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Judeus em defesa dos povos indígenas

Os índios Wajãpi. (Foto:VICTOR MORIYAMA)

Há mais de vinte anos, a terra do povo Waiãpi, no oeste do Amapá, foi finalmente demarcada. Mesmo assim, na última semana (23 de Julho de 2019) a terra foi invadida por um grupo armado que assassinou brutalmente o líder indígena Emyra Waiãpi. Os invasores tomaram a aldeia dos Waiãpi, forçando-os, sob risco de morte, a se concentrar em uma comunidade vizinha.

Por Judeus pela Democracia-SP, enviado para o Portal Geledés 

A disposição para invadir um território indígena e assassinar um de seus líderes é alimentada por uma série de discursos e ações realizadas pelo governo federal que deslegitimam a vida e a terra dos povos originários. Como não ver no governo um aliado dessa barbárie, quando um dia antes do assassinato de um líder indígena, o presidente enuncia que a missão que dará a seu filho, Eduardo Bolsonaro, como embaixador do Brasil nos EUA, será a de atrair investimento norte-americano para a exploração de minério em território de povos indígenas? Como ser algoz de um povo minoritário nas terras da Amazônia e não se ver como parte do corpo político do presidente Jair Bolsonaro quando o mesmo, na semana em que assassinam brutalmente um líder indígena, vai a Manaus e promete legalizar o garimpo que devasta e contamina diversas terras indígenas, incluindo a dos ianomâmis (RR/AM), dos mundurucus (PA) e dos cinta-larga (RO)?

Na verdade, desde a campanha presidencial do ano passado até o presente, estamos diante de uma escalada de discursos e medidas que consideram as vidas e as terras indígenas como meros entraves a serem derrubados. É com horror que somos obrigados a ouvir, na semana seguinte ao assassinato, o presidente, em ato negacionista, afirmar que não existe “indício forte” de que o líder tenha sido assassinado, além de tentar colocar os indígenas como marionetes de fictícios inimigos da soberania nacional. O ataque contra os Waiãpi não é um caso isolado e não pode ser visto fora desse contexto.

Primo Levi, judeu sobrevivente de campo de concentração nazista, se perguntou em que medida o horror dos campos morreu para nunca mais retornar, ou em que medida estaria justamente retornando. Uma questão ética se impunha: “Que pode fazer cada um de nós para que neste mundo pleno de ameaças, pelo menos esta ameaça seja anulada?”. Retomamos esse questionamento ao pensarmos no holocausto indígena que há 500 anos persiste em nosso país: os discursos e ações do presente caminham no sentido de anular esse martírio ou justamente de intensificá-lo?

Nós, Judeus pela Democracia-SP, nos solidarizamos com o povo Waiãpi e demais povos indígenas e condenamos veementemente os ataques assassinos contra eles e o posicionamento também assassino do governo que fomenta, direta e indiretamente, a barbárie, e a justifica cinicamente como uma benignidade econômica.

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