sexta-feira, dezembro 9, 2022
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Mano Eloy: Trabalhador, macumbeiro e pioneiro das escolas de samba cariocas

Quando pensamos em escolas de samba no Rio de Janeiro estamos falando de uma produção cultural negra construída no processo que envolve ritmos, danças e diferentes movimentos sociais forjados nas relações entre mulheres e homens em diáspora. Nos encontros entre indivíduos, uma geografia de lugares e personagens que não renunciaram ao seu direito ao lazer, foi se delineando a história do carnaval, do samba de Mano Eloy e das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Surgidas no final da década de 1920, as escolas de samba do Rio de Janeiro são lugares de memórias de saberes ancestrais negros. O que estou chamando de saberes ancestrais negros é todo um arcabouço cultural produzido na diáspora dos povos africanos, que nos processos de resistir, negociar e ressignificar, deram origem a saberes que fundamentam a cultura dos povos negros no Atlântico. É a história de famílias negras que promoveram nos quintais de suas casas lazeres que deram origem às escolas de samba cariocas – são os Sambistas com S maiúsculo –, mulheres e homens negros que participaram ativamente da construção cultural urbana do Rio de Janeiro.

O uso do conceito Sambista de maneira ampliada se refere às práticas e saberes diaspóricos irradiados pelos ritmos, experiências sociais e culturais negras, em um movimento que se propõe a valorizar os saberes originados pelo samba. Proponho uma perspectiva plural de compreensão dos Sambistas e do samba como possuidores de historicidades amplamente baseadas em saberes ancestrais. Com inspiração na filosofia representada pela ave Sankofa, que voa para frente com sua face voltada para trás, carregando em seu bico o ovo do futuro, para reivindicar as potências fundamentadas em raízes ancestrais que circunscrevem o conceito Sambista. A palavra Sankofa, que na verdade tem dois símbolos que a representam, um pássaro mítico e um coração estilizado, simboliza a volta para adquirir conhecimento do passado, a sabedoria e a busca da herança cultural dos antepassados para construir um futuro melhor. 

O conceito Sambistas está carregado de significados que contemplam as potências de pessoas que participaram dos processos de constituição dos ritmos e os movimentos sociais que originaram o samba e as escolas de samba. São Sambistas Pioneiras(os) e/ou Dirigentes, Sambistas ritmistas/compositoras(es), Sambistas que partilharam vivências, no samba e nas escolas de samba, emprestando seus corpos e saberes para a composição do ritmo. 

As memórias que giram em torno do samba e das escolas de samba estão repletas de personagens. Eloy Anthero Dias, líder sindical portuário, migrante do Vale do Paraíba, é um dos exemplos de homens que estiveram atravessados pelas formas de ser negro no Rio de Janeiro. Tecendo relações de trabalho, religiosidade, sociabilidades e agenciamentos políticos para si e para a coletividade, foi um dos personagens que esteve presente na construção de espaços como o do trabalho no porto, do Jongo, da Macumba e das escolas de samba. Sua trajetória como Sambista Pioneiro faz parte dos processos de Escrevivências de ser negro, na construção de enunciações de si e para suas comunidades. Promovendo a reversão de estereótipos por meio das relações entre sujeitos e suas experiências quanto construções narrativas que dão credibilidade ao ser.  

Eloy Anthero Dias fumando charuto. Fonte: Acervo Pessoal Rachel Valença. Sem autoria. S/D. Consultado em outubro de 2018

Morador de Dona Clara, no subúrbio do Rio de Janeiro, Mano Eloy, como era conhecido, chegou à cidade por volta de 1904, entre 15 e 16 anos de idade. Foi de baleiro no campo de Santana a presidente do Sindicato da Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, de 1947 a 1950. 

O Sindicato da Resistência, fundado em 1905, remonta à tradição de controle da mão de obra por homens negros, que os faz reivindicar, ainda hoje, a denominação de Companhia dos Homens Pretos. Segundo Cecilia Velascos e Cruz, o trabalho portuário do Rio de Janeiro é herdeiro das organizações das tropas de trabalhadores ao ganho, o que garantiu características próprias para a região, assim como as memórias de homens negros em organizar-se para o trabalho. Dentre dessas características está a forte presença nos lazeres locais, – não é de surpreender que a história do samba do Rio de Janeiro tenha sido reivindicada para essa região -, que foi denominada por Heitor dos Prazeres como a Pequena África. Dizendo muito mais sobre o circular de mulheres e homens negros colocando-se no espaço político, do que por ser um lugar onde só havia pessoas africanas. 

Das relações portuárias aos diferentes pontos da geografia da cidade encontramos rastros da passagem de Mano Eloy. Para citar um exemplo, no morro da Mangueira temos o já célebre episódio narrado pelo compositor Carlos Cachaça sobre ter ouvido pela primeira vez um ritmo que se aproximaria com o que entendia como samba.  Foi após a macumba na casa da matriarca mangueirense Tia Fé, que ele teria testemunhado o ogan, jongueiro e partideiro Eloy Anthero Dias tocar o samba.  Segundo Carlos, quando terminava a festa religiosa em homenagem a algum santo, fazia-se o samba e, quem comandava era Mano Eloy e o pessoal de Dona Clara, “reduto dos maiores valentes, macumbeiros e batuqueiros”. 

As afirmações de Carlos Cachaça apontam para algumas questões sobre os espaços aparentemente díspares, como o da religiosidade e o do samba, mas que se apresentam de maneira justaposta. No espaço onde se produzia religiosidade, produziam-se outras práticas culturais intimamente ligadas à bagagem cultural da diáspora africana. Na casa de Tia Fé funcionava o terreiro e era a sede do Rancho Pérolas do Egito, um dos primeiros da região a ter licença da polícia para funcionar e desfilar. Uma estratégia identificada por Eric Brasil na Primeira República é o que acontecia no terreiro do influente líder religioso da região portuária do Rio de Janeiro, João Alabá. Lá funcionava a sede da Liga África, o que garantia ao grupo um lugar legalizado para diferentes formas de encontros. 

A presença de Mano Eloy na casa de Tia Fé, na qual havia a confluência de manifestações culturais de matriz africana, bases para o que se entendeu como cultura urbana no Rio de Janeiro, marca aspectos da sua influência e participação nesses ambientes. Estamos falando de um jovem Eloy, trabalhador sindicalizado do porto do Rio de Janeiro, frequentador de diferentes espaços culturais da geografia da capital carioca, berços do samba e das escolas de samba na cidade.  

Carregando em sua bagagem saberes e estratégias adquiridos nas experiências cotidianas atravessadas pelo trabalho portuário e as manifestações religiosas e culturais, Mano Eloy como Sambista Pioneiro, foi fundador e incentivador da formação de escolas de samba. São exemplos a Deixa Malhar no Largo da Segunda-Feira, na década de 1930, o Império Serrano no morro da Serrinha, em 1947 – escola de samba que foi ativo até seus últimos dias. Além de instituições que aglutinaram as reivindicações desse modelo de carnaval, como a União das Escolas de Samba (UES) e Federação das Escolas de Samba (FES). Foi um dos personagens que enxergaram no samba e nas escolas de samba, meios de “tirar o negro do local da informalidade”, uma vez que para funcionar as manifestações de lazer deveriam solicitar licença na polícia. Assim, como nos Ranchos da Primeira República a estratégia foi adotada pela nova modalidade de brincar o carnaval nas ruas do Rio de Janeiro. Era uma forma de burlar perseguições, existir como instituição, agenciar seus lazeres, ocupar o espaço das ruas e criar imagens positivadas sobre si e suas manifestações culturais, ou seja, sair do lugar de informalidade. 

Nos encontros, na partilha de vivências e experiências é que a população negra resistiu, negociou e ressignificou seus saberes. Sem, no entanto, renunciar ao seu direito ao lazer. Das experiências construídas nos cotidianos atravessados por diferentes manifestações culturais, profanas ou religiosas é que as escolas de samba surgem no final de 1920.

Assista ao vídeo da historiadora Alessandra Tavares no Acervo Cultne sobre este artigo: 

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Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC):

Ensino Fundamental: EF08HI20 (8º ano: Identificar e relacionar aspectos das estruturas sociais da atualidade com os legados da escravidão no Brasil e discutir a importância de ações afirmativas.); EF09HI03 (9º ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados.) EF09HI04 (9º ano: Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social do Brasil.)

Ensino Médio: EM13CHS601 (Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo as quilombolas) no Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país.)


Alessandra Tavares
Doutora em História pela
UFRuralRJ/SEEDUC
Email: [email protected]
Instagram: alessandra.tavares.779

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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