sexta-feira, janeiro 14, 2022
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Lélia Gonzalez: feminista, sim, mas negra!

Muito cedo, a antropóloga, educadora e feminista mineira, Lélia Gonzales aprendeu que, na luta dos movimentos sociais, também existem castas e hierarquias. Por isso, questões específicas como as das mulheres negras, eram subestimadas em favor do chamado “interesse maior”. Assim como ocorria nas fotografias da liderança do Movimento Feminista, com as militantes negras, suas reivindicações também eram mantidas na segunda ou na terceira fila. A fidelidade às causas que abraçou – em especial a do feminismo e das relações raciais – foi a principal marca dessa ativista que, em 19 de julho de 1994, aos 59 anos, se transformou em ancestral. Mineira, nascida Lélia Almeida, em Belo Horizonte, ainda criança, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde foram viver na favela do Morro do Pinto, no Santo Cristo, junto ao Leblon. A proximidade com o Clube de Regatas Flamengo deu a um dos irmãos mais velhos, Jaime de Almeida, a oportunidade de se tornar jogador de futebol desse time e posteriormente seu técnico. Não é à toa que, flamenguista roxa, tinha o futebol como um de seus grandes prazeres. Era a penúltima dos 18 filhos e filhas do ferroviário negro Acácio Joaquim de Almeida, com a índia Urcinda Seraphina de Almeida.

Um exílio após o outro
Ser retirado de suas antigas moradias, mesmo que precárias, e empurrados para locais menos valorizados, é sina da população negra nos grandes centros urbanos. Das áreas centrais, consideradas nobres, para os morros e, desses, para as periferias e subúrbios, como a Baixada Fluminense. Com a família Almeida não foi diferente: do Morro do Pinto direto para o subúrbio de Ricardo de Albuquerque, loteamento das antigas terras do Engenho Nossa Senhora de Nazaré.

Muito tempo depois, na obra Lugar de Negro, que lançou em 1982, com Carlos Hasenbalg, pela editora Marco zero, Lélia escreveu: “O lugar natural do grupo branco dominante são moradias amplas, espaçosas, situadas nos mais belos recantos da cidade ou do campo e devidamente protegidas por diferentes tipos de policiamento: desde os antigos feitores, capitães do mato, capangas, etc., até a polícia formalmente constituída. Desde a casa grande e do sobrado, aos belos edifícios e residências atuais, o critério tem sido sempre o mesmo. Já o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente: da senzala às favelas, cortiços, porões, invasões, alagados e conjuntos habitacionais, cujos modelos são os guetos dos países desenvolvidos dos dias de hoje. O critério também tem sido simetricamente o mesmo: a divisão racial do espaço.”

As constatações de opressão e exclusão de seu povo não fizeram dela uma pessoa amarga. Ao contrário. Com seu riso franco, aberto e fácil, buscava o colorido de nossa cultura, o que a levou a escrever Festas Populares no Brasil, lançado pela Editora Index, em 1987, e premiado na Feira Internacional do Livro, de Leipzig, Alemanha, entre as obras que compõem “os mais belos livros do mundo”.

Formação e militância
A distância e a precariedade dos trens da Central do Brasil não foram impedimento para a menina Lélia estudar. Tampouco de se destacar entre os alunos do tradicional Colégio Pedro II. Posteriormente, graduou-se em História, Geografia e Filosofia. Fez mestrado em comunicação e doutorado em antropologia. Já adotara o sobrenome Gozales – por meio do casamento – quando atuava como assistente no curso de Filosofia, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Dali para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi um pulo. Sua simpatia pelos pensamentos de esquerda tornou-se irrelevante, diante dos seus conhecimentos, da capacidade intelectual e da comunicabilidade que motivaram o convite para ministrar cursos no Centro de Estudos de Pessoal, do Exército Brasileiro. Tudo isso em plena ditadura militar.

Muito tempo antes de se imaginar que, um dia, um presidente da república brasileira assinaria a Lei 10.639/03, que modificaria a Lei de Diretrizes e Base do ensino, no país, Lélia já combatia, em sala de aula, a opressão e exclusão de nosso povo. Aprofundava-se nos escritos de grandes pensadores negros daqui, dos Estados Unidos e da África; na história de civilizações africanas e de suas lideranças, nos conhecimentos mais elementares da cultura afro-brasileira. Assim, modificava os paradigmas no imaginário de seus alunos e fortalecia as bases da militância do movimento negro contemporâneo, no período de sua eclosão, na década de 1970.

“MUITO TEMPO ANTES DE SE IMAGINAR QUE, UM DIA, UM PRESIDENTE DA REPÚBLICA BRASILEIRA ASSINARIA A LEI 10.639/03, QUE MODIFICARIA A LEI DE DIRETRIZES E BASE DO ENSINO, NO PAÍS, LÉLIA JÁ COMBATIA, EM SALA DE AULA, A OPRESSÃO E EXCLUSÃO DE NOSSO POVO”.

Onde o povo está
Enquanto alguns de nossos intelectuais se afastam do povo para vivenciar o glamour e a badalação dos “bem-nascidos” e do universo acadêmico, como uma verdadeira griô, fiel à tradição da oralidade africana, Lélia compartilhava com seu povo histórias que valorizavam nossas origens e produção cultural. Mesmo sendo professora e chefe do Departamento de Sociologia, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, tinha certeza de onde e com quem queria atuar. Numa entrevista à Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficos (SEAF) afirmou: “Fiz um tipo de escolha, que foi a militância de rua, participando de organizações negras, de seminários. Na medida em que nós, os intelectuais negros orgânicos, somos tão poucos, realmente existe um grande leque de atividades para poder responder às exigências que nos são colocadas.” Porém, não fugia da raia e ocupava os espaços com sua sabedoria, por exemplo, com o pioneiro curso Cultura Negra no Brasil, que ministrou, por dois anos, na Escola de Artes Visuais, do Parque Lage, escola carioca considerada de elite.

Integrante do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, não abandonou, em momento algum, as demais demandas urgentes como a dos afro-brasileiros e dos homossexuais, que constavam em sua plataforma de campanhas para deputada federal, em 1982, pelo PT, e de deputada estadual, em 1986, pelo PDT. Em ambos, ficou como suplente. Porém foi vitoriosa no campo da criação coletiva de organizações, entre elas, o Movimento Negro Unificado, a Escola de Samba do Quilombo, o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Nzinga Coletivo de Mulheres Negras, no Rio de Janeiro; e o Olodum, na Bahia. Seu nome se perpetua em algumas instituições como o Instituto de Educação, Arte e Estudos Afro-Brasileiros Lélia Gonzalez.

Por meio da publicação de suas palestras e de debates dos quais participou, foi se cunhando o termo amefricanidade, que se baseia nas experiências diaspóricas, ou seja, a dos descendentes de africanos não só no Brasil, mas em todas as Américas. Ao ler Lélia Gonzales, se tem a certeza de que as diferenças culturais de nossa gente, do lado de cá do Atlântico, são minúsculas, diante de tudo o que temos em comum.

 

 

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