Félix, Carrasco e cenas pedagógicas da novela das nove, por Cidinha da Silva

Na primeira cena, Niko, personagem gay, doce, honesto, ético, generoso, empresário branco bem sucedido, além de ter adotado um menino negro (Jaiminho), é pai pela segunda vez por meio de fertilização externa. A dona da barriga solidária, Amarilis, resolve descumprir o acordo e, por meio de artimanhas de manipulação de material genético, tenta fertilizar o próprio óvulo, no intento de que a criança gerada fosse sua filha biológica. Na cena, a máscara cai.  O bebê volta para o pai (Niko), vencedor de disputa legal, mas Amarilis tenta de todos os modos retomar a posse da criança.

Niko, conforme a caracterização que fizemos, é um homem generoso e, por pouco não cai no canto de sereia siliconada emitido por Amarilis. É Félix, o vilão arrependido quem o salva, não pela utilização de argumentos lógicos e exemplos de conduta que explicitam a vilania de Amarilis, mas, pela intervenção precisa e didática de Carrasco, o autor.

O nome Carneirinho, alcunha de Niko forjada por Félix evoca várias coisas: os cachos do cabelo loiro lembram a pluma angelical dos carneiros, a pureza e inofensividade desses animaizinhos contabilizados por crianças e adultos em horas de chamar o sono. É também simbologia daquele que é facilmente manipulável. Sabedora disso, Amarilis, ex-melhor amiga de Niko, tenta enganá-lo ao reaproximar-se arrependida e sofrida.

Carneirinho é um homem bom (quase burro) e Félix que já foi do mal, sabe como o mal opera. Para Félix é evidente que Amarilis arma um golpe para tirar Fabrício (criança gerada por ela) do pai, mas Niko não consegue perceber. Entretanto, mesmo sendo tão bondoso (quase estúpido) e crendo na redenção da humanidade, Carneirinho sabe reconhecer a discriminação por orientação sexual e quando Amarilis, durante troca de puxões de cabelo com Félix, chama-o de “bicha qua-qua-quá”, Niko cai do céu harmonioso em que vive. Ele sabe que a discriminação a Félix expressa o que Amarilis pensa sobre todos os gays. Não é possível ou aceitável que ela se diga a melhor amiga de um gay e discrimine os demais. Bingo! Ponto para Carrasco.

Na segunda cena, Félix em cumprimento ao calvário de arrependimento, narra à irmã e ao cunhado todas as atrocidades feitas por ele com a família dela que inclui também uma criança, raptada ao nascer e jogada em uma caçamba de lixo. O ex-vilão, dono de humor pérfido, em momento de tensão da narrativa, solta uma piadinha qualquer e o cunhado, um homem fisicamente forte, reage e diz com a voz e com o corpo: “você não brinque comigo”! Só isso, mais nada. Não o desqualifica por ser gay, tampouco ameaça agredi-lo fisicamente. O novo modelo de homem heterossexual apresentado na cena da novela desqualifica Félix porque é um idiota que faz piada para contar algo muito grave, não por ser gay. Ponto para Carrasco, outra vez.

Niko, o pai de Jaiminho, preocupado com a formação de identidade afirmada do filho negro, realiza entrevistas para selecionar uma babá que possa acompanhar o garoto quando não está na escola e ele, o pai, está no restaurante. Entre as várias candidatas aparece uma mulher negra, linda, com um crespo poderoso, como aquele do Jaiminho no início do folhetim.

Niko, o sonhador que todos já conhecem, quer saber tudo sobre a vida da candidata, para consubstanciar a simpatia inicial que a moça despertara. Descobre então que ela já foi dançarina, viveu fora do Brasil, voltou, mora em alguma periferia da cidade cenográfica e busca um trabalho próximo do centro, onde possa dormir, pois objetiva retomar a faculdade de Artes Cênicas, por isso, candidata-se ao emprego, além de ter um traquejo imenso com crianças e experiência comprovada por duas cartas de recomendação.

Niko, um homem gay politizado, quando se trata da defesa e garantia dos direitos homoafetivos, quer saber sobre a orientação sexual da candidata e quer também perceber seu posicionamento sobre a homoafetividade, bem como sobre uma família não convencional. Maravilha das maravilhas, percebe na conversa que a profissional não é heteronormativa e mais, descobre que ela é lésbica. Os dois ensejam diálogo animado (que talvez nem precise ser ouvido pelas telespectadoras para evitar que uma cena de personagem coadjuvante fique demasiado longa). Niko encontra nesta conversa, um universo homoafetivo com marcadores de raça e condição socioeconômica, completamente desconhecidos.

O pai zeloso, constantemente enganado e traído por gente de má índole, encanta-se por essa babá do bem que será uma referência excelente para Jaiminho e a contrata. Mas, de repente, derrepenguente, meu amor me acordou, estava na hora do batente! Mas, de repente, derrepenguente, meu amor me acordou… era um sonho, minha gente!

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