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Paulo Rogério Nunes: “O mundo é muito mais parecido com a Liberdade do que com Manhattan”

Uma rádio indígena, um aplicativo de tradução para a língua de sinais, uma marca de toucas de natação para cabelos afro. O publicitário  baiano Paulo Rogério Nunes reuniu histórias de pequenas empresas que apostaram na diversidade no livro Oportunidades invisíveis (Editora Matrix, R$ 31), lançado em outubro.  Queria dar um “alerta” às grandes corporações. Mostrar como é possível inovar, mesmo num cenário carente de apoios econômicos, a partir de um olhar mais plural. No ano passado, ele foi escolhido como um dos afrodescendentes mais influentes do mundo, numa premiação realizada na sede da Organização das Nações Unidas (ONU).  Antes disso, já tinha se encontrado por duas vezes com Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, primeiro numa reunião em São Paulo e depois como convidado para uma palestra na Fundação Obama, em Chicago. Criado no Alto da Terezinha, no subúrbio ferroviário, uma das missões da vida de Paulo é unir o ativismo social ao mundo dos negócios, como gosta de dizer.  Um dos caminhos que encontrou para fazer essa ponte é a Vale do Dendê, criada em 2016 para apoiar startups da área criativa em Salvador. “Sou um conectólogo”.

Por Tatiana Mendonça, Da A Tarde 

Paulo Rogério Nunes - homem negro de bigode, usando camisa social- andando na rua
Em 2016, o publicitário criou o Vale do Dendê, para impulsionar os negócios criativos (Foto: Raphaël Müller / Ag. A Tarde)

Você defende que a diversidade precisa ser vista como um ativo para as empresas, e não como assistencialismo. Qual é o impacto real de investir em diversidade? 

As grandes corporações, que por muito tempo ignoraram esse tema, de alguma forma acordaram e estão falando desse assunto. Quando uma empresa olha para os seus consumidores de maneira mais ampla, consegue enxergar outras oportunidades. Tem uma empresa que eu cito no livro, a Da Minha Cor, que produz toucas de banho para cabelos afros. Imagine o quanto as empresas tradicionais que fazem toucas perderam, por anos, por não vender para quem tem cabelo com dreadlocks. Não tinha ninguém na sala de pesquisa para dizer: gente, esse tamanho aqui não dá, sabe? No Brasil, as empresas ficam sobretudo em São Paulo e têm um perfil específico de pessoas que trabalham lá. São normalmente homens, pessoas não negras, e isso é muito prejudicial para a inovação. Inovar não é ter uma sala com mesas coloridas, pingue-pongue. Inovar é muito mais complexo. É você pensar toda a sua cadeia produtiva a partir do cliente, e como o cliente reage ao seus produtos e serviços.

As grandes empresas estão preocupadas de fato em se tornar mais diversas ou isso ainda é só um discurso?

É uma coisa muito recente as empresas se preocuparem com isso de maneira mais estratégica no Brasil. A gente só teve um aumento desse debate na última década. Mas a distância entre a narrativa e a prática ainda é muito grande, sobretudo pensando na questão da empresa como um todo. Porque não é só publicidade. Botar uma pessoa negra entre 10 pessoas brancas numa publicidade não resolve o problema. Você precisa pensar no seu corpo de funcionários, é o primeiro ponto. E, depois, na cadeia produtiva. Esse debate, que é muito rico, muito importante, ainda está longe no Brasil. No livro, falo de uma iniciativa nos Estados Unidos chamada Billion Dollar Roundtable, a mesa de um bilhão de dólares. São grandes empresas que têm investido bilhões  para comprar na mão de mulheres, de negros, latinos. Aqui não se fala nisso. As grandes empresas não priorizam, entre seus fornecedores, pequenas empresas e iniciativas comandadas por mulheres, por comunidades quilombolas… E a desculpa é sempre a de: ah, mas essa galera não está preparada. A gente sabe que a maioria das pequenas empresas não está preparada, mas se você não coloca a regra do jogo, é difícil saber jogar. Se você não ensina o caminho das pedras, não diz que para entrar ali tem que ter tal e tal licença, tal e tal escala… Porque aí a pessoa se prepara, tem uma meta.

Em abril, uma propaganda do Banco do Brasil foi questionada por ser diversa e acabou saindo do ar. Havia ali uma ingerência do poder público, mas de maneira geral você imagina que as empresas privadas serão afetadas por essa onda conservadora que há no mundo, fazendo com que o discurso da diversidade retroceda ao invés de avançar?

Eu espero que sejam universos separados, ao mesmo tempo em que a gente espera que o governo mude sua atitude, mas aí é uma seara mais complexa. Do ponto de vista empresarial, espero que entendam que a sociedade brasileira está cada vez mais aberta ao tema da diversidade, principalmente os mais jovens. Eles querem mais representatividade, e não apenas simbólica. É claro que o crescimento da retórica conservadora impacta. Mas veja que nos Estados Unidos, com a ascensão de Trump, as empresas em geral não diminuíram suas ações pela diversidade.

O legado africano que Salvador tem é um ativo econômico e social para mudar a cidade
Paulo Rogério Nunes

Quando você contrapõe no livro as experiências de empresas americanas e brasileiras que apostaram na diversidade, a diferença é gritante. Lá esses empreendimentos são muito mais pujantes. Por que nós ainda estamos nesse patamar quase primário?

Historicamente, nós colocamos o debate sobre diversidade debaixo do tapete, digamos assim. A gente não pode esquecer que nos EUA houve a segregação formal. E isso, de maneira irônica e colateral, fez com que os negros se organizassem de maneira mais forte. Forçou, de alguma forma, a criação de uma classe média negra empreendedora, que tinha que criar negócios para suprir a demanda local. Nos bairros negros, os brancos não queriam abrir restaurante, hotel, nem funerária. Então os negros tinham que criar suas próprias instituições. E quando houve a dessegregação racial, de forma muito violenta, inclusive, com os assassinatos de líderes como Malcolm X e Martin Luther King, e a perseguição de movimentos sociais, como os Panteras Negras, tudo isso fez com que esse debate virasse um tópico nacional. É algo que talvez esteja acontecendo agora no Brasil, com atraso de algumas décadas. E lá houve pressão, boicotes. É o ativismo econômico. Porque ninguém força você a comprar em um local. Você pode escolher. Houve e há essa ideia de que um negro tem que apoiar outro negro, como outros grupos se apoiaram sempre.

Você costuma dizer que uma das suas missões é unir o ativismo social com o mundo dos negócios. Imagino que a Vale do Dendê seja a grande expressão disso. Quais são os maiores desafios de fazer essa conexão na prática? Onde o bicho pega de verdade?

De várias formas (risos). O que eu percebi desde cedo foi que esses dois mundos precisavam conversar mais. Claro que o ativismo vai seguir defendendo suas causas, e o empresário vai seguir buscando sua forma de lucro, mas há conexões e pontes possíveis. O que a gente tenta fazer com a Vale do Dendê é promover um diálogo maior sobre esse assunto. As dificuldades são várias. A primeira é a gente estar no Nordeste. O PIB brasileiro é muito concentrado no Sudeste. Quem está em São Paulo pega um Uber e vai na sede de uma empresa. A gente tem que ir para o aeroporto. Segundo, que o ecossistema de negócios no Sudeste é muito mais maduro. O mundo das startups está bombando em São Paulo. Infelizmente, é uma bolha de pessoas privilegiadas que conseguem dinheiro. Um PowerPoint que se transforma numa ideia de US$ 30 milhões… Isso não é uma hipérbole. Está acontecendo agora, enquanto conversamos aqui. Para a nossa galera, é muito mais difícil acessar esses investidores. Vai ao banco e o gerente nem olha para a cara. Não tem patrimônio. Então, é uma série de barreiras. Mas é isso, né, ninguém falou que era fácil. A gente está aí para furar essas barreiras. A questão internacional talvez seja a única saída para a gente, em termos de acesso ao capital. Tem vários países, África do Sul, Gana, Quênia, EUA, Canadá, Reino Unido, tem essa diáspora africana que de alguma forma está querendo se reconectar. E a Bahia, Salvador, tem o potencial de ser esse lugar de referência não só para o Brasil, mas também para as Américas. Há poucas cidades como a nossa, com essa representatividade, com esse potencial de cultura negra. Tem talvez três ou quatro: Nova Orleans, nos Estados Unidos, Havana, em Cuba, Cartagena, na Colômbia. E tem Salvador. Esse legado africano que a gente tem é um ativo econômico e social para mudar a cidade. Se a gente for pensar, o mundo é muito mais parecido com a Liberdade do que com Manhattan. O poder de escala de uma solução criada aqui é muito maior. E a gente esquece isso. Acha que Manhattan é o centro do mundo. E não é.

Hoje vocês apoiam quantas empresas?

Desde 2016, 90 empresas, na sua maioria lideradas por mulheres e moradores de bairros periféricos, passaram pelos nossos programas. Dez empresas vão passar para uma outra etapa agora, em que recebem o capital-semente, de R$ 10 mil, para entrarem em campanha colaborativa, multiplicar esse valor. É a primeira vez que a gente está apoiando financeiramente. Para o ano que vem, a gente quer anunciar coisas maiores, tentar impactar mais pessoas, chegar cada vez mais à base. Nosso sonho é ter uma Vale do Dendê em Fazenda Coutos, em Vista Alegre, Castelo Branco…

Você esteve com Obama duas vezes em 2017, primeiro numa reunião em São Paulo e depois nunca palestra, como convidado da Fundação Obama. Na plateia, estavam o príncipe Harry, Michelle Obama… Para você, o que de mais importante eles precisavam saber do Brasil?

Sabe que a primeira imagem que eu mostrei para eles foi o Pelourinho com o Olodum, né? Falei do que eu falo desde sempre, que é a importância de que o Brasil tenha mais diversidade, na mídia, particularmente. Falei da comunidade afro-brasileira, da invisibilidade. Essa galera toda estava lá, os 500 líderes e tal, e conclamei a comunidade internacional para de alguma forma apoiar esse segmento da população que tem seus direitos violados todos os dias no Brasil.

Você criou o Instituto Mídia Étnica em 2005, para tornar a mídia brasileira mais diversa. Houve avanços nesse período?

Não posso ser injusto de não reconhecer os avanços que nós tivemos como sociedade, como nação, em relação a esse debate, que se reflete um pouco na publicidae, nas redações. O fenômeno Majur [Coutinho], por exemplo, não acontece do nada. Tem uma demanda de representatividade colocada na sociedade. Mas se eu fosse dar uma nota, ou comparar entre o que a gente tem e o que deveríamos ter, aí é muito longe… Nas democracias multiculturais, vamos dizer assim, há uma participação muito maior. Lá nos EUA, por exemplo, contei cerca de 10 canais de TV dedicados à comunidade negra. Revistas e jornais são dezenas. A gente tem uma diferença muito, muito grande. No Canadá tem um canal de TV indígena, em línguas indígenas, 24 horas. Aqui no Brasil, o que você tem de mídia indígena, além da Rádio Yandê que eu cito no livro, e talvez um ou outro blog? E nós temos mais de 200 línguas indígenas no Brasil, e a gente não sabe falar nenhuma. Ou seja, tem algo muito errado no Brasil.

Quando a gente conversou pela primeira vez, em 2012, você disse que queria se tornar uma espécie de “diplomata extraoficial das lutas do movimento negro no país”.

Um pouco pretensioso, né? (risos).

Você ainda tem essa aspiração? O que você quer hoje?

Eu estudei uma época para a prova do Rio Branco, mas depois pensei que teria que defender um governo que eu eventualmente não concordasse. É complicado. Aí achei melhor me dedicar a fazer o que eu gosto, que são essas conexões internacionais. Sempre brinco que sou mais um ‘conectólogo’ do que um publicitário. Gosto de conectar pessoas, ideias, causas. Acabei criando uma rede muito grande. Conheço gente dos principais países do mundo. Tenho casa para ficar, não fico na rua (risos). Uso muito esse conceito de pensar o local a partir do global.

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