pressionado ao limite e cooperou com outros corpos em busca de uma meta comum. Meu corpo já rejeitou uma gravidez, já deu à luz um filho e alimentou outra vida humana.

Ele é macio em alguns lugares, sólido em outros e lindamente cheio de falhas em toda parte.
O que estou olhando aqui não é apenas um corpo qualquer, é o meu corpo. É as veias, os órgãos, os tecidos, tendões e ossos que formam o eu que todo o mundo vê -que amam, aprendem, constroem e criam.

Ele é a ferramenta para a minha expressão. Sou eu quem cuida dele, e existem muitos outros como ele, todos trabalhando lado a lado e às vezes, esperemos, colaborando para curtirmos a vida que todos nós temos o direito de viver.

Mas o corpo da mulher raramente é tratado como corpo propriamente dito. Poucas vezes o corpo de uma mulher é visto como um instrumento palpável, controlado por uma pessoa, e uma apenas: a mulher que o habita. É raro esses corpos femininos serem tratados com respeito, desfrutarem do espaço que precisam ou pura e simplesmente serem deixados em paz.

Para os políticos, meu corpo é um voto potencial. Eles debatem sobre meu corpo, argumentam contra ou a favor dele e tentam decidir o que eu posso ou não posso fazer com ele. Discursam em comícios e do alto de pódios, usando meu corpo como estatística para justificar um argumento. Veem meu corpo como número numa coluna de cifras que pode ajudá-los a vencer eleições, conquistar terreno político ou alcançar uma base eleitoral xis.

Para professores e autoridades de ensino, meu corpo é fonte de distração. Eu só podia usar saias de comprimento maior que onde a ponta de meus dedos alcançava. Não podia usar blusas que deixassem a pele de meus ombros à mostra.

Não podia usar shorts de ginástica que fossem curtos demais, porque alguns dos movimentos da aula de ginástica poderiam parecer “sugestivos” para os garotos da classe. Meu corpo era motivo de perturbação para os garotos adolescentes e seus hormônios, e se alguma ação desses garotos fosse inapropriada, a culpa seria do meu corpo.

Para as pessoas que são contra o aborto, meu corpo é uma máquina de produzir bebês. Não tenho o direito de controlar minha capacidade de reproduzir; logo, se eu engravidar, sou obrigada a continuar grávida. Se minha mente sabe que eu não poderia cuidar de um filho, meu corpo não pode e não deve concordar.

Se uma gravidez é algo que eu – a mulher que controla esse corpo – não quer ou não tem como encarar, ainda assim é algo que meu corpo fez; logo, preciso levá-la adiante.

De acordo com a religião, meu corpo é um templo. Não devo deixar muita gente entrar nele, não devo enfeitá-lo com tatuagens ou piercings e não devo usá-lo para me exprimir de maneiras não autorizadas por outros.

Um poder mais elevado é dono dos direitos sobre meu corpo, e, se eu não usar meu corpo para louvar esse poder ou dar glória a ele, nem sequer mereço possuir meu corpo.

Para as agências publicitárias, meu corpo é uma ferramenta de marketing. Ele precisa ser privado de comida, fotoshopado e usado para informar às outras mulheres que seus corpos não são bons o suficiente ou precisam de alguma coisa que seu dinheiro pode comprar. A sexualidade de meu corpo pode ser usada para vender sapatos, e sua atratividade pode ser aproveitada para vender hambúrgueres. Se ele não pode ser usado para vender nada, é inútil.

O corpo da mulher é sexualizado, menosprezado, desvalorizado, atacado,exposto, discutido, controlado e utilizado de modo vingativo por outros para promover suas agendas pessoais, políticas ou religiosas.

Ele foi usado ao longo do tempo como símbolo do bem, do mal e de tudo que existe entre um extremo e outro, e com um discurso tão poderoso que as pessoas esquecem que o corpo de uma mulher é em primeiro lugar e para sempre um corpo humano.

Estou nua, em pé diante do espelho de meu banheiro, e estou cansada, exausta e furiosa. Vejo pernas, braços, pele e curvas. Vejo um peito que se eleva, um sinal de nascença e um arranhão acima do meu joelho. Não vejo um voto, uma distração, uma máquina, um templo ou uma ferramenta de marketing.

Quero que meu corpo seja tratado como um corpo.

Quero que o corpo da mulher seja visto como corpo humano.

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