Ainda jovem seminarista, nos anos 60, ele se aproximou de Martin Luther King Jr, na Southern Christian Leadership Conference (Conferência da Liderança Cristã do Sul), se tornando um dos colaboradores mais próximos do renomado líder do movimento pelos direitos civis. A relação foi intensa, marcada por admiração mútua e também por tensões internas. Jackson não era apenas um discípulo de King; era ambicioso, carismático, veloz na articulação política e ciente de sua própria capacidade de liderança. King enxergava nele energia e talento; críticos dentro da SCLC viam nele uma certa ousadia excessiva.
Em 4 de abril de 1968, quando King foi assassinado em Memphis, Jackson estava na cidade. A imagem dele, um jovem de 26 anos, de camisa manchada de sangue no local do atentado, atravessou o país. Jackson, então, se tornou um símbolo de uma geração que herdava uma luta interrompida pela brutal violência — uma luta inacabada. Para muitos observadores, ali se forjava o herdeiro retórico de uma tradição profética que unia púlpito e praça pública.

Sua formação, no entanto, antecede o momento traumático de Memphis. Nascido em Greenville, na Carolina do Sul, filho da tradição da Igreja Negra no Sul segregado, Jackson foi ordenado ministro batista e moldado por uma teologia social que compreende o Evangelho não apenas como uma promessa de salvação individual, mas como instrumento de libertação coletiva. A Igreja Batista — tradição à qual pertenceu ao longo de sua vida — foi sua primeira escola política. No púlpito, aprendeu que a retórica podia organizar multidões; que a Bíblia, lida à luz da experiência afro-americana, era também um manifesto por dignidade. Décadas depois, já reconhecido nacionalmente, continuaria pregando em igrejas batistas de Chicago, cidade onde consolidou sua base religiosa e política. O sermão, em sua voz, era simultaneamente exegese bíblica e programa social.
Após a morte de King, fundou a Operação PUSH (Pessoas Unidas para Salvar a Humanidade), pressionando empresas a adotar políticas de diversidade e a investir em comunidades negras. A organização combinava boicotes econômicos, pressão corporativa e defesa de oportunidades para afro-americanos. Mais tarde, ampliaria o projeto com a Coalizão Arco-Íris, que se fundiria na Coalizão Rainbow/PUSH, propondo uma aliança multirracial de trabalhadores, agricultores, latinos, asiático-americanos, indígenas e brancos pobres — uma tradução política do ideal de direitos humanos universais. Sua estratégia deslocou o centro da luta racial para o campo econômico: não bastava fazer parte do projeto de dessegregação; era preciso redistribuir poder e renda à população negra norte-americana.
No campo internacional, na década de 1980, Jackson se tornou um feroz crítico do governo conservador Ronald Reagan, especialmente em relação à política externa e aos cortes em programas sociais. Em 1984, lançou sua primeira campanha presidencial. Inicialmente visto como um candidato marginal, surpreendeu o establishment ao terminar em terceiro lugar na corrida pela indicação democrata, atrás do ex-vice-presidente Walter Mondale e do senador Gary Hart. Persistente, lançou nova candidatura em 1988 e obteve desempenho ainda mais expressivo, encerrando a disputa em segundo lugar, atrás do então governador de Massachusetts, Michael Dukakis.
Em 1984 e 1988, tornou-se o segundo afro-americano a disputar seriamente a indicação presidencial democrata e se tornou mundialmente conhecido por isso. Em 1988, venceu prévias importantes e conquistou milhões de votos — desempenho inédito para um candidato negro até então. Sua campanha não se limitava à identidade racial: defendia desarmamento nuclear, justiça econômica, direitos trabalhistas, acesso universal à educação e saúde, além de uma política externa orientada por direitos humanos. Repetia que a América precisava incluir “os esquecidos” — trabalhadores industriais desempregados, agricultores endividados, jovens encarcerados. Sua candidatura ampliou significativamente a participação de eleitores negros e de outros grupos historicamente marginalizados, redefinindo a base democrata e influenciando gerações posteriores de líderes.
A oratória de Jackson sempre foi sua marca registrada. Nas primárias de 1988, mobilizou multidões com a cadência de um culto religioso. Em um de seus discursos mais célebres, proclamou: “Nossa bandeira é vermelha, branca e azul, mas nossa nação é um arco-íris — vermelho, amarelo, marrom, preto e branco — e todos somos preciosos aos olhos de Deus.” A frase condensava sua visão inclusiva de nação. Ao repetir “Mantenham viva a esperança!”, transformava a esperança em um verbo político, convocando eleitores historicamente excluídos a se registrarem e participarem. A esperança, em sua boca, deixava de ser consolo e se tornava meta. A imprensa norte-americana destacou sua habilidade de converter mobilização simbólica em ganhos concretos e chegou a descrevê-lo como um político que operava entre o moralismo profético e o cálculo eleitoral, transformando a liturgia da igreja batista em estratégia de campanha.
Entre os fatos menos conhecidos está seu papel como negociador internacional informal. Em 1984, visitou Cuba e se encontrou com Fidel Castro, obtendo a libertação de presos políticos e cidadãos norte-americanos. Jackson também negociou com Hafez al-Assad, da Síria, a soltura de um piloto capturado. Essas missões consolidaram sua imagem como um “embaixador paralelo” dos direitos humanos — um líder religioso que atravessava fronteiras ideológicas em nome da dignidade humana.
Sua vida pública, contudo, não foi exatamente linear. Em 1984, comentários considerados ofensivos à comunidade judaica provocaram forte reação nacional; ele pediu desculpas públicas, reconhecendo o erro. Anos depois, veio à tona um relacionamento extraconjugal do reverendo que resultou no nascimento de uma filha — episódio que questionou sua autoridade moral.
Jackson não voltou a concorrer à presidência após 1988, mas, em 1990, foi eleito senador sombra pelo Distrito de Columbia — posição simbólica criada para defender a plena representação política da capital no Congresso — exercendo mandato durante os governos de George H. W. Bush e Bill Clinton. Embora inicialmente crítico de Clinton, mais tarde passou a ser seu apoiador. Entre 1992 e 2000, apresentou o programa Os Dois Lados com Jesse Jackson na CNN, ampliando sua influência no debate público nacional. Crítico da brutalidade policial, do Partido Republicano e de políticas conservadoras.
A trajetória de Jackson certamente abriu caminho para a geração posterior — e, de modo emblemático, para Barack Obama. Quando Obama lançou sua candidatura presidencial em 2007, muitos recordaram a pavimentação feita por Jackson duas décadas antes. A relação entre ambos foi complexa. Em 2008, durante as primárias democratas, Jackson criticou publicamente Obama por não enfatizar suficientemente a pobreza urbana; um comentário captado por microfone aberto gerou controvérsia e exigiu desculpas. Ainda assim, quando Obama venceu as eleições em novembro de 2008, lá estava Jackson com lágrimas nos olhos em meio à multidão de Chicago. A cena capturada de um veterano político negro diante do primeiro presidente negro dos Estados Unidos foi entendida como uma passagem de bastão entre duas gerações.
No plano internacional, em âmbito multilateral, a atuação do líder norte-americano extrapolou fronteiras. Ao lado de Cyril Ramaphosa, que mais tarde se tornou presidente sul-africano, Jackson participou da Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em 2001, em Durban. Em meio aos debates intensos da conferência sobre escravização, colonialismo e reparações, ele afirmou: “O racismo é um crime contra a humanidade e, enquanto não for enfrentado globalmente, a democracia em qualquer lugar permanecerá incompleta.” Em outra intervenção, reforçou que não poderia haver reconciliação sem reconhecimento, nem justiça sem reparação — conectando a experiência afro-americana às lutas da diáspora africana.
Ao longo de décadas, Jackson esteve ativo em marchas contra a violência policial e denúncias de encarceramento em massa. Diagnosticado com Parkinson nos anos 2010, reduziu o ritmo, mas não diminuiu seu simbolismo. Sua presença em atos públicos passou a ser vista como um elo vivo entre a era King e as batalhas contemporâneas. Se King universalizou a linguagem moral dos direitos civis e Obama simbolizou sua incorporação ao centro do Estado, Jesse Jackson ocupou o espaço intermediário: foi o tradutor político do sermão profético. Idealista e calculista, conciliador e confrontador, figura de fé e ator político, ele transformou esperança em método, liturgia em estratégia e biografia em ponte entre memória e poder. Seu legado se mede menos por suas vitórias eleitorais do que pela ampliação do horizonte dos direitos humanos nos Estados Unidos — a convicção de que justiça racial, justiça econômica e política externa ética são dimensões inseparáveis de uma mesma agenda.