Luto pela branquitude

Este é um projeto sério. Todos os imigrantes nos Estados Unidos sabem (e já sabiam) que se quiserem se tornar um americano real e autêntico, devem reduzir a fidelidade a sua terra natal considerando-a secundária e subalterna, a fim de enfatizar sua branquitude. Diferente de qualquer nação europeia, os Estados Unidos mantém a branquitude como força unificadora. Aqui, para muitas pessoas, a definição de “americanidade” é a cor.

Sob leis escravocratas, a necessidade de classificações por cor era óbvia, mas na América de hoje, com uma legislação pós-direitos-civis, a convicção de pessoas brancas sobre sua superioridades racial está sendo perdida. Rapidamente perdida. Há “pessoas de cor” em todos os lugares, ameaçando apagar essa velha definição da América. E o que sucede? Outro presidente negro? Um Senado predominante negro? Três juízes negros na Suprema Corte? O prenúncio é amedrontador.

A fim de limitar as possibilidades desta mudança insustentável, e restaurar a branquitude ao seu lugar tradicional como marca da identidade nacional, um número de americanos brancos estão sacrificando eles mesmos. Eles começaram a fazer coisas que claramente não querem fazer e, para isso, estão 1) abandonando seu senso de dignidade humana e 2) arriscando uma aparência de covardia. Mesmo podendo odiar seu comportamento, que eles sabem o quão covarde é, estão dispostos a matar crianças pequenas que frequentam escola dominical e abatem fiéis que convidam um menino branco a rezar. Embaraçosa como deve ser a exposição óbvia da covardia, eles estão dispostos a atear fogo em igrejas enquanto os membros estão em oração. E, por mais vergonhoso que sejam essas demonstrações de fraqueza, eles estão dispostos a atirar em crianças negras na rua.

Para manter viva a noção de superioridade branca, brancos estadunidenses curvam suas cabeças sob chapéus em forma de cone e bandeiras americanas e negam a si próprios a dignidade do confronto frente-a- frente, apontando suas armas nos desarmados, inocentes, assustados e sujeitos que fogem, expondo suas costas inofensíveis a balas. De

fato, atirar em um homem fugitivo pelas costas prejudica a presunção da força branca? Triste situação de homens brancos adultos, inclinados sob seus (superiores) egos, para matar inocentes durante o trânsito, para colocar o rosto das mulheres negras diante da sujeira e para algemar crianças negras. Somente os amedrontados fariam isso, certo?

Esses sacrifícios, feitos por homens brancos supostamente duros, que estão dispostos a abandonar sua humanidade por medo de homens e mulheres negros, sugerem um verdadeiro horror do status perdido.

Pode ser difícil sentir pena dos homens que estão fazendo esses sacrifícios bizarros em nome do poder e supremacia branca. O rebaixamento pessoal não é fácil para os brancos (especialmente para homens brancos), mas para manter a convicção de sua superioridade aos outros – especialmente a população negra – eles estão dispostos a arriscar o menosprezo, e ser vilipendiados pelo maduro, sofisticado e forte. Se eles não fossem tão ignorantes e deploráveis, alguém poderia lamentar esse colapso da dignidade a serviço de um desastre.

O conforto do ser “naturalmente melhor do que”, não tendo que se esforçar ou exigir tratamento civil, é difícil de abandonar. A confiança de que você não será assistido em uma loja de departamento, que você é o cliente preferido em um restaurante de alto nível – estas inflexões sociais, pertencentes à brancura, são avidamente apreciadas.

Tão assustadoras são as consequências de um colapso do privilégio branco, que muitos americanos se reuniram por uma plataforma política que sustenta e traduz a violência contra os indefesos como força. Essas pessoas não estão tão raivosas quanto aterrorizadas, com um tipo de terror que faz tremer os joelhos.

No dia da eleição, ansiosamente muitos eleitores brancos – tanto os pouco-instruídos como os bem-instruídos – abraçaram a vergonha e o medo semeados por Donald Trump. O candidato cuja empresa foi processada pelo Departamento de Justiça por não alugar apartamentos para pessoas negras. O candidato que questionou se Barack Obama nasceu nos Estados Unidos e que parecia aceitar o espancamento de um manifestante do Black Lives Matter em um comício eleitoral. O candidato que manteve os trabalhadores negros fora dos seus cassinos. O candidato que é amado por David Duke e endossado pela Ku Klux Klan.

Willian Faulkner entendeu isso melhor do que qualquer outro escritor americano. Em “Absalão, Absalão”, o incesto é menos um tabu para uma família da classe alta do sul estadunidense do que admitir uma gota de sangue negro que sujaria a linha da família. Em vez de perder sua “branquitude” (mais uma vez), a família escolhe o assassinato.

Tradução Jaqueline Lima Santos, enviado para o Portal Geledés 

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