quarta-feira, maio 25, 2022

Fim de Festa

Fonte: A escada de Penrose

Por Rui Herbon

 

Landgrab e landgrabbing são dois termos que aparecem frequentemente nas notícias, em especial nas que se referem a África, e aos quais convém encontrar equivalentes em português, já que se referem a problemas que não só não vão desaparecer da actualidade, senão que podem adquirir especial importância. Ambos têm que ver com a ocupação de terras, como a dos portugueses no Brasil, por exemplo, ou a dos europeus em África, quando repartiram o continente. Só que agora não se trata de uma conquista pelas armas, mas pelo dinheiro, que permitiu que uma série de países ricos tenham conseguido o controlo de 15 a 20 milhões de hectares na Ásia, América Latina e, sobretudo, em África.

O seu principal objectivo é o de destiná-las a plantações para a produção de bioetanol, o combustível ecológico para os automóveis. Um desses projectos, o da empresa sueca SEKAB, começou com uma plantação de 22 mil hectares na costa da Tanzânia, que serão irrigados pela água do rio Wami. Só que as vantagens que se podem conseguir com o facto de que os automóveis suecos consumam etanol ver-se-ão mais que compensadas pela destruição da floresta tropical e pelos danos causados à fauna (incluindo aos humanos que vivem dos recursos da zona) pelo desvio da água e pela poluição marítima, causada pelas grandes quantidades de fertilizantes e pesticidas empregados na plantação. O que poderia ter sucedido se se tivessem concretizado os projectos de estender estas plantações a uma superfície de 400 mil hectares, roçaria as dimensões de uma catástrofe natural. Por sorte, as acusações de colonialismo climático surgidas da imprensa sueca levaram a empresa a renunciar aos seus planos.

Muito mais séria ainda é a ameaça das explorações organizadas para proporcionar alimentos aos consumidores de outros países, que vêem como mais seguro produzir por sua conta em terras alheias do que depender da insegurança e dos preços oscilantes do mercado internacional. A Arábia Saudita recebeu este ano a primeira colheita de arroz produzida na Etiópia, em terras cedidas em condições que lhes permitem exportar toda a produção, enquanto milhões de etíopes estão ameaçados pela fome. China, Japão, Coreia do Sul, Malásia e inclusive Líbia e Egipto, participam nesta caça às melhores terras (com a correspondente água) para assegurar alimentos. O caso mais revelador é o da China, que não só está a planear grandes plantações para a produção de etanol no Congo (fala-se de 2,8 milhões de hectares), mas também sabe com clareza que para assegurar um consumo adequado de alimentos à sua população vai necessitar de produzi-los fora do seu território.

A pressão sobre os recursos de terra e água disponíveis levou um especialista da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas a afirmar que o país não tem outro remédio a não ser sair para o exterior em busca da terra e água necessárias. Situações como as da Etiópia ou Sudão, que arrendou um milhão e meio de hectares ao Egipto, Qatar e Kuwait, enquanto as organizações internacionais devem ocupar-se de alimentar os milhões de deslocados pela guerra no Darfur, podem no futuro dar lugar a graves conflitos sociais. Na instabilidade que se viveu em Madagáscar este ano, um dos assuntos que separava os dois grupos em contenda era a validade de um contrato assinado pelo governo derrubado com a empresa sul-coreana Daewoo, que lhe concedia 1,3 milhões de hectares – quase metade da terra arável do país – por um período de 99 anos para que neles produzisse cereais e óleo de palma que exportaria para a Coreia do Sul.

Que o acordo fosse criar 45 mil postos de trabalho num país com cerca de 20 milhões de habitantes não parece suficiente para justificar semelhante cessão. Cegos pelos efeitos de uma crise económica de origens financeiras que se apresenta como algo transitório, perdemos de vista o facto de que estamos também numa outra crise mais profunda e global: a dos recursos disponíveis para assegurar os níveis de vida do conjunto da humanidade. Deveríamos começar a pensar nisso para nos acomodarmos a novos padrões de vida, posto que a festa em que temos vivido até agora está prestes a acabar.

 

Matéria original: Fim de Festa

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