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John Gabriel Stedman e um escravo, após a captura da aldeia de Gado Saby

John Gabriel Stedman e um escravo, após a captura da aldeia de Gado Saby.

JOHN GABRIEL STEDMAN (1744 – 7 de março 1797) foi um destacado soldado anglo-holandês e autor de renome. Nasceu na Holanda em 1744, filho de Robert Stedman, escocês e oficial da Brigada Escocesa, na Holanda, e de sua esposa Antoinetta Christina van Ceulen, de uma nobre linhagem holandesa. Passou a maior parte da infância na Holanda com seus pais e algum tempo com seu tio na Escócia. Os anos passados no Suriname foram caracterizados por encontros com escravos africanos e colonos europeus, bem com a exótica flora e fauna local. Registrou suas experiências em The Narrative of a Five Years Expedition against the Revolted Negros of Surinam (Narrativa de uma Expedição de Cinco Anos contra os Negros Revoltados do Suriname) (1796), que, mediante suas descrições da escravidão e de outros aspectos da colonização, tornou-se importante instrumento para os primórdios da causa abolicionista.

CARREIRA MILITAR

[…] Stedman partiu da Holanda em 24 de dezembro de 1772 após atender a uma convocação de voluntários que iriam servir nas Índias Ocidentais. Recebeu o posto de capitão por meio de uma patente, autorização temporária para que ocupasse um posto mais elevado. Sua tropa compreendia 800 voluntários, enviados ao Suriname a bordo da fragata Zeelust, para apoiar tropas locais contra bandos de escravos fugitivos, conhecidos como Maroons, na região leste da colônia. Os soldados, treinados para agir nos campos de batalha da Europa, estavam despreparados para enfrentar as táticas de guerrilha de seus adversários, com as quais não tinham qualquer familiaridade.

[…] Stedman participou de várias campanhas nas selvas do Suriname, cada uma das quais durou, em média, três meses. Esteve presente unicamente em uma batalha, ocorrida em 1774, e que terminou com a captura da aldeia de Gado Saby. Uma vívida imagem dessa batalha pode ser vista no frontispício da narrativa de Stedman, que o retrata tendo a seus pés um escravo morto e, no fundo, uma aldeia, queimando a distância.

[…] Nessas campanhas ocorriam frequentemente emboscadas e as doenças se espalharam rapidamente, resultando em enormes perdas de soldados. Elas foram tão grandes que 830 soldados a mais foram enviados da Holanda em 1775. As campanhas foram marcadas pelo cansaço, morte, doença e ódio. Stedman observou os horrores das batalhas e as táticas de gato e rato, empregadas pelos dois lados, que resultaram na disseminação da guerra em todo o Suriname, ao invés de circunscrevê-la.

O SURINAME

[…] O Suriname foi colonizado inicialmente pelo governador da Barbados na década de 1650 e caiu nas mãos dos holandeses logo após, os quais começaram a cultivar a cana-de-açúcar rapidamente. Em 1683 passou para o controle da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, sendo rebatizado como Guiana Holandesa. A colônia desenvolveu uma economia agrícola altamente dependente da escravidão africana. Os holandeses aboliram a escravidão em 1863 e, após, usaram trabalhadores endividados, provenientes das colônias britânicas na Índia, com a finalidade de estabilizar a produção do açúcar. O Suriname passou a ser autogovernado em 1954 e, finalmente, alcançou total independência em 1975.

A NARRATIVA DE STEDMAN

[…] A Narrativa de uma Expedição de Cinco Anos contra os Negros Revoltados do Suriname é um relato de primeira mão das experiências vividas por John Gabriel Stedman enquanto viveu no Suriname, entre 1772 e 1777. Ele descreve vividamente as paisagens locais, prestando grande atenção aos detalhes. Suas observações sobre a vida na colônia abrangem as diferentes culturas presentes naquela mescla de povos ali presentes: holandeses, escoceses, indígenas, africanos, espanhóis, portugueses e franceses. Embora a colônia e as selvas circundantes fossem repletas de atos de traição e violência, em sua Narrativa Stedman emprega parte do tempo a descrever a vida cotidiana e a felicidade de certas situações na colônia.

[…] Stedman contrasta a beleza e a doçura da colônia com seu primeiro enfrentamento com a violência e a crueldade, tão evidentes no meio em que vivia. Em uma das ilustrações de seu livro vê-se uma escrava quase nua, encadeada a um peso de ferro. Ela recebeu 200 chicotadas e carregou o peso durante um mês, como resultado de sua incapacidade de executar uma tarefa que lhe incumbiu.

[…] Logo após chegar ao Suriname, Stedman participa da primeira de várias escaramuças contra os maroons rebeldes. São feitos prisioneiros de ambos os lados, depois que os maroons atacam os engenhos e fazendas, vingando-se e à procura de suprimentos. Os senhores executam onze cativos, o que dá início a uma série de violentos confrontos entre os dois lados. Grande número de escravos começa a rebelar-se, na esperança de alcançar as mesmas condições de vida dos maroons.

[…] Stedman em breve retorna ao acampamento, onde é apresentado a uma jovem escrava mulata de nome Joanna. Sua aparência e seus modos chamam imediatamente a atenção dele. Acha-a bela e decide tentar comprá-la e proporcionar-lhe uma educação européia. No entanto, logo após ser apresentados, ele adoece. Joanna cuida dele até a recuperação, o que resulta em sua crescente afeição por ela.

[…] Enquanto Stedman recobra a saúde, as condições do Suriname declinam. Ele presencia inúmeras execuções e brutalidades contra os escravos rebeldes e também contra escravos complacentes. Descreve os horrores de tais punições e fala da indignação que elas lhe inspiram. Um soldado lhe narra que um rebelde foi dependurado pelas costelas durante dois dias, como punição de seus crimes. Era prática comum dos europeus da colônia cortar o nariz de seus escravos, os queimar vivos e chicoteá-los até a morte, com total impunidade. Alguns escravos engoliam a língua ou comiam terra, a fim de tirar a própria vida.

[…] Ao longo de sua Narrativa, Stedman narra várias histórias relativas ao infeliz estado dos escravos e os horrores aos quais estão submetidos. Numa dessas histórias, de um grupo que navegava numa embarcação, uma escrava recebeu de sua senhora a ordem de entregar-lhe seu bebê, que chorava. Em seguida a senhora jogou o bebê na água e ele morreu afogado. A mãe pulou no rio, tentando salvar o bebê, cujo corpo foi recuperado por escravos. Mais tarde ela recebeu 200 chicotadas por seu comportamento desafiador. Em outra história, um menino dá um tiro na cabeça para escapar das chicotadas. Numa terceira história, um homem fica com a espinha completamente partida e é deixado durante vários dias sofrendo, até morrer.

[…] A vida de Stedman no Suriname começa a melhorar e Joanna dá a luz ao filho deles, Johnny. No entanto sua breve felicidade doméstica é interrompida, quando a Brigada dos Escoceses é chamada de volta à Holanda. Ciente de sua iminente partida, Stedman tenta aproveitar o pouco tempo que lhe resta passando-o ao lado de Joanna e Johnny. No entanto irrompem novas insurreições e Stedman recebe a ordem de permanecer no Suriname.

Suas observações sobre a cultura dos maroons o deixam intrigado. Embora certos aspectos lhe sejam estranhos e desconfortáveis, tais como as escarificações faciais e os dentes limados, Stedman não pode deixar de admirar e elogiar a cultura deles como um todo. Escreve que os africanos são os mais verdadeiros amigos que alguém possa desejar ter, possuem em geral natureza afável, ambos os sexos demonstram coragem e heroísmo, muitas vezes enfrentando extrema crueldade e mutilações.
[…] A última expedição de Stedman no Suriname consiste em ir, com seus homens, em busca de forças rebeldes. Para sua grande surpresa o único rebelde encontrado foi um ancião, deixado para trás.

[…] Stedman estabelece residência em Paramaribo, onde presencia uma escrava a ponto de ser açoitada por insubordinação. Esse acontecimento o inspira a proceder à emancipação do próprio filho. Tenta batizar Johnny, mas é repelido pelos padres, os quais alegam que, devido a seu próximo regresso à Holanda, ele não estará presente na vida do menino o tempo suficiente para lhe proporcionar uma educação cristã apropriada. Stedman dá adeus a Joanna, a Johnny e a inúmeros amigos íntimos, lamentando ter de deixar sua esposa e seu filho. Pede a Joanna que o acompanhe à Europa, mas ela declina, pois ainda é escrava.

HISTÓRIA DA PUBLICAÇÃO

A Narrativa de Stedman foi publicada por Joseph Johnson, personagem radical, criticado devido ao tipo de livros que vendia. Na década de 1790, mais de 50 por cento deles tinham cunho político, incluindo a Narrativa de Steman. Suas publicações apoiavam os direitos dos escravos, dos judeus, das mulheres, dos prisioneiros e de outros membros oprimidos da sociedade. Johnson era membro ativo da Sociedade para a Informação Constitucional, uma organização que tentava reformar o Parlamento. Foi condenado devido ao apoio e à publicação de autores que expressavam opiniões liberais, tais como Mary Wollstonecraft, Benjamin Franklin e Thomas Paine.

A Narrativa de Stedman tornou-se grande sucesso literário. Foi traduzida em quase seis línguas e acabou tendo mais de vinte e cinco edições. Stedman foi extremamente elogiado por suas observações sobre o tráfico negreiro e sua Narrativa foi adotada pela causa abolicionista. O paradoxal é que também acabou se tornando um manual para o combate às guerrilhas nos trópicos.[…] […] Sua Narrativa é lida em aulas universitárias como um exemplo de literatura abolicionista.

STEDMAN E A ESCRAVIDÃO

A atitude de Stedman para com os escravos e a escravidão tem sido tema de debates acadêmicos. Apesar da utilidade abolicionista do texto, Stedman estava muito longe de ser um abolicionista. Uma defesa da escravidão perpassa o texto, enfatizando os problemas que surgiriam de uma emancipação súbita e alegando que os ingleses tratavam seus escravos melhor do que outros colonizadores. Na realidade, Stedman acreditava que a escravidão era de alguma forma necessária para continuar a permitir que os ingleses e outras nações européias gozassem de seus excessivos desejos por produtos tais como o tabaco e o açúcar. Uma atitude pró-escravidão é adotada em boa parte do texto, descrevendo tanto seu patriotismo como sua atitude em relação aos próprios escravos.
Entretanto, de acordo com sua Narrativa, Stedman, com frequencia, trata e descreve os escravos com implícita dignidade, inusitada para o lugar e para a época em que viveu. Seu caso de amor com Joanna complica ainda mais sua visão em relação à escravidão. O relacionamento de ambos, conforme colocou certo crítico, não parece ter-se enraizado numa espécie de “exploração sexual colonial”, particularmente quando se considera a superlativa descrição que Stedman faz de Joanna, em comparação com as mulheres ocidentais. Ele descreve seu relacionamento como “amor romântico, mais do que servidão filial”. Sua domesticidade inter-racial expressa uma integração cultural aberta, que até mesmo muitos abolicionistas não se dispunham a adotar. Apesar de suas atitudes em relação à escravidão, Stedman demonstrou ter uma visão muito mais diferente dos escravos do que aquela comum em sua época.

Publicações
• John Gabriel Stedman (1813), Narrative, of a Five Years’ Expedition, Against the Revolted Negroes of Surinam, 1 (2nd corrected ed.), London: J. Johnson & Th. Payne, http://www.archive.org/details/narrativeoffivey01sted
• John Gabriel Stedman (1813), Narrative, of a Five Years’ Expedition, Against the Revolted Negroes of Surinam, 2 (2nd corrected ed.), London: J. Johnson & Th. Payne, http://www.archive.org/details/narrativeoffivey02sted
Referências
• Cumming, Laura (15 April 2007). “Mind-Forg’d Madness: William Blake and Slavery.” The Guardian.
• Davis, David Brion (30 March 1989). ‘John Gabriel Stedman’s Narrative of a Five Years Expedition Against the Revolted Negroes of Surinam.’ New York Times Review of Books.
• Fenton, James (5 May 2007). “Colour Blind.” The Guardian.
• Glausser, Wayne (1998). Locke and Blake: A Conversation Across the Eighteenth Century. Gainesville, Florida: University Press of Florida.
• Hoefte, Rosemarijn (1998). In Place of Slavery: A Social History of British Indian and Javanese Laborers in Suriname. Gainesville, Fl.: University Press of Florida.
• Honour, Hugh (1975). The European Vision of America. Cleveland, Ohio; The Cleveland Museum of Art.
• Lang, George (2000). Entwisted Tongues: Comparative Creole Literatures. Amsterdam: Rodopi Publishing.
• Lee, Sidney (editor) (1909). The Dictionary of National Biography. New York, New York: The Macmillan Company.
• Pratt, Mary Louise (1992). Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturation. London, England: Routledge.
• Price, Richard and Price, Sally (editors) (1992). Stedman’s Surinam: Life in an Eighteenth-Century Slave Society. Baltimore, Maryland: Johns Hopkins University Press.
• Richards, David. Masks of Difference Cultural Representations in Literature, Anthropology, and Art. Cambridge, England: Cambridge University Press.
• Sollors, Werner (1997). Neither Black Nor White, Yet Both: Thematic Exploration of Interractial Literature. New York, New York: Oxford University Press.
• Thomas, Helen (2000). Romanticism and Slave Narratives: Transatlantic Testimonies. Cambridge, England: Cambridge University Press.
Obtido de “http://en.wikipedia.org/wiki/John_Gabriel_Stedman”

Categorias: Scottish soldiers | Scottish writers
Tradução de excertos, pesquisa e seleção de imagens:
Carlos Eugênio Marcondes de Moura

Imagens obtidas em Google Imagens

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