quarta-feira, setembro 22, 2021
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Escritoras africanas falam de semelhanças entre Brasil e África

Vozes femininas vindas da África enriqueceram o segundo dia da Flink Sampa neste mês da Consciência Negra. Vindas dos países africanos de língua portuguesa, Paulina Chiziane (Moçambique), Vera Duarte Pina (Cabo Verde) e Isabel Ferreira (Angola) debateram o tema “Intercâmbio da literatura entre Brasil e África”. Unidos pela história do tráfico negreiro, presente e passado se juntam em busca de um futuro mais promissor.

No Flink Sampa 

Vera Duarte Pina, escritora e jurista cabo-verdiana, vê na iniciativa de um evento literário com o alcance da Flink uma ação de resgate e estímulo. “Falar de intercâmbio nos faz ir buscar nossas origens, valorizar nossa ancestralidade. Essas ações são importantes porque nos ajudam a projetar melhor o futuro”.

Ela explica que o fato de terem sido países colonizados por Portugal, acaba por ter laços de sangue. “Obviamente que o início foi de uma forma vergonhosa, através da compra de seres humanos. Mas, foi um período que já ultrapassamos. Esse intercâmbio começou com a música, com a gastronomia, com esses seres humanos que se encontraram e deu origem a essa nova gente. Uma mestiçagem que está agora nos nossos países e presente também na literatura”.

De acordo com Vera, a literatura funcionou sempre como uma ponte que une as duas margens do Atlântico, principalmente a literatura entre Brasil e Cabo Verde. “Claro que o Brasil sendo o primeiro país a se tornar independente e que formou primeiro uma escola literária se tornou referência.  Os cabo-verdianos  puderam observar e a partir dela pensar sua situação. Digo isso por causa dos diversos poetas e escritores que trouxeram temas tão profundamente cabo-verdianos como Castro Alves e Olavo Billac. Escritores como Jorge Amado, poetas como Manoel Bandeira foram muito lidos e muito cultuados em Cabo Verde num diálogo, que sobretudo, beneficiou muito a nossa literatura”, explica a escritora.

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A escritora moçambicana Paulina Chiziane, quem participa pela segunda vez no evento, tem em seu trabalho a mulher como tema recorrente. Quando questionada sobre as semelhanças das realidades brasileira e moçambicana, a escritora confirma tais similitudes. “Eu acho que nós, cada um do seu lado, temos histórias semelhantes. No meu país, majoritariamente negro, claro, eu tive a sorte de ser descendente dos colonizados que ficaram. Vocês tiveram o azar de serem os descendentes dos africanos que foram escravizados. Mas, isso não significa que eu estou melhor que vocês”, afirma.

Paulina confirma a existência do racismo em Moçambique apesar da maioria esmagadora de negros no país. “Nós temos racismo sim, de uma forma muito encoberta e às vezes adormecemos pensando que está tudo bem, mas afinal não está”, diz ela.

Ainda sobre o racismo institucional existente em Moçambique, Paulina explica a falta de editoras que tenham proprietários negros para que a literatura africana saia do círculo limitado em que vive atualmente. “O nosso pensamento, as nossas ideias, a nossa literatura quando nós a produzimos, quem é que as põe nas máquinas? Existirá um negro em Moçambique que tenha uma empresa gráfica onde as ideias de meu povo vão passar? Não, não há! Eu continuo uma pensadora, mas os meios de produção não estão na minha mão”, desabafa.

E aponta aí a maior semelhança com o Brasil. “Eu negra, vivo num país independente. Mas, meu pensamento continua a ser controlado da mesma maneira que antes. Esta é também a situação que no Brasil acontece”, conclui.

Paulina Chiziane ao falar sobre a Cultura Africana fortalece os laços que africanos tem com a natureza e a sabedoria daqueles que vivem no Continente Mãe. “Sabe, eu às vezes me farto de rir daqueles que olhavam para nós e diziam que éramos folclóricos. E hoje reconhecem que a razão está conosco. Falemos da natureza e do meio ambiente. O mundo dito moderno veio com a grande filosofia de que eram os donos do mundo e podiam destruir tudo a seu bel prazer. Estão agora descobrindo que a África tinha razão”, conclui.

A escritora e teatróloga Isabel Ferreira, de Angola, apresenta, em sua fala, uma África que muda o imaginário criado pelos colonizadores. Ela explica que a literatura angolana busca valorizar as manifestações culturais e apresentar aos visitantes, estudantes e pesquisadores, a história pelo lado do colonizado. “Possuímos um lado criativo, artístico, de produção intelectual muito rico. Nossa literatura tem como objetivo mostrar nossos hábitos, nossos costumes, aquilo que do lado global se quer eliminar. “Somos todos iguais mas, somos também diferentes na diversidade”, diz Isabel.

Defendendo seus modos de vida e de encarar o mundo, a escritora busca em suas obras apresentar uma Angola de magia e beleza. “Temos maneiras de estar na nossa cultura, temos maneiras de estar no nosso pensamento, temos que defender o aspecto cultural de cada um dos nossos países. Parece-me que a globalização tende a eliminar essas características individuais dos lugares”, explica Isabel.
Principais obras das escritoras

Paulina Chiziane: “O Sétimo Juramento”, “As Andorinhas”, “O Alegre Canto da Perdiz”, “Ventos do Apocalipse” e “Na mão de Deus”, lançado no ano passado. Ao escrever o livro “Balada de Amor ao Vento”.

Vera Duarte Pina: “O Arquipélago da Paixão” (2001), A Candidata (2003) “Preces e Súplicas ou os Cânticos da Desesperança” (2005), “Construindo a utopia” (2007) e “A palavra e os dias” (2013).

Isabel Ferreira: “Laços de Amor”, “Caminhos Ledos”, “Nirvana”, “À Margem das Palavras Nuas”, “Fernando daqui” e “O Guardador de Memórias”.

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