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Italo Calvino sobre a discriminação racial e a luta pelos direitos civis nos EUA. Por Camila Nogueira

Os trechos abaixo foram retirados dos diários que Italo Calvino (1923 – 1985), escritor italiano nascido em Cuba, escreveu durante uma viagem que fez, no início dos anos 60, aos Estados Unidos.

Por Camila Nogueira, do DCM

Jovens manifestantes em Montgomery, Alabama, início dos anos 1960

Qual a importância do dia 6 de março de 1960 para o senhor?

É um dia que não esquecerei enquanto for vivo. Eu vi o racismo com meus próprios olhos, o racismo de massa, aceito como uma das regras fundamentais da sociedade. Presenciei um dos primeiros episódios de luta por parte dos negros sulistas – que terminou em uma derrota. Após décadas de completa imobilidade, os protestos por parte dos negros foram iniciados em um dos piores estados segregacionistas do país. Alguns obtiveram sucesso, sob a liderança de Martin Luther King, um ministro batista, adepto da não-violência.

De que episódio estamos falando?

A cena aconteceu no capitólio de Alabama. Os estudantes negros (da universidade negra) declararam que protestariam pacificamente naquela região contra a expulsão de nove de seus colegas, que tinham tentado se sentar na cafeteria dos brancos em Court Hall. Perto da uma hora e meia, eles se encontraram na igreja batista próxima ao capitólio. Mas este já estava repleto de policiais com cassetetes e da Polícia Rodoviária com seus chapéus de caubói, coletes azul-turquesa e calças-cáqui. As calçadas estavam cheias de brancos – em sua maioria brancos pobres, que são os maiores racistas, prontos para usar seus punhos, jovens delinquentes que atacam em grupo (sua organização, que é somente ligeiramente clandestina, chama-se Ku Klux Klan), mas também pessoas de classe média alta, famílias com crianças, todos lá para assistir e gritar obscenidades contra os negros.

Qual era a atitude da multidão?

Ela variava entre o escárnio, como se estivessem vendo macacos exigindo direitos civis – escárnio genuíno, sentido por pessoas que jamais imaginaram que os negros viriam, um dia, a reivindicar tais coisas –, e o ódio.

Nesse momento os negros ainda estavam dentro da igreja?

Sim. Quando estavam prestes a sair, a polícia bloqueou os degraus do capitólio, enquanto a multidão bloqueou todos os pavimentos. Agora furiosa, a multidão gritava “Saíam daí, negros!” Os negros desceram os degraus de sua igreja e começaram a cantar um hino; os brancos passaram a uivar e a insultá-los. A polícia e a milícia permaneceram a postos, se precisassem evitar incidentes.

Não havia nenhum branco favorável à população negra?

Havia um ministro metodista, o único homem em Montgomery corajoso o bastante para assumir uma posição. Como resultado, a Ku Klux Klan bombardeou sua casa e sua igreja um par de vezes.

Hmmm…

E então começou a pior parte. Os negros saíram da igreja pouco a pouco. Uma parte deles entrou em uma rua que não fora ocupada pelos brancos, mas outros desceram em grupos pequenos a Dexter Avenue, andando silenciosamente com as cabeças erguidas em meio a ofensas e a ameaças. A cada insulto ou dito espirituoso proferido por um branco, outros iguais a ele, homens ou mulheres, punham-se a rir, por vezes com uma insistência quase histérica, mas também por vezes de maneira afável, e essas pessoas, suponho, são as mais cruéis – esse racismo esmagador combinado com afabilidade.

Havia muitas mulheres negras?

Sim, e as jovens negras eram as mais admiráveis. Elas caminhavam em grupos contendo duas ou três, e os valentões cuspiam no chão diante de seus pés e bloqueavam o caminho seguido por elas, obrigando-as a desviar deles. Enquanto ouviam abusos e por vezes eram agredidas, as jovens negras continuavam a conversar entre si, como se nada de detestável estivesse acontecendo – ou como se estivessem acostumadas a essa cena desde o seu dia de nascimento.

O senhor chegou a conhecer Martin Luther King. O que pensou dele?

Ele é um político cuja única arma é o púlpito. A sua não-violência é a única forma de luta possível e ele a usa com a habilidade política controlada que a aspereza das condições em que ele e seus companheiros se desenvolveram ensinou-lhe. Os líderes negros – cheguei a conhecer muitos deles, de diferentes tendências – são pessoas lúcidas e determinadas, totalmente desprovidos de sentimentos de autopiedade.

Em sua viagem, o senhor conviveu tanto com militantes negros quanto com a famosa aristocracia sulista. Qual a sua opinião a respeito da última?

A aristocracia do sul dos Estados Unidos me dá a impressão de ser particularmente burra em seu esforço contínuo para resgatar as glórias da Confederação; esse patriotismo, que os leva a se dirigir a você como que convictos de que você compartilha de suas emoções, é algo mais insuportável do que ridículo. A questão racial é algo maldito: por um século, o sul dos Estados Unidos não falou nem pensou em nada além disso, só nesse problema, os progressistas e os reacionários igualmente.

Algo a acrescentar?

O que conta é o que somos, e o modo como aprofundamos a nossa relação com o mundo e com os outros, uma relação que pode envolver tanto o amor por tudo que existe quanto o desejo de que tais coisas passem por transformações.

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