terça-feira, setembro 21, 2021
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Futebol feio, racismo gaúcho e baladas

Jornal GGN – O ex-jogador Paulo Cézar Caju concedeu uma entrevista ao jornal Zero Hora e criticou o futebol gaúcho e o rodízio dos técnicos do Rio Grande do Sul na seleção brasileira. “Por que só Felipão, Mano Menezes, Dunga, Felipão de novo na Seleção? O estilo gaúcho está matando o nosso futebol. Por que não retomar o jogo cadenciado, bonito e objetivo?”. Na publicação, Caju falou de sua história no Grêmio e na seleção e comentou os últimos casos de racismo no futebol.

Por Jones Lopes da Silva

Aos 65 anos, o ex-jogador Paulo Cézar Caju ainda gosta de uma polêmica. Salvo quando sorri, faz humor e destila cacos de ironia e críticas apimentadas numa voz de locutor de rádio. Fala com eloquência e agora também escreve, por trabalho e gosto pelo debate.

Mantém um blog no jornal O Globo e continua o inquieto e rebelde de quando sagrou-se tricampeão com Pelé, Gerson e Tostão na Copa de 70 e seguiu no Botafogo de Jairzinho, Olympique de Marselha, no Fluminense de Rivelino e no Grêmio de Iura e Ancheta.

Sua grande irritação do momento é com o rodízio dos técnicos gaúchos que, segundo ele, se apropriam da Seleção e do futebol brasileiro e engessam um estilo único no país, o da força, do carrinho e do antijogo.

— Sou contra a falta de alternativa. Por que só Felipão, Mano Menezes, Dunga, Felipão de novo na Seleção? O estilo gaúcho está matando o nosso futebol. Por que não retomar o jogo cadenciado, bonito e objetivo? — disse, envergando a bandeira pela volta do drible em velocidade, do passe inteligente, do lançamento milimétrico.

Na conversa que você confere a seguir, Caju revela mágoa com o Grêmio por deixá-lo de fora das homenagens à equipe campeã do mundo de 1983, relembra suas passagens pela Seleção Brasileira na década de 70 e comenta os últimos casos de racismo no país. Confira trechos:

“Querem se separar do país?”

Que lembranças você guarda do Grêmio?

Me carregaram no colo quando cheguei ao aeroporto em 1979, o Paulo Sant’Ana me levou direto ao programa Sala de Redação (da Rádio Gaúcha), havia um ambiente gostoso no vestiário, não perdi Gre-Nal (1×1 e 2×1) e ganhei o campeonato gaúcho.

Mas queriam me quebrar no Interior. Eu não tinha medo, nunca tive lesão. No acesso ao gramado do campo do Bagé, jogaram um tijolo, podia me matar. O que é isso? Em Pelotas, quebraram o alambrado e invadiram o gramado. Em São Borja, 12 horas de ônibus, os caras de bombacha e facão na cintura encararam a gente. Outra: em Passo Fundo, a gente passou em meio a um corredor polonês formado pela torcida local e jogaram um copo de cerveja no meu rosto. O que é isso? E se o cara tem uma arma? Era contra mim.

De onde vinha essa aversão a você?

Porque eu era o negro que rebatia as besteiras que ouvia, que se vestia bem e tinha vindo do Rio. E quando eu vinha com a Seleção, eu não era um “sim senhor” e levava vaia. Por que isso? Prova de que vocês são bairristas e separatistas aconteceu no amistoso da Seleção Brasileira contra o seleção Gaúcha, em 1972, um dos maiores jogos da minha vida.

Vocês estavam mordidos porque que o Zagallo não havia convocado o Everaldo e 100 pessoas no Beira-Rio vaiaram o Brasil. Não tocaram o Hino Nacional! Só o Gaúcho. Vocês tinham Schneider; Espinosa, Figueroa, Ancheta e Everaldo: Carbone, Tovar e Torino; Valdomiro, Claudiomiro e Oberti. Lembro de tudo. Foi 3 a 3, fiz um gol, arrebentei naquele jogaço, sem nenhum pontapé. O presidente era o general Garrastazu Médici, gaúcho, e a gente pensava, vão nos matar aqui. Vocês já queriam se separar, não é? Se querem se separar, que façam.

Você só vê violência no nosso futebol?

O problema hoje é maior: o estilo gaúcho dos carrinhos e da paulada tomou conta do futebol brasileiro. Olhem dos últimos técnicos da Seleção, tem o Celso Roth, Paulo Roberto Falcão, Tite, Carpegiani. Por que não resgatam a pose de bola. É, claro, tem de saber jogar.

Falo isso porque é o meu lado crítico. Gosto do drible, que morreu. Gosto do balãozinho, não da cotovelada, do choque de cabeça. Quero ver o futebol que o Falcão fez na Roma, o que eu fiz no Olympique de Marselha, o Luiz Pereira no Atlético de Madrid. Quem é ídolo lá do Sul? Um argentino (D’Alessandro).

“Apaguei o Grêmio de 83”

O que aconteceu com você e o Grêmio no Mundial 1983?

Não falo. É um assunto morto. Não significa nada 1983 (à época, Caju foi contratado apenas para o jogo da final do Mundial de Tóquio e se sagrou campeão contra o Hamburgo). É tão chato isso. Quando surgem os eventos e não me convidam, eu fico puto. Não quero nem que me liguem mais, apaguei o Grêmio de 83.

É só mágoa pelo esquecimento?

Não falo no assunto. Minha história com o Grêmio é a de 1979, o resto não existe mais para mim. Vencemos o Gauchão sobre o timaço do Inter de Falcão, e o ambiente era maravilhoso no Olímpico, com Manga, Ancheta, André, Éder…

A Seleção de 70 é a melhor da história?

Um time mágico, de três canhotos: Gerson, Rivelino e Tostão. Cinco números 10: Jairzinho no Botafogo, Rivelino no Corinthians; Pelé no Santos, Tostão no Cruzeiro e Gerson no São Paulo. Um centromédio: Clodoaldo, que não era pitbull, carregador de piano, gladiador, guerreiro, apenas centromédio. Quer que eu narre o lance do quarto gol do Brasil contra a Itália? Carlos Alberto era maior do que Djalma Santos, que vi jogar. Havia o Brito, Piazza, excelentes, e o Marco Antônio, que era muito mais jogador que o Everaldo.

Como o grupo era forte e solidário e também pensava o time, a gente pediu ao para que o Everaldo jogasse. Era mais equilibrado, o garoto Marco Antônio estava deslumbrado. Copa se ganha assim, com gente que opina. Quem jogou bola, é claro, não esses caras aí que não sabem m. nenhuma.

O que aconteceu na Copa de 74 e por que você não foi em 78?

Me sonegaram a terceira Copa, em 1978, porque eu bati de frente com o presidente da CBD, da época, Heleno Nunes. Eu era titular absoluto, como o Falcão, Luiz Pereira, Marinho Chagas, mas levaram Chicão e Batista. Nunca ganhariam da Argentina. Eu era contestador, não gostava de sacanagem, defendia roupeiro, massagista.

A história de 1974 contra a Holanda é que a chance de fazer o gol, não fiz. Eles foram lá e marcaram. Ganharam e acabou. Não é nada dessa superioridade que falam. Mas o ambiente já era dividido entre gaúcho, carioca, paulista e mineiro. A imprensa de cada Estado dava pau nos outros. Gaúcho não joga, põe fogo ali; paulista fora, põe fogo logo adiante. Vai minando o grupo.

“Cansei de racismo no Brasil”

O que dizer sobre os atos de racismo no país?

Olha, encheu o saco. Não é só o caso recente do goleiro Aranha com o Grêmio, que tem de ser punido. É problema de todo o futebol, da sociedade brasileira. Então, não pode ter pena, as pessoas têm de ser responsabilizadas, não pode ficar assim. Aqui no Brasil, falam, falam, mas continua tudo como antes, é uma hipocrisia só. São sempre os mesmos políticos, mesmos dirigentes, mesmos técnicos de futebol… Cansei de falar disso.

Como foi o caso de discriminação em Bagé?

Foi em 1967. O Botafogo fez um amistoso em Bagé e, depois do jogo, tivemos uma recepção num clube do centro da cidade. Lá estava escrito um cartaz: “Proibida a entrada de negros”. Eu tinha 18 anos, aquilo foi uma pancadona em mim, e fomos todos de volta para o hotel. Eu não tinha noção ainda do que representava o racismo, brabo assim.

Quando atleta, você não fumava, não bebia. Depois do futebol, houve um período de cocaína e álcool?

A droga começou em 1986 e foi até 2002, uma vida. Nunca tinha sido alcoólatra, nunca tinha fumado. Condenava quem fumava e jogava. Depois da bola, acabei caindo na cocaína e na bebida destilada. Por sorte é que nunca fumei cigarro. Quem cheira e bebe, em geral fuma. Como eu fui atleta limpo durante 20 anos, foi o que me salvou.

Meu pai foi alcoólatra, a irmã morreu disso, mas eu vivia sem nada quando atleta. Tinha dinheiro, sustentava o meu vício, no Rio ou na França. Só que você não percebe, vai cheirando tudo. Na França, uma grama custava 100 euros, eu não cheirava uma, eram 30, 40 gramas. E sempre havia uma mulherzinha acompanhando, e a coisa ia longe.

Como você saiu dessa?

Voltei para o Brasil, pedi ajuda de solidariedade ao Cláudio Adão (ex-atacante), pediu. Ele comprou a briga. O Daniel Hechter também fez muito por mim. Só que em Paris eu não conseguia me controlar, solteiro, com dinheiro. Mas no Rio fiquei um ano morando no apartamento do Cláudio Adão. Ele cuidou de mim, a gente ia junto à praia, caminhava, controlava remédio, andava comigo.

Um dia, não aguentava mais, queria sair. Ele disse, não. Se sair vamos te abandonar. Eu saí. Enchi a cara com batida de maracujá, comprei 50 gramas de cocaína. A partir daí, eu disse: não quero nunca mais. Fiz alcóolicos anônimos, a minha mulher, Ana, dizia: não quero um viciado na minha casa. E fui embora para São Paulo. Consegui vencer a droga.

Estou há 14 anos sem nada. Vou para a Europa todo ano, França, Itália, meus amigos no Rio bebem ao redor, não há problema algum, não tenho desiquilíbrio nenhum.

Fonte:Ggn

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