‘Hoje cativeiro é favela’

Sambas das escolas do RJ e de SP falam da importância do negro na sociedade

Para quem ainda não entendeu que o Carnaval é muito mais que um simples festejo ou um feriado prolongado, segue um alerta de spoiler. Em 2022, muitos sambas das escolas do grupo especial do RJ e de SP contêm temas sobre a importância do negro na construção da sociedade brasileira.

São enredos que exaltam a religiosidade, a resiliência, a capacidade, a consciência e o orgulho negro. Em tempos de manifestações cada vez mais bizarras e frequentes de ódio racial, discriminação e preconceito, é uma bela resposta pública às agressões.

O samba da Beija-Flor levanta questões como a subalternidade, o extermínio e a constante suspeição a que pessoas negras estão sujeitas. É um show de realidade em forma de poesia, que, entre outras coisas, diz:

“A nobreza da corte é de ébano/Tem o mesmo sangue que o seu/Ergue o punho, exige igualdade/Traz de volta o que a história escondeu/(…)/Mas você não reconhece o que o negro construiu/(…)/E o meu povo ainda chora pelas balas de fuzil/Quem é sempre revistado é refém da acusação/(…)Por um novo nascimento, um levante, um compromisso/Retirando o pensamento da entrada de serviço”.

Paraíso do Tuiuti, Salgueiro, Mocidade, Grande Rio, Tijuca e Vila Isabel saúdam o conhecimento e a resistência negra. “Um dia meu irmão de cor/Chorou por uma falsa liberdade/(….)/Hoje cativeiro é favela/De herdeiros sentinelas/Da bala que marca, feito chibata”, diz o Salgueiro.

Gaviões da Fiel canta que “Esta terra é de quem tem mais/Conquistada através da dor”. Colorado do Brás traz a história da escritora Carolina Maria de Jesus, e Mocidade Alegre a da sambista Clementina de Jesus. E tem ainda os sambas da Vai-Vai, Águia de Ouro e Barroca Zona Sul.

O Carnaval, além de rica manifestação cultural, movimenta a economia e serve como período de reflexão sobre as mazelas do Brasil. Como diz o jornalista Rafael Moraes Moura, é uma forma de pôr o país no divã.

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