Há pensamentos que parecem envelhecer junto ao mundo. Outros, ao contrário, permanecem se deslocando dentro dele, como se continuassem girando em busca de novas outras palavras para aquilo que nem sempre conseguimos nomear com exatidão. Pensar com Milton Santos provoca algo dessa ordem. Suas reflexões seguem atravessando o presente não apenas pela precisão de seus diagnósticos, mas pela capacidade de perceber transformações humanas profundas que estariam em curso.
Em uma entrevista concedida em 20011, Milton Santos afirmava que vivíamos sob um “globaritarismo”: uma forma contemporânea de totalitarismo produzida pela globalização e sustentada por uma promessa contraditória de liberdade. “Nunca houve um mundo que espalhasse que a liberdade é a forma suprema de vida e, ao mesmo tempo, suprimisse a verdadeira liberdade”, dizia ele. A formulação permanece perturbadora porque desloca a liberdade do campo da retórica para o campo da experiência concreta. Não se trata, necessariamente, de perguntar se somos juridicamente livres, mas de investigar quais condições espaciais, temporais e sociais tornam possível viver a liberdade.
Retornar a esse pensamento, dessa maneira, no contexto atual faz pensar em modos de ser que parecem estar cada vez mais submetidos à racionalidade técnica e econômica de regimes de comando. Interessa aqui, portanto, pensar o que pode ser a verdadeira liberdade a partir de algumas ideias desenvolvidas por Milton Santos ao longo de suas obras. Não há a intenção de reconstruir um conceito de maneira sistemática ou conclusiva, mas de aproximar fragmentos, observações e formulações que permitam acreditar na liberdade como experiência espacial, temporal e coletiva. Um exercício intelectual e crítico que parte também da compreensão de que o espaço é a condição ativa da existência, dos vínculos e das formas de conceber o mundo.
As aproximações possíveis são construídas a partir de quatro movimentos: a crítica às promessas contemporâneas de liberdade, a potência do cotidiano e do espaço banal, as formas populares de solidariedade e inventividade e, por fim, a coragem do risco como condição do pensamento crítico.
01. a liberdade como problema do nosso tempo
Ao definir o globaritarismo, Milton Santos descreve um mundo em que a eficácia depende da repetição de comportamentos padronizados, da adesão a modelos únicos de vida e da punição sistemática de qualquer forma de desvio. Há algo profundamente atual nessa percepção, uma vez que, em um presente marcado pela aceleração contínua, pela gestão permanente do tempo, pela vigilância e pela transformação da produtividade em virtude moral, descansar, hesitar, desviar, observar ou simplesmente se demorar diante das coisas passa a parecer inadequado. A liberdade parece ser constantemente anunciada enquanto os modos de vida tornam-se cada vez mais estreitados.
Pensar sobre liberdade hoje talvez exija justamente romper com essa naturalização. Exija compreender que ela não pode ser reduzida à circulação individual ou à capacidade de consumo. Ela depende da possibilidade de produzir vínculos, partilhar o tempo, provocar futuros e participar ativamente da construção da vida, de maneira democrática. Quando Santos fala de “cidadanias mutiladas”2, ele também aponta para a existência de sujeitos impedidos de exercer plenamente sua presença no mundo. Nesse sentido, a liberdade deixa de ser uma abstração filosófica e passa a ser uma questão profundamente geográfica.
02. o cotidiano e as banalidades do mundo
Uma das grandes contribuições da obra de Milton Santos está na atenção radical ao cotidiano. Ao falar do “espaço banal”3, Santos não se refere a um espaço sem importância, mas justamente ao espaço compartilhado da vida comum, o território onde as existências ordinárias acontecem, onde os conflitos se manifestam, onde as relações sociais ganham espessura. O banal, nesse sentido, é o que sustenta a experiência coletiva e o cotidiano se dá como dimensão essencial do espaço.
“O cotidiano supõe o passado como herança. O cotidiano supõe o futuro como projeto”, escreve Milton Santos em Por uma geografia cidadã (1996)4. A frase revela que o cotidiano é também elaboração contínua da existência, para além da simples repetição de algo diário. Nos gestos aparentemente simples – uma conversa longa na calçada, uma feira de rua, um ritual, uma celebração popular – sobrevivem temporalidades que não obedecem inteiramente à lógica produtiva do capital. Há nesses momentos uma suspensão parcial das temporalidades dominantes, onde esse pensamento sugere reencontrar uma forma de observação capaz de perceber essas pequenas permanências do humano e ensina que a cidade é feita de frequências em tons menores de presença. O lugar da liberdade, assim, constitui-se como um espaço por vezes provisório e relacional, composto por práticas que atravessam escalas.
03. solidariedade, inventividade e formas populares de vida
Ao refletir sobre os chamados “circuitos inferiores” da economia urbana, Milton Santos oferece um entendimento generoso e radical sobre as formas populares de organização da vida nas cidades. Em outra entrevista publicada em 20015, ele afirma que esses circuitos frequentemente combatidos pela racionalidade formal – do Estado e do mercado – são justamente “o lugar da liberdade, da inventividade, da originalidade”.
Santos percebe que aquilo que costuma ser tratado apenas como deficiência ou atraso também pode conter formas sofisticadas de solidariedade e criação social. Por exemplo, poderíamos pensar nos mercados populares, nas redes de ajuda mútua, na vizinhança, nos arranjos improvisados da vida urbana, existe uma inteligência coletiva capaz de produzir sobrevivência, circulação e pertencimento mesmo sob condições profundamente desiguais. Longe de romantizar a precariedade, mas trata de reconhecer que a vida social frequentemente cria soluções que não deveriam ser substituídas continuamente pela lógica dos poderosos. Pensar a liberdade a partir dessas experiências populares implica também perceber que existem formas de inteligência espacial produzidas cotidianamente por sujeitos historicamente marginalizados.
04. o risco como condição do pensamento crítico
Por fim, “não há esforço crítico sem risco.” A frase, presente em Por uma Geografia Nova (2021)6, sintetiza, ao meu entender, tanto a prática intelectual de Milton Santos, quanto o próprio exercício proposto aqui. Arriscar o pensamento significa admitir que o mundo permanece em mudança e que nossa compreensão sobre ele jamais será definitiva7 – como sugere Milton, “o desconhecido só pode ser conceitualizado com imaginação e não com certezas”. Mas uma mente incapaz de arriscar também se torna incapaz de imaginar. E quando a imaginação se estreita, estreitam-se também as possibilidades de existência. Pensar criticamente implica abandonar garantias absolutas, desafiar modelos estabilizados de interpretação e aceitar a incerteza como parte da produção do conhecimento.
Essa formulação ganha enorme relevância no presente. Vivemos em um tempo marcado pela saturação informacional e tecnológica, que frequentemente impede processos mais profundos de elaboração crítica. Ao mesmo tempo, a racionalidade técnica tende a privilegiar respostas imediatas, métricas de desempenho e formas cada vez mais operacionais de conhecimento. Nesse cenário, pensar criticamente continua sendo uma forma de coragem, na mesma medida em que, arriscar o pensamento torna-se também um gesto libertário.
A liberdade surge assim como uma tarefa incontornável. Talvez uma das demandas mais urgentes do século XXI seja justamente reaprender a perceber aquilo que ainda escapa às linguagens da eficiência, sendo necessário reconhecer formas de humanidade que persistem apesar das violências da organização contemporânea do espaço, e entender que a liberdade, antes de ser um estado permanente, talvez seja uma prática contínua de reinvenção do indivíduo e do coletivo.
Sobre a série especial 100 anos de Milton Santo, exclusiva no Portal Geledés
Neste ano de 2026, celebramos 100 anos do nascimento de Milton Santos, um dos maiores intelectuais do país. Geógrafo, escritor e professor, sua obra aprofunda conceitos fundamentais para compreender o espaço geográfico, discute a globalização e antecipa reflexões críticas sobre tecnologia, bem como expõe a urbanização desigual e o protagonismo das periferias na produção de conhecimento.
A grandeza de suas contribuições foi reconhecida nacional e internacionalmente. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Titular do Departamento de Geografia na Universidade de São Paulo, Milton Santos recebeu o título de Doutor Honoris Causa em universidades no Brasil, na França e na Espanha. Em 1994, foi condecorado com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, grande honraria da geografia mundial, e um ano depois, em 1995, recebeu o Prêmio Jabuti pela obra “A Natureza do Espaço”.
Em homenagem ao seu legado, o Portal Geledés apresenta uma série semanal de artigos inéditos, escritos por pessoas que o estudam, desenvolvem pesquisas a partir de sua obra ou se relacionam politicamente com suas posições e falas. Ao final, os textos farão parte de um dossiê que celebra Milton Santos. Agradecemos a cada autor e autora que aceitou fazer parte desta celebração.
Referências
- SANTOS. Milton. Pensador do Brasil. Direção: Silvio Tendler. Duração: 107 min. Realizada em: 4 de jan. de 2001. ↩︎
- SANTOS, Milton. As cidadanias mutiladas. In: Vários autores (org.). O preconceito. São Paulo: IMESP, 1996. p. 133-144. ↩︎
- SANTOS, Milton. Técnica, Espaço, Tempo. 5a edição. São Paulo, Edusp, 2013 [1994]. ↩︎
- SANTOS, Milton. Por uma geografia cidadã: por uma epistemologia da existência. Boletim Gaúcho de Geografia, Porto Alegre, v. 21, n. 1, p. 7-14, 1996. ↩︎
- SANTOS, Milton. Entrevista com Milton Santos. Entrevistadores: Carlos Tiburcio; Silvio Caccia Bava. Publicado em 28 jun. 2001. ↩︎
- SANTOS, Milton. Por uma geografia nova. 6a edição. São Paulo: Edusp, 2021. [1978]. ↩︎
- O contrário do risco é a fixidez: a tentativa de transformar a realidade em fórmula, método absoluto ou certeza imutável. ↩︎
Sobre a autora

Maria Luiza de Barros Rodrigues é arquiteta, urbanista, pesquisadora, curadora e seletora musical, em constante busca por abordagens interdisciplinares sobre a cidade. Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (FAU-USP), com doutorado sanduíche na Universidade de Toronto, e mestre em Geografia pela Universidade Federal do Espírito Santo (PPGG/UFES). É professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Escola da Cidade. Fundadora e diretora de projetos da Outernational Vibration, plataforma independente de pesquisa e práticas culturais. Maria Luiza expande sua prática por meio de traduções de livros, palestras, publicações, discotecagens e outras colaborações criativas.