Do que gostam os que odeiam a arte e a cultura? Dizem que gostam de sossego. Ah, mas nas férias eles nunca vão para um rancho, ouvir o canto dos pássaros, eles vivem em Nova York, Madri, Tóquio, Rio, São Paulo, Amsterdam…
Enviado por Lelê Teles via Guest Post para o Portal Geledés

Cidades nada sossegadas.
Matéria vasta para psicólogos, antropólogos e sociólogos: por que diabos concurseiros e concursados gritam tanto pelo silêncio?
Seria por pretensa civilidade?
Mas essas criaturas vivem a tirar fotos de artistas de rua na Europa, em metrôs, cafés e praças.
Civilização é isso.
Será que estas criaturas que amam o imperturbável silêncio são as mesmas que não dão bom dia ao porteiro ou a seu vizinho no elevador? São esses mudos os mesmos que batem panelas nas varandas à noite para que os vizinhos não ouçam a chefe da nação se pronunciar em cadeia nacional?
Por que diabo o homo brasiliensis detesta o carnaval? Por que raios esse ser estranho odeia os festejos de rua, folguedos populares, circos, festas, sorrisos e barulho de crianças brincando debaixo do bloco?
Mandaram o carnaval de escolas para a Ceilândia, proibiram a construção de creches nas estrequadras; fecham-se em si como conchas.
Brasília já foi referência nacional em arte e cultura. Esse era um tempo em que bandas ensaiavam em quartos de apartamentos.
Hoje a cidade não suporta ouvir o barulho das cigarras, o que dirá de guitarras?
Os bares estão fechando porque o longínquo som do violão incomoda o cara do sexto andar do bloco F.
Num carnaval, a polícia atacou foliões com gás de pimenta e bombas de efeito moral, porque o prefeito da quadra incomodava-se com o barulho e com as pessoas que urinavam em seu jardim.
O carnaval, senhoras e senhores, festa urbana no mundo inteiro, dura apenas quatro dias, mas em Brasília isso é tempo demais, é gente alegre demais, é festa demais, por que essa gente não vai pra casa estudar para um concurso?
Agora, a polícia ataca jovens que tocavam violão na praça da 410 norte.
Quando era criança ouvia na escola a canção do Pai Francisco, aquele que entrou na roda tocando seu violão, quando veio de lá o seo delegado e levou o Pai Francisco para a prisão, e lá o espancou.
A Lei do Silêncio é uma estrondosa aberração social.
Porque ela cala a cidade, sufoca a voz de seus artistas, destrói a cadeia produtiva da cultura e cria uma cidade fantasma, uma cidade dormitório, uma cidade onde concurseiros estudam e concursados roncam.
Sem música, alguns bares estão fechando suas portas. Os teatros e casas de espetáculos estão sucateados.
No Distrito Federal não há palcos.
A caretice é tanta que até o governador não se importa em destruir a indústria cultural da cidade.
Já tivemos arte por toda a parte.
Enquanto Brasília deu as cartas no rock nacional nos anos 80, nos anos 90 foi a periferia que mudou a cena do rap nacional.
Hoje qualquer artista que tente cantar, encenar, tocar ou recitar qualquer verso depois das dez da noite pode acabar como o Pai Francisco.
Não, senhoras e senhores, eles não vão nos calar.
Artistas do DF inteiro, uni-vos.
Se você é atua, canta, dança, toca, pinta e borda e gosta de tudo isso junto e misturado, junte-se a nós no ato multiartes.
Vamos fazer barulho para que ouçam a nossa voz e respeitem o nosso direito de sermos artistas.
Vamos ocupar os espaços culturais abandonados e promover saraus temáticos e multiartes.
Vamos enfrentá-los com o nosso talento e a força da nossa arte.
Nunca nos calarão.
100 palcos é o que queremos.