Fraca oposição pode ser maior trunfo para reeleição de Obama

Mesmo com a economia norte-americana enfrentando sérias dificuldades, Obama poderá ser reconduzido ao cargo, caso republicanos não consigam acertar um nome forte para bater o rival nas urnas.

Em 1992, durante a campanha do então governador do estado do Arkansas Bill Clinton à presidência dos Estados Unidos, o estrategista James Carville soltou a frase que hoje se tornou quase um bordão: “É a economia, estúpido!”. Se agora, 20 anos depois, o atual presidente Barack Obama tiver que deixar a Casa Branca após um único mandato, o slogan poderá ser adaptado para “Foi a estúpida economia”.

O consenso entre observadores da política norte-americana e integrantes do Partido Democrata é que, salvo a ocorrência de uma catástrofe natural ou terrorista, a economia deve dominar a opinião dos eleitores dos EUA quando forem às urnas no ano que vem.

O consultor de vendas em Washington Dan Odenwald, 36 anos, democrata durante toda a vida, é um exemplo dessa mentalidade. Ele acredita que a maioria dos norte-americanos é influenciada, principalmente, por questões econômicas na hora de votar.

“Com o desemprego acima dos 8%, a economia meio bamba e as pessoas, de maneira geral, sentindo-se inseguras com o seu futuro financeiro, a economia será o tópico principal das eleições”, avalia Odenwald. “No fim das contas, os norte-americanos vão votar no candidato que eles acharem que tem mais condições de nos trazer de volta ao crescimento e à prosperidade”.

O especialista em Estados Unidos do Conselho alemão para Relações Exteriores em Berlim, Joseph Braml, concorda com a avaliação. “A situação econômica será crucial na próxima eleição presidencial e parlamentar. Ele (Obama) foi eleito principalmente por jovens eleitores e por afro e hispano-americanos que acreditavam mais nele do que em seu oponente à época, o republicano John McCain, para fazer a economia se mexer novamente. Agora, ele precisava tornar a promessa uma realidade”, acredita Braml.

Não é apenas o grande número de norte-americanos fora do mercado de trabalho que preocupa. O crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) ficou abaixo dos 2% nos três primeiros trimestres de 2011 – apesar do pacote de incentivos de 787 bilhões de dólares aprovado em 2009 e que deve ser iniciado por agora.

Em termos futebolísticos, pode-se dizer que o desafio de Obama é como ter que virar um jogo com dois gols desfavoráveis e a apenas 20 minutos do final da partida. O titular precisa de um pouco de sorte na economia para manter seu “time” – a coalizão de votantes que o colocou no poder em 2008 – motivado e, na linha de frente.

Fiéis da balança

Como mostrou George W. Bush em 2000, quando eleito presidente dos EUA pelo colégio eleitoral – mesmo sem maioria do voto popular – nas eleições presidenciais importa menos a quantidade de votos do que acertar nas combinações de eleitores, nos estados certos.

As dificuldades da economia dos EUA têm levado insatisfação aos principais grupos de apoiadores de Obama. E isso pode tornar difícil convencê-los a ir às urnas em 2012. “Um terço dos latinos e afro-americanos vive abaixo da linha da miséria. Alguns dos seus antigos eleitores poderão ficar em casa, sem participar das eleições desta vez”, prevê Braml.

Obama também está arriscado a perder força entre o grupo de eleitores que pode se tornar fiel da balança num país dividido tão claramente em dois partidos de força: o grupo dos independentes.

“Toda eleição é um referendo sobre como as pessoas se sentem com relação à direção do país e o seu futuro, e se os eleitores acham que estarão piores com continuidade de tal cara no comando, eles o tiram de lá”, diz Odenwald. “Se o eleitorado ficar dividido, o que deve acontecer, então a linha tênue de eleitores independentes que se encontra entre os apoiadores dos dois grandes partidos, e que votaram em Obama em 2008, poderia decidir a eleição desta vez em favor de seu opositor.”

Candidato certo

No entanto, se a economia é o fator que mais vai trabalhar contra as chances de Obama de uma reeleição, a escolha do representante do Partido Republicano que vai enfrentar o atual presidente nas urnas será o fator que mais pode trabalhar em seu favor.

Em meio a tantas notícias econômicas desoladoras, observadores em Washington e de dentro do Partido Democrático, no entanto, se surpreendem com o fato de que Obama ainda é visto como uma boa aposta para continuidade na presidência. Pesquisas de opinião recentes mostram que o chefe de governo norte-americano ainda está levemente – no caso das grandes cidades, largamente – na liderança das intenções de voto.

Isso está ligado à escolha do candidato republicano. Pouco antes do início não-oficial das campanhas para as prévias, no estado de Iowa, nenhum dos oito prováveis candidatos emergiu como puxador de votos. A situação reflete a inerente dificuldade de unificar os três maiores grupos dentro do Partido Republicano: o religioso de direito, o de orientação de empresarial (chamados “Rockefeller Republicans”) e os ativistas do liberal Tea-Party.

“A reeleição de Obama poderia ser ameaçada por um candidato que fosse bem acolhido pelos conservadores cristãos, pelos adeptos do mercado livre e também conquistasse a simpatia dos seguidores do libertário Ron Paul”, avalia Braml.

Considerando que alguns candidatos sofrem com o pouco reconhecimento de seus nomes, enquanto outros acabaram se enfraquecendo por conta de escândalos privados ou mesmo atuação pífia, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney e o ex-presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos Newt Gingrich aparecem como os mais citados.

Dos dois, Gingrich, falante e, por vezes, irritante, é provavelmente o que tem menos chances. Ele chegou a ser censurado no Congresso por comportamento tido como antiético – dois divórcios após relações fora do casamento dificilmente não incorrerão em apelo negativo junto aos eleitores. Além disso, com seu recente trabalho como um consultor corporativo, fica difícil para ele se colocar como um uma boa aposta do partido.

Por outro lado, Romney poderia ser representar um grande obstáculo para Obama. “Da atual safra dos candidatos republicanos, ele é o que ofereceria maior apelo”, acredita Odenwald. “Conseguiria vê-lo atraindo democratas desiludidos e eleitores independentes. Sua história como homem de negócios de sucesso deve ter um apelo sobre aqueles que buscam um expert para transformar a economia. Ele também é menos incômodo e menos assustador para o eleitor médio norte-americano do que seus outros concorrentes republicanos.”

O ponto fraco de Romney como eventual candidato republicano, porém, é o fato de ele ser um mórmon que veio de um estado relativamente liberal no nordeste do país. Isso poderia assustar o eleitor republicano mais tradicional – mas da mesma forma isso também poderia influenciar no caso de Gingrich.

“Nenhum dos dois candidatos preenche todos os critérios. Talvez os conservadores cristãos optem apenas pelo ‘menos pior’ entre os dois, olhando para o principal objetivo que é bater Obama nas urnas. Também vai depender de quem mais estará na disputa. Se a escolha do candidato a vice-presidente também recair sobre um conservador de direita, então poderá haver um milagre”, avalia Braml.

Outro milagre seria ainda convencer os partidários do Tea-Party a apoiar outro, que não o candidato ideal que eles acreditam terem encontrado.

Um Ron no caminho

Enquanto a disputa interna entre os republicanos começou, o parlamentar Ron Paul, do Texas, mostra-se nada conservador clássico. Ele se opôs à invasão do Iraque e sugere que várias questões polêmicas, como a legalização do aborto e da maconha, precisam ser discutidas no governo. Este posicionamento provavelmente o coloca fora das disputa presidencial.

“Ron Paul tem apelo com um eleitorado muito restrito e libertário apaixonado. Mas ele não fala à grande massa”, argumenta Odenwald. “Seu ponto de vista sobre alguns temas, como a rígida interpretação da Constituição, deixa constrangidos até mesmo os republicanos mais conservadores”.

Mas como idealista firme em suas convicções, ele poderia representar uma pedra no caminho dos outros candidatos que buscam meios-termos.”Como em anos anteriores, Ron Paul deve obter cerca de 10% nas primárias, ganhando o voto dos libertários. Ele não tem chance de se tornar presidente, mas vai forçar os outros candidatos a discutirem seus tópicos econômicos libertários”, diz Braml.

Se Paul tem bom desempenho neste em Iowa, ele poderia sacudir a campanha das primárias da qual o vitorioso sairia tão destruído que dificilmente teria fôlego para concorrer à Casa Branca. E isso viria perfeitamente a calhar para Obama.

Autor: Jefferson Chase (msb)

Revisão: Augusto Valente

 

Fonte: DW World

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