Fernando Holiday é chamado de ‘macaco de auditório’ por vereador na Câmara de SP

Vereador diz que acionará Ministério Público; Camilo Cristófaro (PSB) diz que não quis fazer ofensa racial

Por Guilherme Seto, da Folha de São Paulo

O vereador Fernando Holiday (DEM-SP), coordenador do MBL. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

O vereador Fernando Holiday (DEM), membro do Movimento Brasil Livre (MBL), foi chamado de “macaco de auditório” no plenário da Câmara Municipal nesta quinta-feira (5). O ataque partiu do vereador Camilo Cristófaro, do PSB.

“Gostaria de falar que lamentavelmente o senhor Fernando Holiday usa das redes sociais, que ele é o grande macaco de auditório das redes sociais, que ele usa dando risada dessa Casa, explodindo as redes sociais, porque a população adora ver sangue, maldade, mentira, fake, onde ele acusa os seus colegas de vagabundos”, disse Cristófaro.

Holiday disse que recorrerá à Corregedoria da Câmara e ao Ministério Público de São Paulo por entender que foi alvo de ofensa racista.

“O vereador tem a mania de fazer xingamentos pessoais e de baixo calão. Geralmente ele faz fora do microfone. Desta vez foi racista e ao microfone”, diz Holiday à Folha. Ele afirma que Cristófaro também teria dito que ele precisava “comer banana”.

A irritação de Cristófaro com Holiday começou na sexta-feira passada (30), quando o vereador do DEM disse que os membros do Legislativo não trabalham durante entrevista para o apresentador Danilo Gentili, do SBT. Nesta terça (4), ele repetiu a afirmação no plenário.

“Ele [Gentili] me perguntou: ‘Os vereadores na Câmara Municipal trabalham?’ Eu disse: ‘Não’. É uma triste realidade, mas a maioria dos vereadores não trabalham”, disse.

Os parlamentares presentes na sessão se revoltaram, e Holiday se exaltou. “Eu não estou voltando atrás na minha fala. Se vossas excelências querem que eu repita, eu repito: a maioria dos vereadores desta Casa não trabalham.”

À reportagem, Cristófaro afirma que não teve objetivo de fazer ofensa racial.

“Não vem me chamar de vagabundo. Para mim ele é macaca de auditório do Chacrinha, que só quer aparecer. Racista? Ele diz isso para aparecer. Tenho branco, preto, índio e japonês no meu gabinete. Isso é conversa para boi dormir”, diz Cristófaro, que desde terça tem declarado que vai pedir a cassação de Holiday. Segundo ele, o membro do MBL teria quebrado o decoro parlamentar ao dizer que os demais vereadores não trabalham.

Holiday diz acreditar que Cristófaro pode ter tido intenção também homofóbica ao se referir a ele como “macaca” à reportagem. O vereador do DEM é homossexual.

“Pode ter sido uma mistura de ofensas por eu ser gay e negro. No plenário ele me chamou de ‘macaco’, uma ofensa racista, que é grave por si só”, afirma.

Em sua passagem pela Câmara, Cristófaro tem acumulado polêmicas.

Em março de 2017, a então vereadora suplente Isa Penna (PSOL), eleita deputada estadual recentemente, relatou ter sido empurrada e xingada por Cristófaro.

Segundo Isa, ele a xingou de “vagabunda”, “terrorista”, “cocô de galinha” e insinuou ameaças dizendo que ela não deveria ficar surpresa se “tomar uns tapas na rua”.

Em seguida, já fora do elevador, Cristófaro se aproximou da colega de plenário e lhe deu “um empurrão de leve”, de acordo com ela.

Em novembro de 2017, Camilo entregou R$ 3.000 a um assessor político da secretaria municipal de Transportes da gestão João Doria (PSDB), que foi afastado do cargo e motivou a abertura de uma investigação pela Controladoria Geral do Município.

O dinheiro foi levado pelo até então assessor político Elizeu Lopes ao gabinete do então titular da pasta, Sérgio Avelleda, que, “ao tomar contato com a embalagem, acionou imediatamente a polícia” e determinou ainda que ninguém deixasse a sala.

Cristófaro mantém-se no cargo devido a uma decisão liminar da Presidência do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Ele teve o mandato cassado em junho de 2018 por fraude eleitoral na captação de recursos de campanha.

Investigação feita pela Justiça eleitoral constatou que R$ 6 mil foram repassados para sua campanha por uma idosa de mais de 80 anos, moradora de Jundiaí, que não teria recursos para fazer tal doação.

Político de direita, ligado ao MBL, Holiday costuma ser antagônico a posições consolidadas do movimento negro. Ele é contra cotas raciais e o dia da Consciência Negra, por exemplo.

Em 2018, foi chamado de “capitãozinho do mato” por Ciro Gomes (PDT), que em fevereiro foi condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a pagar a ele R$ 38 mil de indenização por danos morais.

+ sobre o tema

As mulheres que se rebelam contra venda de meninas para casamentos no México

Inicialmente, Claudia* não havia pedido dinheiro em troca da...

Gibi, 85 anos: a história da revista de nome racista que se transformou em sinônimo de HQ no Brasil

Um dicionário de português brasileiro hoje certamente trará a...

Educação antirracista é fundamental

A inclusão da história e da cultura afro-brasileira nos...

para lembrar

Ator é vítima de racismo durante espetáculo:’Isso não pode ficar impune’

Uma espectadora interrompeu a peça e deu uma banana No...

Grupo antirracismo critica apoio do Liverpool a Suárez

Um grupo que realiza campanhas contra o racismo no...

Minas registra um novo caso de racismo a cada 22 horas e 16 minutos

Expressivo, número de crimes raciais levados aos tribunais está...

Austrália propõe mudar lei, mas aborígenes querem mudança real

Por: Liz Lacerda Alison Golding tinha 10 anos...
spot_imgspot_img

Quanto custa a dignidade humana de vítimas em casos de racismo?

Quanto custa a dignidade de uma pessoa? E se essa pessoa for uma mulher jovem? E se for uma mulher idosa com 85 anos...

Unicamp abre grupo de trabalho para criar serviço de acolher e tratar sobre denúncias de racismo

A Unicamp abriu um grupo de trabalho que será responsável por criar um serviço para acolher e fazer tratativas institucionais sobre denúncias de racismo. A equipe...

Peraí, meu rei! Antirracismo também tem limite.

Vídeos de um comediante branco que fortalecem o desvalor humano e o achincalhamento da dignidade de pessoas historicamente discriminadas, violentadas e mortas, foram suspensos...
-+=