Imagem de jovens negros usando beca de formatura faz sucesso nas redes

Fotógrafo Matheus Leite quis mostrar como brancos ainda são maioria nas universidades

POR EDUARDO VANINI, do O Globo 

Foto de Matheus Leite fez sucesso nas redes sociais – Foto com Matheus Leite fez sucesso nas redes sociais / Matheus Leite

O fotógrafo Matheus Leite vive em Salvador e sempre se incomodou com a assimetria entre os dados demográficos raciais brasileiros e o que via nas fotos de formatura: apesar de os negros serem a maior parte da população, eles ainda têm uma presença muito baixa no universo acadêmico. Para lançar luz sobre o tema, ele reuniu homens e mulheres negras vestidos com as tradicionais becas de formatura para uma foto. A imagem ficou tão forte que rapidamente correu as redes sociais.

– A ideia surgiu quando comecei a reparar a quantidade pequena ou a ausência completa de negros e negras em fotos de colação de grau. Então, resolvi fazer um vídeo de formatura, que ainda será lançado, afirmando a ocupação desse espaço acadêmico. As fotos foram uma consequência da gravação – conta Matheus.

Ele chegou a pesquisar trabalhos de pessoas e empresas que atuam na área de formatura, mas não encontrou turmas hegemonicamente ou completamente negras. Por isso, reuniu, por conta própria, os personagens que aparecem nas imagens.

– São pessoas que já tiveram ou têm algum vínculo com o universo acadêmico. Esse foi o meu critério pra convidá-los. Tudo foi muito corrido, porque quis aproveitar as becas de um trabalho anterior que ainda estavam comigo – relata Matheus.

Uma das retratadas é a recém-formada em Jornalismo Patrícia Souza, de 25 anos. Embora tenha convivido com uma parcela considerável de colegas negros na turma, ela observa que, na faculdade, como um todo, eram poucos. Além disso, o número de professores negros ao longo da graduação não passou de cinco docentes.

Fotógrafo chegou a buscar turmas majoritariamente negras, mas não encontrou – Matheus Leite

– E ainda tive que enfrentar comentários preconceituosos. Na época, usava cabelo black power e um professor disse que, se o mantivesse assim, teria dificuldade para trabalhar em TV – recorda a jovem, que teve a identidade da mulher negra no jornalismo televisivo como tema de seu trabalho de conclusão de curso.

Em meio ao sucesso que as fotos vêm fazendo nas redes, Matheus não ficou livre das críticas. Fato que ele considera bastante sintomático.

– Chamaram-me de racista, nazista, separatista e segregacionista – lista o fotógrafo. – Isso, infelizmente, só evidencia como o protagonismo dos pretos e das pretas incomoda muita gente. Se você parar e pensar, todo fim de semestre se formam dezenas de turmas com 30 a 50 alunos compostas somente por pessoas brancas. E isso é recebido de forma natural. Porém, quando junto cinco pessoas negras para fazer uma foto de formatura, sou chamado disso tudo. É surreal, mas é a verdade.

 

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