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I Encontro Internacional da Coalizão Negra por Direitos une agenda global das lutas contra o racismo e genocídio negro

O I Encontro Internacional da Coalizão Negra por Direitos aconteceu na Ocupação 9 de Julho, em São Paulo, nos dias 29 e 30 de novembro e reuniu aproximadamente mil pessoas. Participaram 62 lideranças do movimento negro de todo o Brasil, Colômbia, África do Sul, Equador, Estados Unidos, Reino Unido e Togo, em 4 mesas de debate e 6 rodas de conversa.

Do Coalizão Negra Por Direitos

A Quadra da Ocupação 9 de Julho ficou lotada para receber as mesas do Encontro da Coalizão. (Foto: Zalika Produções)

Além da ampla análise sobre temas que afetam a população negra, como políticas de drogas, saúde, educação,segurança pública, direito à terra e moradia, racismo religioso, feminicídio, lgbtqifobia , com o objetivo de reunir lideranças das organizações do movimento negro brasileiro para promover reflexões e trocar experiências nacionais e internacionais para o enfrentamento do racismo, além de consolidar as articulações com organizações e lideranças internacionais.

A mesa de abertura “Desafios de enfrentamento ao racismo”, mediada por Selma Dealdina da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – CONAQ, contou com a presença de Bianca Santana (UNEafro), Sueli Carneiro (Geledés), Edson Cardoso (Irohin), Nilma Bentes (Cedempa) e Wilma Sant’Ana (Ilê Omuru Oxum e IBASE). Expondo a importância da luta coletiva contra o racismo. “Não há enfrentamento ao racismo feito individualmente. Precisamos nos organizar para fazer trabalho coletivo ou não haverá transformação”, afirmou Bianca Santana.

Mesa 1: Desafios do enfrentamento ao racismo (Foto: Zalika Produções)

Sueli Carneiro convocou participantes a revisitar e ressignificar as estratégias de luta e resistência do movimento negro nos últimos 40 anos, que resultou em importantes vitórias: “As cotas nas universidades, a obrigatoriedade curricular do ensino de história e cultura afro-brasileira, a criminalização do racismo, o direito de propriedade aos remanescentes quilombolas e as marchas históricas que pressionaram políticas públicas”. O cenário atual temerário, segundo Sueli, submete negras e negros à iniqüidade. “Esse contexto de ausência de direitos clama por solidariedade das forças progressistas internacionais”, afirmou a ativista, fundadora de Geledés.

Na segunda mesa, “A conjuntura nacional, internacional e resistência diaspórica”, foram apresentadas diferentes facetas da violação dos direitos da população negra, a partir de ativistas de cinco país de África e da diáspora . A equatoriana Antônia Jesus Hurtado apresentou traços do que vivenciam em seu país, muito parecidos com o que observamos no Brasil. “O Estado não respeita nossos direitos, é como se fossemos invisíveis. Sobretudo, seguimos compartilhando o conhecimento de nosso povo que é nossa maior riqueza”. Yannia Sofía Garzon Valencia, da Colômbia, resgatou momentos conturbados durante os protestos contra a desigualdade social e racial e encerrou sua participação com as palavras de ordem que se ouve nas ruas de Bogotá “O território é vida e vida não se vende, se ama e se defende”.

Phumi Mtetwa, da África do Sul fala sobre as lutas pós-apartheid em seu país.

Phumi Mtetwa, da África do Sul, expôs estratégias da luta anti-apartheid, da qual participou ativamente na década de 1990. “Costumamos falar como sobreviventes, o que somos, mas precisamos ir além, falar sobre como estaremos no futuro para além da sobrevivência”. Lúcia Xavier, da ONG Criola, afirmou a importância de se lembrar memória de feministas negras como a experiência política e a narrativa forte necessária à consolidação de uma ação política combativa no Brasil. A norte-americana Thenjiwe McHarris do Moviment for Black Lives, ressaltou a importância da construção de uma coalizão negra global para preservar a vida de nossos jovens. No período da tarde, rodas de conversa simultâneas abordavam diversos temas como a saúde da população negra, racismo religioso, segregação espacial, encarceramento e política de drogas, educação, feminicídio e LGBTfobia.

O último dia do encontro, 30 de novembro, teve início com a mesa ‘Desafios da resistência à violência do Estado e ao genocídio negro’. Antonio Francisco, do Instituto Marielle Franco e pai de Marielle orientou: “Não podemos esmorecer, jamais. Envergamos, mas não quebramos. Devemos continuar na luta, nos fortalecendo, nos ajudando, como temos feito nesses dias de evento”. Debora Maria da Silva, do movimento Mães de Maio, denunciou as tentativas do Estado de invisibilizar as lutas por justiça e avisou: “Vamos ressurgir a cada cada irmão que tomba. Resistimos com luta, com garra. O que nos fortalece de verdade e que temos um ao outro.” Katiara Oliveira, da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, ressaltou a importância de denunciar as políticas de morte “multiplicando Marielle em todas as quebradas, para que sejam tantas, tantas, que não tenham como parar. É o poder popular que vai barrar o genocídio nesse país”. A mesa ainda contou com falas de Gisele Florentino, ativista do Direito à Memória, Railda Silva, da Rede Amparar, Ruth Fiuza, do Coletivo de Mães e Familiares Vítimas do Estado, e Zukiswa White do Shayisfuba do movimento feminista da África do Sul, com mediação de Wagner Moreira, do IDEAS – Assessoria Popular, da Bahia.

Antonio Francismo, do Instituto Marielle Franco e pai de Marielle. (Foto: Caio Chagas)

“Disputa de poder institucional e a incidência política’” foi o tema da última mesa. Nela, Vilma Reis, da Mahin Organização de Mulheres Negras, falou das articulações do movimento negro para ocupar espaços da política nacional. “A nova estética política são as mulheres negras. Nossa capacidade de mobilização precisa ser utilizada cotidianamente, que é construir diálogo e mobilização do conjunto social negro.” Edson França, presidente da Unegro, abordou a pluralidade de lutas dentro do movimento negro. “Somos diversos, temos diferenças, mas temos um pontos em comum para o enfrentamento do racismo. Respeitando nossas diferenças para construir um projeto de nação. Temos que estar nos lugares de poder.” O diálogo ainda contou com a presença de Rose Torquato, dos Agentes de Pastoral Negros do Brasil (APN’s) , o norte-americano Maurice Mitchell, do Working Families Party, Mônica Oliveira, da Articulação Negra de Pernambuco, Dulce Pereira do Movimento Negro Unificado de Minas Gerais, e mediação de Douglas Belchior, da Uneafro-Brasil. Durante o encontro, duas comitivas com integrantes da Coalizão Negra Por Direitos e representantes dos movimentos negros de 5 países estiveram fizeram visitas a Preta Ferreira e Carmen Silva. Impedidas pelo Estado, por medida cautelar, de adentrar a Ocupação 9 de Julho, acolheram os ativistas em sua casa.

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