Há 50 anos, John Coltrane gravava ‘A love supreme’

Luiz Orlando Carneiro

Há 50 anos (9/12/1964), o saxofonista John Coltrane gravou, no estúdio de Rudy Van Gelder, em Nova Jersey, à frente do seu então revolucionário quarteto, o álbum A love supreme (Impulse!).

O lendário músico – que morreria aos 40 anos, em julho de 1967 – não premeditara registrar uma obra-prima que se tornaria tão referencial no desenvolvimento da história do jazz quanto Black and tan fantasy (1927), de Duke Ellington, Kind of blue (1959), de Miles Davis, ou Free jazz (1960), de Ornette Coleman.

Afinal de contas, ele já estava mudando a mainstream do jazz – com concepções novas paralelas às de Ornette e Charles Mingus – desde 1957, quando gravou o LP Giant steps (Atlantic), cuja faixa-título sublinhava a consciência dos “passos de gigante” que já estava dando.

No entanto, A love supreme brilhou como um inesperado cometa no céu do jazz. E por volta de 1970, a magnífica “oferenda musical” do quarteto de Coltrane (McCoy Tyner, piano; Elvin Jones, bateria; Jimmy Garrison, baixo), já tinha vendido mais de 500 mil cópias – número muito significativo para uma peça jazzística nada comercial, dividida em quatro partes, com mais de 32 minutos de duração.

McCoy Tyner assim recordou a sessão de gravação da obra:

“Lembro-me de que Van Gelder diminuiu as luzes para criar a atmosfera de um clube. Acho que nem tínhamos ensaiado aquela música. Geralmente, John costumava tocar a música, e só depois gravava, e via no que dava. Uma vez que começávamos a tocar uma peça, novas ideias iam surgindo, além de interpretações diversas de um determinado tema ou de um grupo de temas. A love supreme foi uma espécie de suíte. Muitos dos arranjos eram head arrangements (arranjos não escritos, bolados na hora). Como só havia um instrumento de sopro (o sax tenor de “Trane”), éramos capazes de fazer isso com facilidade, na base de simples sketches, nada detalhado. E lá fomos nós! Tínhamos chegado a um ponto em que havia um alto nível de comunicação entre nós”.


A love supreme é dividida em quatro partes: Aknowledgement (7m45), Resolution (7m25), Pursuance (10m40) e Psalm (7m).

Transcrevo, a seguir, parte do que escrevi sobre a magnum opus de “Trane”, no livro Obras-primas do jazz (Jorge Zahar Editor, 1986):

“(…) a obra tem uma concepção temática simétrica, construída a partir de quatro notas, confrontada com o expressionismo assimétrico dos solos do sax tenor, com as colorações explosivas da bateria polirrítmica de Elvin Jones, com a obstinação do baixo de Jimmy Garrison, e com os interlúdios do piano climático de McCoy Tyner. As sheets of sound (folhas de som) de Coltrane sucedem-se em espirais e cascatas cromáticas, que têm seus espasmos nas súplicas e imprecações literalmente gritadas no registro agudo do saxofone, numa referência profunda às raízes mais religiosas do jazz. A love supreme é a nostalgia ancestral expressa numa linguagem nova, revolucionária, por um gênio da música negra”.

Para celebrar o 50º aniversário da gravação do álbum, o San Francisco Jazz Center programou, para os próximos dias 11, 12 e 13, três concertos muito especiais, nos quais serão recriados o todo ou partes da suíte, sob a direção do próprio filho de John Coltrane, o também saxofonista tenor Ravi, que não tinha ainda dois anos quando o seu famoso pai morreu.

No auditório do SF Jazz, Ravi Coltrane vai liderar um quinteto com Joe Lovano (saxes), Geri Allen (piano), Drew Gress (baixo) e Ralph Peterson (bateria), na primeira noite do “culto”; no dia seguinte, apresenta-se com o aclamado quarteto de cordas Turtle Island que, em 2007, ganhou o Grammy com o CD A love supreme: The legacy of John Coltrane (Telarc); na terceira noite, Ravi Coltrane toca com os seguintes convidados: Nicholas Payton (trompete), Adam Rogers (guitarra), Matt Garrison (baixo elétrico) e Marcus Gilmore (bateria).

 

Fonte: Jornal do Brasil

+ sobre o tema

Senado do Haiti aprova Jean Max Bellerive como primeiro-ministro

Fonte: R7     O Senado do Haiti ratificou nesta sexta-feira (6)...

Hoje na História, 21 de Fevereiro de 1933 nascia Nina Simone

Eunice Kathleen Waymon mais conhecida pelo nome artístico Nina Simone (Tryon, 21 de...

PHARMAKON, por Adriana Graciano

por Adriana Graciano As separações atemporais As dualidades inexoráveis Os pólos (supostamente...

Vanessa da Mata: “Nossa geração tem que dar o recado também”

Cantora faz show gratuito com repertório de Tom Jobim...

para lembrar

Semana da Consciência Negra: Camilo reúne com movimento negro do Amapá

O governador Camilo Capiberibe reuniu-se nesta quarta-feira, 14,...

Produtores de ‘Django livre’ interrompem produção de bonecos de personagens

Os produtores de "Django livre", de Quentin Tarantino, ordenaram...

Os Limites da Inclusão Social – Por Yuri Brito*

Já é de conhecimento do mundo mineral que, nos...

Morre no Rio de Janeiro o compositor Niltinho ‘Tristeza’

O carioca é o compositor de sucessos como "Tristeza"...
spot_imgspot_img

Majestosa, Lauryn Hill entrega show intenso e coroa história da Chic Show

"Não é só um baile black", gritou Criolo durante o terceiro show do festival Chic Show 50 Anos, no sábado (12). O rapper do...

Oito em cada dez quilombolas vivem com saneamento básico precário

De cada dez quilombolas no país, praticamente oito vivem em lares com saneamento básico precário ou ausente. São 1,048 milhão de pessoas que moram...

Exposição e seminário em São Paulo celebram legado de Nelson Mandela

No dia 18 de julho é celebrado o Dia Internacional Nelson Mandela, data estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em reconhecimento à contribuição...
-+=