Geledés promove dois eventos paralelos à CSW70 

10/03/26
Por Kátia Mello [email protected]
Encontros que abordam justiça racial, emancipação econômica e governança global acontecem na sede das Nações Unidas em Nova York

No contexto da 70ª. Sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher(CSW70), que teve início nesta segunda-feira, 9, na sede das Nações Unidas em Nova York, Geledés – Instituto da Mulher Negra promoverá dois eventos paralelos dedicados à agenda internacional de mulheres afrodescendentes. Ambos vão tratar de dois eixos centrais do debate contemporâneo sobre igualdade racial e de gênero: boas práticas e políticas públicas escalonáveis sobre emancipação econômica e a participação política de mulheres africanas e afrodescendentes nos espaços de governança global. 

“O tema prioritário de discussão na CSW deste ano é o acesso à justiça por mulheres e meninas e o enfrentamento de barreiras que impedem ou dificultam esse acesso. Nosso objetivo ao propor esses dois eventos é ampliar o entendimento da Justiça para além do normativo jurídico; mas compreendê-la de forma indissociável da justiça econômica e justiça racial. Além disso, a intenção é, evidente, denunciar o racismo sistêmico enquanto barreira, mas também reafirmar o papel de mulheres afrodescendentes enquanto promotoras de mudança social e coletiva nas escalas nacionais, regionais e internacionais”, pontua Giovanna Coelho, assessora internacional em Geledés.

O primeiro encontro, intitulado Emancipação Econômica de Mulheres Afrodescendentes: Justiça e Desenvolvimento Sustentável”, será realizado no dia 16 de março de 2026, das 13h15 às 14h30 (NY) ou 14h15 às 15h30 (Brasil), na sede da ONU, e que é um dos eventos oficiais do Brasil para a CSW. A mesa reunirá representantes dos ministérios ou órgãos equivalentes de políticas para as mulheres da Colômbia, México, Noruega, Alemanha, Reino Unido, África do Sul e Brasil, além de representantes da ONU Mulheres, do Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), organismos multilaterais, e organizações da sociedade civil, incluindo uma representante de Geledés – Instituto da Mulher Negra. 

A discussão ocorre em um cenário internacional marcado por múltiplas crises interligadas — climática, econômica, política— que afetam de forma desproporcional mulheres afrodescendentes em diversas regiões do mundo. Apesar de avanços normativos importantes desde a Declaração e Plataforma de Ação de Pequim, indicadores globais sobre trabalho decente, participação econômica e acesso à inovação continuam a revelar desigualdades persistentes e estruturais. O encontro pretende discutir caminhos concretos para ampliar a autonomia financeira e a liderança econômica dessas mulheres, a partir de uma abordagem interseccional que reconheça suas contribuições para a economia do cuidado, para as transições ecológicas e para a economia criativa.

O Brasil vem exercendo nos últimos tempos uma posição mais comprometida de combate ao racismo. Portanto, torna-se fundamental que a delegação brasileira defenda uma linguagem explícita sobre racismo sistêmico como obstáculo estrutural ao acesso à justiça e a necessidade de financiamento adequado para políticas e instituições que atendam às necessidades específicas de mulheres negras. “Temos enviado recomendações ao Estado brasileiro em todos os rascunhos de negociação, de modo a contemplar uma perspectiva mais integral de justiça que inclua justiça climática, justiça econômica e justiça racial. Além disso, esperamos que esteja refletido no documento o desafio que as barreiras estruturais têm causado na condição de acesso à justiça das mulheres afrodescendentes”, afirma Letícia Leobet.

Nesse sentido, a autonomia econômica é compreendida como componente central da justiça racial e de gênero, diretamente vinculado à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, especialmente aos objetivos de igualdade de gênero, trabalho decente e redução das desigualdades. O evento também buscará destacar experiências de economia comunitária, cooperativa e solidária lideradas por mulheres afrodescendentes, identificando práticas inovadoras capazes de inspirar políticas públicas e modelos de cooperação internacional voltados à justiça econômica e à redistribuição de riqueza.

O segundo evento, intitulado “Emancipação Política das Mulheres Africanas e das Mulheres Afrodescendentes: Justiça e Governança Global”, será realizado no dia 18 de março de 2026, das 13h15 às 14h45, no espaço da Comunidade Internacional Bahá’í, localizado na United Nations Plaza. O encontro contará com a presença de lideranças da sociedade civil, organismos internacionais, governos e instituições filantrópicas. Participam como painelistas Letícia Leobet, copresidente do Stakeholder Group de Afrodescendentes; Kelsey Harris, representante do mandato do W20 dos Estados Unidos; Natália Carneiro, da Casa Sueli Carneiro; Annalena Baerbock, presidente da 81ª sessão da Assembleia Geral da ONU; uma representante da União Europeia; Nyaradzayi Gumbonzvanda, diretora executiva adjunta da ONU Mulheres; Carole Ageng’o, representante de organizações feministas da sociedade civil; e Mayara Aguiar, da Hewlett Foundation. Como respondentes participam Carolina Almeida, representante do mandato do W20 do Brasil, e uma liderança do continente africano.

O debate sobre emancipação política será dedicado à análise dos desafios e das possibilidades de ampliação da participação de mulheres africanas e afrodescendentes nos processos multilaterais de tomada de decisão. Apesar de avanços institucionais importantes nas últimas décadas, persistem barreiras estruturais que limitam a presença de mulheres negras nos espaços de poder, resultado de dinâmicas históricas associadas ao racismo, ao sexismo e ao legado do colonialismo.

Ao promover o diálogo entre sociedade civil, Estados, organismos internacionais e atores filantrópicos, os dois eventos de Geledés buscam fortalecer a articulação transnacional entre movimentos feministas africanos e afrodescendentes, ampliar a incidência política dessas organizações nos fóruns multilaterais e contribuir para a construção de modelos de governança global mais democráticos, inclusivos e comprometidos com a justiça racial e de gênero. As iniciativas também ocorrem em um momento marcado por restrições orçamentárias no sistema das Nações Unidas e por uma intensificação de reações conservadoras contra agendas de igualdade racial e de gênero, o que torna ainda mais urgente o fortalecimento de alianças globais em defesa dos direitos humanos.

Ambos os encontros serão realizados em formato de mesas-redondas híbridas, com participação presencial e interação com o público, reunindo representantes da sociedade civil, governos, organismos internacionais e instituições financeiras para debater caminhos concretos para a promoção da justiça econômica, da igualdade racial e da participação política de mulheres afrodescendentes no cenário internacional.

Para participar do evento “Emancipação Política das Mulheres Africanas e das Mulheres Afrodescendentes: Justiça e Governança Global” clique no link: https://forms.gle/WucjNsdDMk31Gocg8

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