Luka Franca – Políticas de higienização, criminalização dos movimentos sociais, extermínio da juventude negra

Truculência na USP e o racismo desnudado em plena cidade universitária

Novamente o movimento estudantil paulistano está em polvorosa, já no começo deste ano o reitor João Grandino Rodas coloca para fora suas garrinhas truculentas na mais importante universidade do país. O vídeo que circula pela rede não apenas mostra mais uma vez o projeto truculento de Rodas e do PSDB para a USP, mas também comprova o quanto para este projeto dar certo é fundamental se aliar com outras formas de opressão existentes na sociedade, no caso de hoje de manhã a necessidade da aliança com o racismo para a imposição do projeto tucano na USP ficou evidente.

A violência dispensada ao estudante que ocupava as dependências do DCE-Livre da USP não era apenas violência contra os posicionamentos políticos dos estudantes, mas também uma manifestação do racismo existente em nossa sociedade e que a PM rotineiramente permeia nas nossas periferias.

A garantia dos espaços às entidades estudantis, de funcionários e professores são essenciais para a independência e auto-organização destas categorias. No caso específico do espaço do DCE-Livre, trata-se dos estudantes terem liberdade em realizar atividades políticas, manifestações culturais, artísticas e de integração. O fechamento desse espaço, no bojo de retirada de outros espaços estudantis como os barracões, corresponde a um ataque direto à entidade máxima de representação estudantil da USP, o DCE-Livre, e demonstra disposição da reitoria de impedir a auto-organização estudantil e a luta por uma universidade pública de qualidade.

Não podemos aceitar mais essa medida truculenta de Rodas, que, utilizando-se da PM, sem nenhum respaldo jurídico, lacrou o espaço estudantil numa ação em que inclusive algumas pessoas foram agredidas. Exigimos a reabertura imediata do espaço e que a reitoria se disponha, definitivamente, a aceitar as reivindicações de uso e administração do espaço, das quais tem conhecimento há dois anos, para que finalmente o conjunto de estudantes possa utilizar o seu espaço. (Nota sobre o fechamento do espaço do DCE-Livre da USP)

A questão veiculada pelo vídeo postado pelos estudantes mostra de forma contundente o quanto a universidade hoje não é vista como lugar do povo negro, pois de todos os estudantes ali presentes o único a ser duramente questionado se era ou não estudante da USP foi um camarada negro com rastafari. O estudante não apenas questionado, mas coagido pelo policial, o qual chega a retirar a arama do coltre para intimidar o estudante ainda mais.

O processo de elitização da educação brasileira não é de hoje, principalmente na USP, as ações de Rodas no último ano só mostram o quanto a política geral do PSDB é cada vez mais de higienização do estado, criminalização dos movimentos sociais, extermínio da juventude negra e nos últimos anos isso vem caído como uma bomba na USP e vez ou outra ganhando a mídia por conta de casos que beiram o absurdo de truculência.

As pessoas tem acompanhado o que vem acontecendo na USP pro meio da TV e grande mídia em geral. O debate sobre segurança na cidade universitária já estava aberto há bastante tempo, basta lembrar do campo de guerra instaurado no Butantã em 2009 a mando do então governador José Serra. Eu iria mais longe, a política de criminalização do movimento social como um todo no Brasil tem se recrudescido dia após dia, a USP é apenas a ponta do iceberg e talvez não seja tão ponta assim, ou esqueceram da onda de ocupações de reitorias acontecidas em 2007 por todo país? (FRANCA, Luka. O longo caminho da truculência e seu mais recente capítulo na USP)

Porém este caso de violência policial novamente na USP é preciso ter nossa atenção, pois desnuda concretamente o como a luta de resistência estudantil naquela universidade dialoga diretamente com as lutas que temos travado na sociedade em geral. Hoje a violência sofrida pelo estudante da USP não foi apenas a truculência e a perseguição ideológica que Rodas vem patrocinando já há algum tempo, mas também mostra para quem ele gesta o modelo de universidade que vem implementando, para uma elite branca, onde estudantes negros precisam sempre se identificar e são sempre criminalizados.

 

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Luka Franca

Paraense radicada em São Paulo, jornalista, mãe, feminista e socialista. Graduada em Jornalismo pela PUC/SP, foi militante e coordenadora nacional da Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação Social (ENECOS), acompanha mais ou menos a oposição dos jornalistas, faz parte do setorial de mulheres do PSOL e é coordenadora do cursinho Guerreira Maria Filipa, em Guaianases, da UNEafro-Brasil.

 

Fonte: Bidê Brasil

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