sábado, setembro 25, 2021
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Herson Capri na resistência ao retrocesso social de Temer

O experiente ator explica por que entrou no espinhoso debate da reforma da Previdência e lamenta a degradação dos Poderes da República

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Por Rodrigo Martins Do Carta Capital

“O governo quer impor no Brasil regras para a Previdência muito mais duras que as dos países europeus. Isso não é justo! Ainda nem enfrentamos as desigualdades sociais dos séculos XIX e XX. Além de desiguais, temos muitas diferenças regionais”. O chamativo alerta figura na abertura do terceiro de uma série de dez vídeos que o ator Herson Capri gravou, sem cobrar cachê, para advertir a população sobre o enorme retrocesso social embutido na mudança de regras da aposentadoria proposta pela equipe econômica de Michel Temer.

Ao receber a reportagem de CartaCapital em seu apartamento no Lebon, na zona sul do Rio, o experiente ator perde o semblante sereno dos personagens que o consagraram nas novelas globais para lamentar a degradação dos Poderes da República e o clima de intolerância a assolar o País. Filho de Jair Freire, militante do extinto Partido Comunista Brasileiro, e com atuação forjada na resistência à ditadura, Capri sabe que suas posições o transformam em alvo dos fascistas de plantão, incapazes de aceitar a divergência.

Em 2014, viu sua casa invadida por um vizinho, inconformado com o apoio do ator à reeleição de Dilma Rousseff. Desde então, evita expor opiniões sem conhecer melhor o interlocutor. A cautela não o impede, porém, de manifestar-se nos momentos cruciais da vida política do País. Opôs-se ao impeachment de Dilma, por ele definido como “golpe”. Recentemente, recusou um convite para interpretar Fernando Henrique Cardoso no filme “Real – O Plano por Trás da História”, uma “peça de propaganda” para o PSDB.

Agora, aventura-se no espinhoso debate da Previdência. Idealizada pela Associação Nacional dos Auditores Fiscais, a série de vídeos, disseminada pelas redes sociais, teve a consultoria técnica do economista Eduardo Fagnani, professor da Unicamp, colunista do site de CartaCapital e amigo de longa data do artista. Na entrevista a seguir, concedida antes da divulgação das delações da JBS, que levaram à abertura de um inquérito contra Temer por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça, Capri avalia que os ataques aos direitos dos trabalhadores estão inseridos em um contexto mais amplo, de degeneração das instituições democráticas no Brasil.

CartaCapital: Em 2014, você manifestou apoio à reeleição de Dilma Rousseff. Que avaliação faz do governo dela?
Herson Capri:  Os governos petistas conseguiram retirar quase 40 milhões de brasileiros da pobreza. Durante esses quatro mandatos, vi os aeroportos cheios de pessoas que antes não podiam viajar de avião, muita gente comprar seu primeiro carro, adquirir eletrodomésticos. Concordo com esse foco no social. O governo é feito para atender quem mais precisa, quem sofre mais carências. Tenho críticas, como o fato de não focarem tanto na educação pública, algo fundamental, até para uma evolução civilizatória, e certo descuido com a saúde. No frigir dos ovos, acho que teve coisas mais positivas do que negativas, e muito mais positivas do que qualquer outro governo no Brasil.

CC: Como você avalia o impeachment de Dilma?
HC: Tenho um respeito muito grande por Dilma por vários fatores. Primeiro, porque ela não tem telhado de vidro. Se ele existir, é ínfimo na comparação com a vidraça de Eduardo Cunha (condutor do processo de impeachment na Câmara, antes de ter o mandato cassado por seus pares), e das bancadas do PMDB e do PSDB, como a gente está vendo agora. Tenho medo do lugar comum, de ser repetitivo, mas o impeachment foi um golpe. Foi um golpe do Cunha, do PMDB, foi um golpe puxado pelo Aécio Neves e pelo PSDB. E também por Michel Temer, claro. Ele jamais teria um mandato de presidente da República por meio de eleição direta. Não consigo encontrar outro nome que não seja golpe.

blank‘A reforma pressupõe que não exista nenhum prejuízo, mas não se trata de um negócio’ (R. Parizotti/CUT)

CC: Ao declarar apoio a Dilma em 2014, em um artigo no jornal O Globo, você lembrou a sua participação na resistência à ditadura. Pode nos falar um pouco sobre a sua trajetória?
HC: Meu pai era do Partido Comunista Brasileiro. Trazia para casa muita leitura, fazíamos debates. Volta e meia precisávamos fazer algum trabalho escolar e meus colegas vinham até o meu pai, que era bancário, mas também professor de português. Tinha muito movimento em casa, e não apenas para discussões políticas. Debatíamos filosofia. Meu tinha uma preocupação muito forte com a cultura. Minha mãe também, ela é jornalista, tem 86 anos, sempre com essa preocupação de busca pelo saber. Meu pai nos levava para ver filmes no único cinema de arte que tinha em Curitiba, que era o Cine Santa Maria. Às quartas-feiras via obras de Visconti, Truffaut, Antonioni, Eisenstein. Tinha uns 12, 13 anos à época, mas uma vontade enorme de saber mais e abrir horizontes.

CC: Então a formação política se deu casa…
HC: Ali a gente teve uma formação, se não marxista, ao menos dialética. Comecei a fazer teatro em Curitiba, depois fui para São Paulo. Entrei na Faculdade de Economia da USP, voltei a fazer teatro. Participei de passeatas contra a ditadura, inclusive uma no Largo São Francisco. A Cavalaria da Polícia Militar vinha na nossa direção, e a gente tinha aquela manha de jogar bolinha de gude pra ver se os cavalos caiam. Quando me mudei para o Rio, tive um lapso político, busquei me concentrar no teatro.

Depois, passei a prestar atenção na atuação de Leonel Brizola. Como eu já tinha essa tendência para esquerda, foi fácil o Brizola me pegar pelo discurso dele, pela honestidade, pela franqueza, pelo desejo dele de ter um país mais igualitário. Fiz campanha para ele. Primeiro, para governador do Rio, depois para presidente em 1989. Como não passou para o segundo turno, apoiei Lula. Segui assim por várias eleições. Brizola no primeiro turno, Lula no segundo. Não sou intelectual nem expert em nada, mas sempre estive nesse espectro político da esquerda. Minha trajetória é clara.

CC: Por que você decidiu participar dessa campanha contra a reforma da Previdência proposta pelo governo Temer?
HC: Tenho a mania de ler jornais e revistas de ideologias diferentes. Leio o diário O Globo, já assinei a revista Veja, o Estadão, a Folha de S.Paulo. Agora assino a CartaCapital, continuo a ler O Globo. Busco posições divergentes para formular a minha própria opinião. O que percebo nesse debate? Primeiro, a tal dívida da Previdência é altamente questionável. Há uma série de recursos que escapam para o lado e a gente não tem clareza de onde vai parar. Segundo, essa reforma pressupõe que não exista nenhum prejuízo, mas não se trata de um negócio. É uma instituição internacional de proteção do idoso, quando ele para de trabalhar e sai do mercado de trabalho.

Se precisar de 25 anos de contribuição para ter aposentadoria parcial, e muita gente precisa, pelas mais variadas razões, quem não conseguir terá muitos anos de contribuição desconsiderados. Pode ter até 24 anos jogados fora. O trabalhador vai pagar e não terá o benefício, nem para si nem para o filho, para ninguém. É um recuo muito grande. A reforma trabalhista também é um recuo muito grande, é um acinte. Toda a proteção conquistada ao longo de décadas de luta está sendo destruída.

CC: O Congresso liberou a terceirização irrestrita e agora pode aprovar a prevalência dos acordos entre patrões e empregados sobre a legislação. O que isso representa?
HC: É mais uma tentativa de melhorar a situação para os empresários na relação com o trabalhador, mas melhorar para os patrões, para os proprietários, para as empresas. A terceirização é uma coisa maluca, né? Não existe mais a relação direta entre patrão e empregado, passa a existir um intermediário. Toda a relação trabalhista fica comprometida, porque há um outro na jogada. Quem vai se responsabilizar?

A prevalência do negociado sobre a legislação também é um retrocesso enorme. Quem vai ganhar? A empresa oferece o emprego ou não. O trabalhador precisa desse emprego. Se não aceitar na negociação um valor X, vão ter vários que vão aceitar. É uma negociação injusta, sacana. Os donos do poder econômico sempre vão ganhar. Paralelamente, busca-se restringir a atuação dos sindicatos. Não tem como, os patrões sempre vão ganhar. Essas duas reformas estão sendo feitas para os patrões e contra os trabalhadores.

blank‘Moro tem opinião política e ele revela isso em suas atitudes. Tem foto com o Aécio, com o Temer, com a turma do PSDB… Um juiz não pode ser parcial’ (Diego Padgurschi/FolhaPress)

CC: Você costuma puxar esses debates no meio artístico?
HC: A gente evita, né? Há uma agressividade muito grande, principalmente por parte das pessoas que foram a favor do impeachment. Nos blogs, nas redes sociais, sobram ataques pessoais, xingamentos, grosserias, não tem nenhum refinamento de discussão. Acabou, virou guerra. Hoje em dia, a gente tem que tomar cuidado, ver com quem conversa. Pode vir uma paulada do lado de lá. Se a pessoa for contra o seu pensamento, a agressividade é muito grande. É como pisar em ovos. Falo contigo aqui, mas preocupado em não ser radical, em não atingir ninguém, até porque não é essa a ideia. Voltamos um pouco àquele clima da ditadura, no qual a gente tem medo da opinião.

CC: Uma espécie de macartismo?
HC: Não, é mais uma autocensura, em função do que acontece no entorno. Há uma agressividade muito grande de quem defende Temer, de quem é favorável ao impeachment. Quando a gente argumenta, vem uma paulada, e não uma argumentação sólida, equilibrada. Quando escrevi aquele artigo apoiando a Dilma, um morador do prédio bateu na porta de casa e iniciou uma discussão, aos berros. Eu disse: “vai devagar, você está conversando com uma pessoa que pensa diferente, mas está invadindo a minha casa, está dentro da minha cozinha. Por favor, retire-se”. É uma coisa forte demais.

CC: Como você vê a atuação da força-tarefa da Lava Jato e, em particular, da turma da “República de Curitiba”?
HC: Os três Poderes estão caóticos. Temos um Executivo não eleito, após a destituição de uma mulher com 54 milhões de votos. Temos um Legislativo que montou um golpe. O próprio Temer admitiu que, se a Dilma tivesse cedido à pressão de Cunha, ela não teria caído. E o Judiciário está seletivo, tendencioso. Não assume, mas é praticamente tucano.

O juiz Sergio Moro troca os pés pelas mãos. A ideia da Lava Jato, de combate à corrupção, é maravilhosa. É algo realmente necessário. Mas tudo anda meio torno. Até o combate à corrupção está sendo corrompido. Tem vazamento seletivo, uma puxada nítida e muito forte contra o Lula. Investigam o cara há três anos e não conseguem provar nada. Mesmo assim ele está nas manchetes: “É o grande chefe da corrupção brasileira”. Nas últimas quatro eleições, a mídia foi contra o PT e nitidamente a favor do PSDB. Continuam batendo no Lula, mas o povo dá maioria pra ele nas pesquisas.

CC: Moro não é isento?
HC: Moro já demonstrou que tem opinião política e ele coloca isso em suas atitudes. Tem foto com o Aécio, com o Temer, com a turma do PSDB. Ordenou uma condução coercitiva do Lula descabida, divulgou escutas ilegais e não oferece nada além de desculpas. Nem sei se pediu desculpas, segue firme. Um juiz não pode ser parcial. O mais complicado é a parcialidade com uma aura de imparcialidade. Nossa mídia faz isso também, é escancaradamente parcial, nas manchetes e no interior, mas se coloca como imparcial.

CC: Como você avalia a atuação da mídia nesse cenário?
HC: A mídia é composta por grandes empresas. Não se furta a defender o Deus Mercado, a fazer campanha a favor de reformas vantajosas para eles, para reduzir custos e aumentar os lucros dos empresários. O que não dá para aceitar é o faz-de-conta da imparcialidade. E o pior: o Judiciário entrar nessa mesma viagem. A mídia está à direita no espectro político, mas o Judiciário não pode ser. Não é admissível ter uma Justiça partidária.

CC: Nas eleições de 2018, você tem um candidato?
HC: Se deixarem ele concorrer, voto no Lula de novo. Fora isso, não sei. Tenho uma simpatia pelo Ciro Gomes. Quem mais? Eu te pergunto: quem mais?

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