terça-feira, setembro 21, 2021
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Lima Barreto, a escrita de um eterno indignado!

O Brasil é um país caracterizado por enormes contradições de diferenças, nada harmoniosas, quando não conflitantes entre os diferentes grupos sociais que habitam esse grande território sul-americano. Uma nação em eterna busca de sua completude civilizatória, mas sempre a margem e distante dos caminhos da plena cidadania e direitos sociais. E como todo conjunto social complexo e dinâmico em suas constituições e vivências, faz-se constituir as figuras de cronistas sociais, de pensadores e artistas que através de seus ofícios buscam compreender e decodificar os segredos, os amiúdes, as características históricas-culturais que possam “falar mais” sobre a sociedade que somos e sobre a sociedade que poderemos vir a ser. Dentre esses cronistas do que “somos e poderemos ser”, Afonso Henriques de Lima Barreto (13/05/1881- 01/11/1922) foi um de seus autores mais originais e instigantes, sempre em busca pelo desvendar de nossa modernidade incompleta e de nosso elitismo parasitário, crítico de nosso conjunto de relações sociais de cunho senhorial e racista.

Um intelectual de análise perspicaz, crítica e ácida, aos caminhos que a sociedade brasileira percorria em tempos republicanos, mas com permanência de hábitos, valores e privilégios de tempos monárquicos, em que o jogo de favores e poderes desenvolvidos de acordo com interesses particulares e de classe, sempre em detrimento dos interesses das camadas mais populares (BARRETO, 1900), sempre no sentido de marginalização sistêmica daqueles considerados enquanto não dignos do direito ao pleno exercício de suas próprias expressões de humanidade.

Lima Barreto é um escritor colocado na penumbra deliberadamente pelos setores dominantes e privilegiados da indústria literária no Brasil. Era pobre, negro, anarquista e, por decorrência de tudo isto, antimilitarista. Sua obra, ao nosso ver, não é, porém, apenas a de um grande romancista, mas a de um escritor que criou uma nova linguagem para a novelística brasileira. Quero acentuar que, propositadamente, escrevi que ele conseguiu para nosso romance uma nova linguagem e não um estilo novo. Até Lima Barreto a linguagem do Romance brasileiro esbarrava em uma série de preconceitos; preconceitos, até hoje, perfilhados por muitos de seus críticos que, escolhendo como referencial básico de perfeição a obra de Machado de Assis, encontram imperfeições em tudo aquilo que, em Lima Barreto, é o transbordar do convencionalismo do linguajar que tinha suas matrizes em Antônio Feliciano de Castilho, para poder expressar a riqueza de pensar e de agir do nosso povo. (MOURA, 1981)

Foi um cronista social de seu tempo, em que através de suas produções literárias e jornalísticas, desenvolveu verve de recorte social de influência anarquista e comunista de teor nacionalista, em que dá origem a um discurso em primeira pessoa de um jovem negro em terras brasileiras, que coloca em pauta, no cerne de nossas diferenças e mazelas sociais, a questão do racismo e de como este se faz presente enquanto elemento de superioridade social e humana de um determinado grupo de pessoas sobre outro, dando forma e caracterizando a sociedade historicamente desigual e racista em que se fez instituir no Brasil. Essa verve crítica literária inovadora, não:

adveio, porém, como muitos de seus críticos apontam, de um menor adestramento seu como escritor ou insuficiente domínio da língua, mas, pelo contrário, era uma posição consciente, que refletia essencialmente sua posição como homem e como artista em relação à realidade brasileira. (MOURA, 1981)

Sua escrita não era neutra ou de estilística puramente artística, mas sim visceral, abertamente conflitiva e provocativa ante ao conjunto intelectual majoritário a época, que por vezes se preocupavam mais em não agredir as formas cânones de nossas esferas culturais e políticas, do que buscar compreender de fato o país em que viviam. Era o que hoje pode ser considerado enquanto um autor engajado, no sentido de não disfarçar as prevalências conceituais e ideológicas que o movia enquanto escritor, de fazer de suas crônicas e obras enquanto compromissos com aqueles que optou em fazer presentes de maneiras altivas, complexas, íntegras e humanas – com todas as suas complexidades e contradições – no decorrer de suas páginas…

Concebendo o ofício de escritor como uma forma de militância, e a literatura como uma missão, ele atribuíra ao artefato artístico uma função duplamente redentora ao mesmo tempo individual e coletiva. Ao explorar o próprio caso, ele acreditava estar colaborando para o reconhecimento da existência de um verdadeiro drama coletivo. Assim como esperava ser reconhecido por tal demonstração de inteligência e coragem, que, na sua opinião, e a despeito das críticas dirigidas aos seus escritos, atestavam o valor de sua literatura. (TRINDADE; SILVA, 2014?: 2)

Homem oriundo de família negra pequeno burguesa, de pais já libertos, e apadrinhada pelo Visconde de Ouro Preto, foi socialmente inserido a melhor educação da época, com uma vida socialmente tranquila, educado em meio aos filhos das classes dirigentes políticas e econômicas do Rio de Janeiro. Uma realidade que lhe possibilitou desenvolver olhar crítico, desde a infância, as elites do país e como elas enxergavam e tratavam aos que consideravam enquanto “inferiores”. Sendo ele mesmo vítima dos processos de discriminação e racismo comuns a sociedade brasileira que viria a discorrer tão cruamente em seus futuros escritos.

Um autor que aprendeu todos os ritos e formalidades das elites brasileiras, assim como a sua hipocrisia e cinismo, e que fazia questão de discorrer mordazmente em seus ofícios literários, não perdendo a chance de ironizar e expor ao ridículo as pessoas que considerava responsáveis por todas as mazelas e atrocidades que impediam a inserção do Brasil ao “mundo moderno”. Por isso sendo para ele impossível ao país ascender a modernidade civilizatória, com uma elite retrógrada e sinónimo de atraso social como a brasileira. Em Lima Barreto ocorre uma confrontação ao ideário vigente ao período histórico entre final do século XIX e primeiras décadas do século XX em meio a nossa intelectualidade, com suporte científico das teorias racistas do darwinismo social e eugenia, que promulgavam a culpa por nosso atraso social e incapacidade organizacional devido a nossa herança não negra, em especial a de origem afro. Para ele sendo as nossas elites e sua incapacidade de se reconhecer em seu próprio povo, de valorizar as historicidades e saberes que respondem pelo que de melhor somos e daquilo que poderíamos vir a ser de fato e assim atingirmos a tal almejada e desejada modernidade ante aos demais povos do mundo! Para Barreto as nossas elites – alienadas e apartadas das “coisas e sentidos” do seu próprio país, de suas próprias gentes, entorpecidas por uma herança europeia de pretensa superioridade social e humana – perpetuadoras de um anacronismo parasitário por essência (BARRETO, 1922), eram as verdadeiras culpadas de nossos problemas sociais. Não tendo medo ou pudores em escrever e debater sobre isso.

Lima Barreto foi o primeiro intelectual negro a emergir após a abolição, “o primeiro a pautar os dilemas e contradições desse período de transição – entre um regime escravocrata e patrimonialista para uma nova ordem de classe e ‘liberal’” (TRINDADE; SILVA, 2014?: 2). Com esse elemento de percepção crítica ao papel de hegemonia de nossas elites, sendo também, por outro lado, um olhar de valorização e enaltecimento a nossa brasilidade, termo e conceito tão complexo, mas que aqui interpretamos através da obra de Lima Barreto enquanto representação de conjuntos de valores não institucionais, a margem do reconhecimento das elites, que regem as maneiras que as camadas populares e marginalizadas no Brasil interagem e modificam o mundo em que habitam, por caminhos e perspectivas que fogem ao esperado, as normativas vigentes. Sendo exemplos de existências práticas e concretas daquilo que não deveria existir, mas que existem e por aqui sempre estiveram. De uma marginalia (BARETO, 1953), que mesmo que invisibilizada em suas ocorrências, exerce o papel de agente modernizante e contestatória de nossa sociedade.

Um arauto de nossa modernidade por um viés popular, não sendo por acaso Lima considerado um autor pré-moderno, quando não o modelo modernista original, uma das principais influências ao “Movimento Modernista de 1922”. Uma fortuna crítica em que ele fustiga, problematiza o fenômeno das nossas elites em mascarar ou negar sua origem africana, negando assim a sua condição de pertença a população negra, por uma valoração racialista e racista de sociedade, em que tudo associado a origem africana é remetido enquanto sinônimo de inferioridade, primitivo, arcaico. Não sendo por acaso que muitas das críticas negativas e de desvalorização de sua condição de escritor e jornalista se dá por uma forma de vingança daqueles a quem ele tanto criticava, daqueles que o interpretavam enquanto sujeito “ingrato” que desmerecia a oportunidade que teve de viver entre eles, de se deixar incorporar e normatizar por um sistema que se constituí e se reproduz independente de sua vontade. Uma forma de punição ao negro que ousava não ocupar o seu lugar de obediência e servidão ante aos seus superiores. Sendo essa percepção punitiva, de caráter classista e racista, que identificamos também presentes aos processos de análises referentes a sua vida e obra, inserindo e contextualizando-as a nossa tradição intelectual de sempre enfatizar os elementos particulares, em especial os trágicos, como constantes e característicos as vidas e trajetórias das pessoas negras como um todo, em especial associando-as ao alcoolismo e precariedade psicológica – características depreciativas e preconceituosas que embora consequências da influência das teorias racistas em voga até metade do século XX, ainda se faz presente a nossa contemporaneidade intelectual, inclusive em estudos recentes sobre Lima Barreto – como se fossem explicações naturais ante o que consideravam incapacidades intelectuais inerentes as populações afro-brasileiras, sendo o “fracasso” enquanto escritor de Lima Barreto exemplo que se encaixava e dava razão a essa teorização(1).

Obra que se fez por décadas ignorada pelo academicismo intelectual, ou vinculada e analisada única e exclusivamente pela perspectiva do olhar trágico, do negro sofredor que sucumbe ante as agruras da vida, sufocado por seus próprios demônios interiores. Tornou-se exemplo do estereotipo dos negros em não serem aptos a atingir excelências em “altas e nobres” artes, em práxis intelectuais e artísticas consideradas refinadas ou sofisticadas. Um processo de apagamento de historicidades e saberes produzidos por estas populações, como se a essas estivesse no máximo reservada a seara, no sentido pejorativo, do folclórico, de algo menor em importância e significado, exemplo de culturas menores e subordinadas ante as concessões e validações de nossas elites(2).

Uma realidade que impactou o devido reconhecimento a obra de Lima Barreto, que começa a ser recuperado enquanto autor referencial, através da sua recuperação e valorização de sua obra e vida, por intelectuais como Abdias Nascimento e Clóvis Moura e, em especial, pela nova geração de escritores negros que surgem a partir dos anos 1970, como por exemplo o “Grupo Quilombhoje Literatura”, iniciando um movimento de recuperação literária que entre idas e vindas, veio crescendo década a década, mantendo a obra de Barreto viva, circulando e sendo discutida, problematizada e contextualizada aos novos tempos justamente por aqueles a quem sempre procurou fazer por representar no pleno exercício de suas potências humanas. Resgate que se fez vitorioso na preservação e divulgação da obra de Lima Barreto, inserindo esta entre os cânones de nossa literatura e sendo – autor e obra – estudados de maneira pormenorizada, por perspectivas e recortes outros que agora se fazem mais presentes e atuantes em nosso universo intelectual-acadêmico. Nova perspectiva histórica e social destinada a Lima Barreto que se deu com a inserção das populações afrodescendentes aos espaços universitários, que ao ocuparem esses centros de saberes-poderes acabaram também por levar a fortuna crítica barretiana a também se fazer presentes a estes lugares dantes se faziam impedidos estruturalmente a eles.

Lima Barreto nunca foi triste ou amargurado – ou nunca foi estritamente só isso – pois também o era alegre, esperançoso, ácido, crítico, contraditoriamente conflituoso e complexo em sua humanidade. Buscando avidamente em se fazer reconhecido por seu talento enquanto escritor e não feliz ou cordato ante a sua percepção de que esse reconhecimento não lhe era devido por sua condição de homem negro social e racialmente consciente e orgulhoso dessa sua condição humana. Que não compactuava com as regras sociais vigentes, sendo por isso taxado enquanto insolente, irascível, rebelde, tumultuador, subversivo, perigoso que tomado por sua própria arrogância e fúria desmedida fez-se acabar os dias em desesperada solidão, alienado de toda e qualquer razão. Em verdade, interpretamos suas crises de saúde, enquanto manifestações de suas insurgências existenciais ante um mundo que parecia lhe fechar as portas cada vez mais e mais (BARRETO, 1993), acabando nesse processo por ser isolado de tudo e de todos, para não mais oferecer “perigo a sociedade”, controlado e vigiado, tal qual um prisioneiro, na pequena casa da família no bairro de “Todos os Santos”. Revoltado em amargor com os destinos do país, ressentido com os tratamentos despendidos em relação a ele e aos seus, impedidos de terem uma plena vida em direitos e cidadania por nossa herança escravocrata-senhorial. Num país que renega o seu melhor, a sua originalidade, a sua inventividade em sempre buscar transformar o impossível em realidade, em não se curvar ante a mediocridade assassina e desumana de nossas elites contra aqueles por elas considerados enquanto inferiores e desprovidos de qualquer tipo de valor e importância. Mas não deixando de escrever, anotar suas percepções e considerações até os últimos momentos de sua vida. Na certeza inabalável de que as saúvas ao final não impedirão o florescer de uma nova e definitiva Primavera!

Parece-me que o nosso dever de escritores sinceros e honestos é deixar de lado todas as velhas regras, toda a disciplina exterior dos gêneros, e aproveitar de cada um deles o que puder e procurar, conforme a inspiração própria, para tentar reformar certas usanças, sugerir dúvidas, levantar julgamentos adormecidos, difundir as nossas grandes e altas emoções em face do mundo e do sofrimento dos homens, para soldar, ligar a humanidade em uma maior, em que caibam todas, pela revelação das almas individuais e do que elas têm em comum e dependente entre si. (BARRETO, 1916)

Que leiamos e interpretemos Lima Barreto, sua vida e sua obra, por lentes desprovidas dos velhos preconceitos, destacando a inovação e originalidade de seu conjunto literário e intelectual, em meio a sua eterna busca por desafi(n)ar o coro dos contentes de nossas elites arcaicas e bruzundangas!


Notas de Rodapé:

(1) Sendo a acidez e mordacidade de sua escrita interpretadas, por vieses eugenista e racista, como formas manifestas de ciúmes, inveja e ódio – portanto de pulsões – enquanto expressões inconscientes de lidar com sua frustação em não poder ser como aqueles a quem tanto criticava.

(2) Podendo ser incluídas a essa realidade, os processos de apagamento do pioneirismo e qualidade literária de Maria Firmina dos Reis (1822-1917), a primeira romancista do país, do desvirtuamento ante a excelência poética de negritude do simbolismo exercida por Cruz e Sousa (1861-1898) e a etapa de desconstrução da produção crítica e política antirracista a obra de Machado de Assis, além do embranquecimento de sua imagem, uma mentira transformada em verdade que perdurou por décadas, sendo confrontada e revelada enquanto farsa graças as ações do movimento negro, em especial de escritores e intelectuais, que restituíram a verdade histórica em relação ao bruxo do Cosme Velho.

Referências Literárias:

BARRETO, Lima. Marginalia. In: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua000158.pdf, acessado em 24/05/2021, [1953].

BARRETO, Lima. Amplius! Prefácio a Histórias e sonhos. In: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/450-lima-barreto 2021, [1916].

BARRETO, Lima. Diário do hospício; o cemitério dos vivos. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1993. (Biblioteca Carioca; v. 8, Série Literária). In: http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/4204210/4101373/diario_hospicio_cemiterio_vivos.pdf, acessado em 19/05/2021.

BARRETO, Lima. Os bruzundangas. Rio de Janeiro: Editor – Jacintho Ribeiro dos Santos, 1922. In: https://digital.bbm.usp.br/bitstream/bbm/4801/1/001174_COMPLETO.pdf, acessado em 19/05/2021.

BARRETO, Lima. Diário Íntimo. 1. Edição. Rio de Janeiro: Editora: Biblioteca Nacional, 1900. In: https://5ca0e999-de9a-47e0-9b77-7e3eeab0592c.usrfiles.com/ugd/5ca0e9_87c3013269ff4f86803115c51774093a.pdf, acessado em 19/05/2021. (Projeto: Clássicos de Ontem).

TRINDADE, Alexandro Dantas; SILVA, Jules Ventura. “É TRISTE NÃO SER BRANCO”: NOTAS SOBRE O DIÁLOGO ENTRE INDIVÍDUO E SOCIEDADE NA OBRA DE LIMA BARRETO. In: http://www.congressohistoriajatai.org/anais2014/Link%20(5).pdf

MOURA, Clóvis. Lima Barreto e a Militância Literária. Revista Princípio. [1981]. In: http://revistaprincipios.com.br/artigos/2/cat/2361/lima-barreto-e-a-milit&acircncia-liter&aacuteria.html

Christian Ribeiro, mestre em Urbanismo, professor de Sociologia da SEDUC-SP, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil.
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