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Intolerância religiosa: Difamada, Ialorixá abre mão de indenização por retratação

Intolerância religiosa: Difamada, Ialorixá abre mão de indenização por retratação

Quando criou a Umbanda há 108 anos, o fundador Zélio Fernandino de Moraes descreveu duas máximas: a religião brasileira que mistura ensinamentos católicos com a liturgia do culto dos orixás africanos do Candomblé deveria praticar o respeito e a caridade. Respeito é exatamente o que busca a Ialorixá Almerinda de Nanã, que há oito anos dirige a Fraternidade Umbandista Cavaleiros de Aruanda (Fuca), com cerca de 120 membros, localizada no Parque São Cristóvão em Salvador, e que sofreu difamações de uma ex-filha de santo nas redes sociais.

Por Cláudia Cardozo / Lucas Arraz Do Bahia Noticias

Por conta de um acordo firmado na 3ª Vara dos Juizados Especiais Criminais de Salvador, a ex-frequentadora da casa deverá fazer uma retratação neste sábado (28), às 14h, com a leitura de uma carta, na sede da Fuca. A data, escolhida por Almerinda, é marcada pela festa de Xangô, orixá da justiça. Por mais de um ano, a auditora usou as redes sociais para difamar a Mãe Almerinda de Nanã e Xangô. As difamações também atingiram os membros da fraternidade e os próprios familiares de Almerinda.

“Eu não aguentava mais abrir o Facebook e encontrar textos me difamando. Então eu parei e pensei: Sou uma mulher de 57 anos, mãe de filhos e de muitos filhos espirituais, formada. Não é justo que uma mulher como eu passe por isso”, afirmou ao Bahia Notícias. Foi por isso que ela buscou a Justiça, e foi tão somente para buscar a retratação, declinando do direito de receber indenização por danos morais e materiais. “Não tem dinheiro que pague a nossa moral, o nosso nome. Não adianta eu receber o dinheiro. Um dia eu vou partir. Mais importante do que receber é manter o respeito a uma religião nova que tem apenas 108 anos”, ponderou.

“O juiz disse que a gente faria história. Acredito que a retratação é o primeiro ato público deste tipo”, contou. “Eu não entrei na ação buscando indenização. Quando o juiz me perguntou eu já disse logo que queria que ela fizesse uma retratação pública em um jornal de grande circulação. Eles disseram que ela não tinha condições de bancar isso, então o juiz sugeriu que ela fosse se retratar lá”. Segundo a autora da ação, a ré deixou a casa por motivos pessoais. Ela criou quase dez perfis no Facebook para xingar Mãe Almerinda.

“Ela me chamava de discípula de belzebu, mãe de belzebu nas publicações. Dizia que a casa ia cair, que médiuns da casa iram sofrer acidentes e morrer. “Não entrava só no meu Facebook, como no dos meus filhos e do meu marido. Ela começou uma investida muito grande. Essas coisas repercutiram e muitas pessoas deixaram de frequentar”, contou, complementando que isso trouxe muitos danos para ela.

“Eu não vivo da Umbanda. Eu vivo para a Umbanda”, reforçou, falando de seu histórico acadêmico e de seu trabalho como funcionária pública. Ela é formada em pedagogia pela Uneb, em Letras pela Ucsal e foi coordenadora pedagógica pela Secretaria Municipal de Educação de Salvador, e só busca viver em paz. “Eu não quero que me tolerem.

Eu quero que me respeitem. Você tolera quem não tem jeito. Eu quero que respeitem a minha fé”, declarou. A retratação deverá ser registrada e encaminhada para o juiz Edson Souza, que homologou o acordo para encerrar a discussão. Segundo a advogada Maria Aparecida, esse é o primeiro acordo que obriga uma pessoa a fazer uma retratação pública contra uma líder religiosa e enfatiza:

“As pessoas precisam ter respeito e as religiões precisam se respeitar entre si”. “A partir de agora todo mundo vai ter que saber que temos que ser respeitados. Essa decisão futuramente vai atender todas as religiões. Se você é evangélico e se sentir ofendido, você vai poder usar essa decisão para acionar a Justiça”, assevera. A sentença deverá servir de jurisprudência no país.

Durante as audiências de instrução, segundo Aparecida, foi levantado a tese de que a auditora sofre com problemas psicológicos. Mãe Almerinda entrou na religião quando seu filho de 18 se tornou cadeirante, perdendo todos os movimentos. E foi na Umbanda que ela achou refúgio que a fez bem, sem cobrar nada. A fraternidade que ela conduz apoia um projeto social que atende 38 famílias no Parque de São Cristóvão, com doações de cestas básicas, roupas e brinquedos.

E por ter uma visão social da importância das religiões e do respeito, que ela pretende retomar com seminários contra intolerância religiosa e quer deixar uma importante mensagem: “Não se calem. Existe justiça. Nosso país está precisando de pessoas corajosas que vão à luta por seus direitos”.

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