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Manifestos da negritude

Manifestos da negritude

Inspirada na radicalidade da Constituição do Haiti, exposição reúne geração que está amadurecendo a discussão sobre questões raciais no Brasil

Por Paula Alzugaray Do IstoÉ

Agora somos todxs negrxs?, Galpão VB, SP/ até 16/12

Na semana em que a ONU termina sua missão de 13 anos para a estabilização no Haiti, deixando o povo haitiano em situação socioeconômica ainda pior do que encontrou em 2004, uma exposição abre em São Paulo trazendo a memória de um Haiti pioneiro e promissor. Em cartaz no Galpão VB, “Agora somos todxs negrxs?” evoca em seu título o Artigo 14 da Constituição Haitiana de 1805, escrita a partir da única rebelião negra a tomar o poder na América. Com curadoria do artista Daniel Lima, a mostra reúne uma geração que expressa o amadurecimento da discussão sobre as questões raciais no Brasil e nas Américas, e também o cruzamento com o debate sobre identidade de gênero e transgênero.

NARRATIVAS DA RESISTÊNCIA
Fotografias da série “Aceita?”, de Moisés Patricio (galeria de imagens), e “O Sonho do Garoto ou o Atleta do Kichute”, de Sidney Amaral (abaixo da galeria)

Contrariamente aos outros movimentos de independência nas Américas, a Revolução Haitiana foi resultante de uma insurreição de escravos. A partir dela, surge uma das mais radicais e igualitárias constituições do Novo Mundo, que não apenas abole a escravatura, mas instaura a liberdade de cultos africanos e interdita a nobreza. A partir da Constituição de 1805, todos os cidadãos haitianos seriam conhecidos pela denominação de negros. “Poderíamos dizer que, na história da arte contemporânea brasileira, quase todas as exposições tacitamente se autonomearam ‘Sempre fomos todos brancos’ – porque a presença negra no ambiente da arte contemporânea aqui sempre foi uma exceção”, afirma Daniel Lima no statement da exposição.

A mostra reúne trabalhos de 15 artistas, em sua maioria nascidos nas últimas décadas do século 20, e algumas grandes revelações. Como Zózimo Bulbul (1937-2013), ator, cineasta, produtor e roteirista carioca, notório por ter se tornado o primeiro negro a protagonizar uma novela brasileira – “Vidas em Conflito”, na TV Excelsior, em 1969 –, nesta exposição revelado como cineasta experimental com a obra “Alma no Olho” (1973). O curta, dedicado à vida e arte de John Coltrane, é um libelo à liberdade e coloca Bulbul na história da arte contemporânea ao lado dos artistas pioneiros da experimentação audiovisual, como Anna Bella Geiger e Antonio Dias.

Outro ponto de inflexão da mostra é o conjunto de 12 obras de Sidney Amaral, jovem artista que morreu de câncer este ano, em momento de ascensão da carreira. Em desenhos, pinturas e esculturas, Amaral usa a inépcia diante de obstáculos instransponíveis como “emoção disparadora” de processos artísticos, segundo análise do jornalista Nabor Jr., autor de artigo sobre o artista na revista seLecT 36.

Para embasar os discursos contundentes que compõem “Agora somos todxs negrxs?”, Daniel Lima, integrante do coletivo Frente 3 de Fevereiro, inicia seu discurso curatorial com um ponto exclamação: a performance “O Samba do Crioulo Doido” (2004/2013), do bailarino Luiz de Abreu. Vencedora do grande prêmio do 18º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, em 2013, a obra encena com deboche e criticismo os estereótipos da sensualidade negra e da discriminação racial no Brasil.

Paralela ao 20º Festival Sesc_Videobrasil, que acontece de outubro a janeiro no Sesc Pompeia, a exposição estabelece um canal de diálogo com o festival, que este ano aprofunda sua reflexão sobre as relações entre Brasil, África e Portugal.

Ambiente plural na ArtRio

ArtRio, Marina da Glória, RJ/ de 14/9 a 17/9

Esta semana, a ArtRio inicia nova fase em novo endereço, a Marina da Glória. Entre as novidades da sétima edição da feira internacional do Rio de Janeiro está o Espaço Transversal, uma sala multiuso que, além de local de debates, oferece espaço de convivência, mostra de vídeos e estúdio de gravação de entrevistas, realizadas pelo canal Curta!

A discussão sobre questões raciais no Brasil, promovida pelo Videobrasil em São Paulo (ler “Manifestos da Negritude”), terá reflexos na baía da Guanabara na mesa de debates “Não Te Esqueças Nunca Que Eu Venho Dos Trópicos”, com a participação de Solange Farkas, diretora do Videobrasil, o artista visual Arjan Martins (foto) e a curadora Marta Mestre. Os três profissionais foram convidados pela revista seLecT – curadora das “Conversas ArtRio 2017” – a debater o presente e o passado da produção artística brasileira em relação às suas origens indígena e afro-brasileira.

O programa “Conversas ArtRio” reúne um time importante de agentes do mundo da arte como Jochen Volz, curador da 32ª Bienal e da Pinacoteca do Estado de São Paulo; José Olympio Pereira, colecionador de arte e presidente do Credit Suisse no Brasil; e Ana Letícia Fialho, da Secretaria de Economia da Cultura, no MinC.

O Espaço Transversal recebe ainda a mostra “Áfricas Utópicas”, uma seleção de obras do acervo Videobrasil, com participação de Ayrson Heráclito e do coletivo Frente 3 de Fevereiro, entre outros. O vídeo é também a linguagem escolhida por Bernardo José de Souza, curador residente da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, para a mostra MIRA, ao ar livre.

Outro projeto, o “SOLO”, tem curadoria da norte-americana Kelly Taxter, curadora assistente do Jewish Museum de Nova York. O programa terá cerca de 20 obras e vai trazer um questionamento sobre a liberdade da cultura pop na arte contemporânea frente à diversidade das expressões culturais no mundo globalizado. PA

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