sexta-feira, janeiro 14, 2022
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Insultos a mulheres no parto são ‘ponta do iceberg’ da violência obstétrica no Brasil, diz médica

Insultos verbais e humilhações vividos por mulheres durante o parto são “a ponta do iceberg” de uma série de intervenções e procedimentos nem sempre necessários, às vezes feitos sem consentimento da paciente e em certos casos invasivos que caracterizam a violência obstétrica no Brasil, diz a médica e estudiosa do tema Melania Amorim.

Palavras “cruéis” ouvidas por mulheres ao dar à luz vão desde a insistência para ela fazer força quando não consegue fazê-lo até “cala boca senão seu bebê vai nascer surdo”, “na hora de fazer (o filho) não gritou” ou “cala a boca ou você vai acabar matando o seu bebê”, relata a médica, que é professora de ginecologia e obstetrícia da Universidade Federal de Campina Grande e coautora de diretrizes nacionais relacionadas a procedimentos obstétricos.

Essas violências, segundo ela, transformam partos, mesmo sem intercorrências graves, em “experiências traumáticas”, com sequelas físicas e psicológicas para mulheres.

O tema da violência obstétrica veio à tona nesta semana por conta de áudios e vídeos vazados da influenciadora Shantal Verdelho, que deu à luz, em setembro, em um parto realizado pelo médico Renato Kalil – agora sob investigação do Conselho Regional de Medicina paulista.

No vídeo do parto, o médico aparece dizendo “faz força, p*rra”.

O médico argumenta que o vídeo foi “editado e tirado de contexto”.

“A íntegra do vídeo mostra que não há nenhuma irregularidade ou postura inapropriada durante o procedimento. Ataques à sua reputação serão objeto de providências jurídicas, com a análise do vídeo na íntegra”, diz nota do médico enviada por sua assessoria.

Nos áudios privados que foram tornados públicos, Shantal afirmou que os vídeos de seu parto são um “show de horror”.

“Ele (Kalil) me xinga o trabalho de parto inteiro. Ele fala ‘p*rra, faz força, filha da mãe, viadinha, ela não faz força direito. (…) Tem vídeo dele me rasgando com a mão, era só para eu ficar arrebentada e falar ‘ah você tinha razão, eu deveria ter feito a episiotomia’.”

Episiotomia é um procedimento cirúrgico que visa aumentar a abertura vaginal para a saída do bebê. Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), “atualmente, não há evidência científica suficiente para definir as indicações para a episiotomia, apenas que o uso seletivo continua a ser a melhor prática a ser adotada. (…) Ou seja, não fazer episiotomia deve ser a primeira opção”.

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Pesquisa da Fiocruz de 2012 aponta que foram poucas as brasileiras que puderam vivenciar um parto sem intervenções excessivas ou não medicalizado (Foto: GETTY IMAGES)

Em nota, a assessoria de Kalil afirma que ele é “um dos médicos mais reconhecidos do Brasil. Ao longo de sua carreira, já efetuou mais de 10 mil partos, sem nenhuma reclamação ou incidente. O parto da sra. Shantal aconteceu sem qualquer intercorrência e foi elogiado por ela em suas redes sociais durante trinta dias após o parto”.

Depois do relato de Shantal, a jornalista Samantha Pearson deu entrevista ao jornal O Globo dizendo que também foi insultada pelo mesmo médico durante seu acompanhamento pré-natal. Segundo ela, ele “falava da minha vagina como se eu não estivesse ali”, “disse que eu tinha que emagrecer ou meu marido ia me trair”. “Me senti humilhada várias vezes.”

‘Intervenções excessivas’ e ‘sofrimento desnecessário’

Para além dos casos individuais relatados acima, “(insultos) são chocantes e acontecem com muita frequência, mas são a ponta do iceberg” do cenário obstétrico no Brasil, afirma Melania Amorim.

Para mensurar a dimensão da violência obstétrica no país, argumenta ela, seria preciso juntar “o quanto as mulheres se sentiram ofendidas e agredidas com a quantidade de procedimentos desnecessários e prejudiciais na assistência pré-natal, ao aborto, ao parto e ao puerpério”.

Ela cita uma revisão acadêmica feita por pesquisadoras latino-americanas (Brasil incluso) em 2019, apontando que a “falta de respeito e os maus-tratos” durante partos e abortos ocorreram em 43% das gestações observadas. Mas há indícios de que esse índice esteja muito subestimado.

Isso porque outra pesquisa, Nascer no Brasil, conduzida pela Fiocruz entre 2011 e 2012, com 23,8 mil mulheres, concluiu que “entre as gestantes que tiveram um parto vaginal, observou-se a predominância de um modelo de atenção extremamente medicalizado, que ignora as melhores evidências científicas disponíveis”.

“A maioria das mulheres foi submetida a intervenções excessivas, ficou restrita ao leito e sem estímulo para caminhar, sem se alimentar durante o trabalho de parto, usou medicamentos para acelerar as contrações (ocitocina), foi submetida à episiotomia, deu à luz deitada de costas, muitas vezes com alguém apertando a sua barriga (manobra de Kristeller). Esses procedimentos, quando usados sem indicação clínica, causam dor e sofrimento desnecessário e não são recomendados pela Organização Mundial da Saúde”, diz o texto.

O estudo da Fiocruz prossegue: “Poucas mulheres brasileiras tiveram a chance de vivenciar um parto sem as intervenções anteriormente descritas, apenas 5% do total, valor muito inferior aos 40% observados no Reino Unido. O padrão se distribui por todas as regiões geográficas e tipos de serviço de saúde, mostrando que a medicalização do parto é uma prática disseminada por todo o país.”

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‘Esse viés misógino ainda perpassa a nossa ginecologia e obstetrícia mesmo quando ela é muitas vezes feita por mulheres’, critica médica Melania Amorim (Foto: GETTY IMAGES)

Para Amorim, esse “é o modelo de assistência obstétrica vigente, com uma necessidade literalmente abusiva de se intrometer na cena do parto”.

“Esse viés misógino ainda perpassa a nossa ginecologia e obstetrícia mesmo quando ela é muitas vezes feita por mulheres, porque é o modelo vigente, que vê o meu corpo e o seu corpo como defeituosos, que só vão parir com uma intervenção médica. É o modelo ensinado em muitas escolas médicas”, critica.

Essa percepção, ressalta Amorim, “pode ferir a sensibilidade dos profissionais, (ao) se reconhecerem como perpetradores de violência obstétrica, muito mais dói nas mulheres que foram vítimas”.

Essa violência pode acontecer em diversos momentos do pré-natal, do parto ou pós-parto e não é necessariamente perpetrada pelos médicos, mas também por outros profissionais da saúde ou mesmo pelo sistema de saúde quando este não oferece as condições adequadas para um parto que, nas palavras de Amorim, “seja baseado em evidências científicas”.

“A cesárea desnecessária, contra a vontade da mulher (quando ela é enganada ou induzida a escolher a cesárea, por pretextos fúteis ou enganosos), também é uma forma de violência obstétrica”, explica a médica.

“(Nesses casos) há uma falsa dicotomia: escolher entre um parto ‘normal’, violento, e uma cesárea ‘limpinha’ é uma escolha de Sofia que ninguém deveria ser obrigada a fazer. Porque existe uma terceira via, que deveria ser a regra: da assistência ao parto baseada em evidências, (termo) que eu até prefiro do que humanização da assistência ao parto, porque o sentido é menos esvaziado do que o rótulo ‘humanizado’. Isso inclui o respeito à autonomia e ao protagonismo feminino, inclui só usar procedimentos respaldados em evidências sólidas, inclui o significado do parto como um evento psicossocial, e não como um ato médico. E isso é totalmente possível sem que você seja obrigado a fazer uma falsa escolha.”

‘Violência obstétrica é naturalizada’

Um dos problemas, segundo Amorim, é que partos com intervenções nem sempre necessárias ou métodos pouco eficazes são naturalizados tanto na formação dos médicos quanto na forma como o nascimento humano é retratado na nossa cultura popular.

“Nas novelas, tem sempre alguém dando comandos (a uma mulher em trabalho de parto), dizendo ‘força, força’, geralmente a uma mulher deitada de pernas abertas. E você começa a normalizar que aquilo ali é o padrão, é a forma correta do parto. Geralmente são partos medicamentosos, e com muita violência”, argumenta.

“(…) Falo isso com muita tranquilidade porque sou médica, mas a residência nos prepara basicamente para agir nos partos de alto risco, nos partos complicados. Aí se cria uma falsa sensação de que a mulher é uma bomba-relógio prestes a explodir e que essas intervenções se justificariam. Com o tempo isso se normaliza, e você começa a intervir mesmo quando não é necessário.”

Segundo Amorim, dois procedimentos bastante invasivos – e comuns – são a manobra de Kristeller e episiotomias feitas sem consentimento da mulher, ou manualmente, sem anestesia.

“A violenta atroz pressão no fundo de útero, a manobra de Kristeller, é uma das formas mais frequentes, e paciente não percebe aquilo como violência. Pode passar despercebida por trás de procedimentos incorporados pela prática médica, mas que não são naturais”, diz.

Essa manobra, também chamada de pressão fúndica no período expulsivo do parto, não é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Sobre a episiotomia feita à força, há “casos em que a mulher fez um plano de parto dizendo que não queria episiotomia, o médico (parece ter) ficado muito irritado com aquilo e faz uma manobra com muita força e rasga o períneo da mulher com a mão. Não vi isso uma ou duas vezes, foram vários casos – de períneos abertos a mão, sem anestesia. Me choca pelo caráter de retaliação, de vingança. É como dizer ‘você (mulher) ousou ditar as normas, agora você vai ver'”, diz Amorim.

“E tem a episiotomia feita com pontos sem anestesia. A gente não concebe isso em nenhuma outra circunstância da medicina – cortar e suturar tecidos (humanos) sem anestesia. E numa região tão íntima e sensível, e num momento tão especial como o parto.”

Dizer ‘faz força’ também é prejudicial, diz médica

Amorim defende que, durante um trabalho de parto, “qualquer forma de pressão é nociva, não é efetiva, e, portanto, deve ser abolida”.

“Amarrar as pernas da parturiente, obrigá-la a parir na posição deitada – que só é boa pro médico – e (dar) os comandos durante o período expulsivo – como ‘faça força’, ‘trinca os dentes e faça força’ -, a gente já tem evidência de que (esses procedimentos) não são necessários, mesmo que não sejam francamente agressivos”, argumenta.

“Porque o parto é uma força da natureza – um evento incontrolável, que tem uma dimensão transformadora, um tsunami. Na tentativa de controlar o incontrolável, os profissionais de saúde, embebidos desse modelo de formação machista, lidam com esse medo de algo tão intenso impondo um controle rígido. Isso explica, mas não justifica oprimir outra (pessoa), minar sua autoestima. Em várias circunstâncias a gente pode ter necessidade de intervenção (no parto), mas essa intervenção pode ser, quase sempre, salvo nas emergências, pactuada com a parturiente.”

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