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“Manter sanidade num país racista é cruel”, diz Naruna Costa, de Irmandade

Há poucas semanas, os milhares de passageiros do metrô de São Paulo têm se deparado com propagandas gigantescas com o rosto expressivo e atento da advogada Cristina, a personagem principal da série Irmandade, da Netflix. Quem empresta a pele à protagonista é Naruna Costa, atriz, diretora, cantora e compositora que, aos 36 anos, acumula mais de uma década de experiências nos palcos. Ainda que sem o alarde dos outdoors, ela nem de longe passou batido do público, principalmente nas periferias da cidade.

Por Monise Cardoso, Do Universa 

Naruna Costa e Seu Jorge em cena em Irmandade
Naruna Costa e Seu Jorge em cena em Irmandade. Na série, eles são irmãos. Cristina é advogada e ele, Edson, líder de organização criminosa (Foto: Aline Arruda/Netflix)

Antes da série, a arte de Naruna viralizou nas redes sociais com um vídeo em que ela aparece interpretando “O Conto da Paz”, de Marcelino Freire, durante a peça de teatro “Hospital da Gente”. Nele, a atriz concede a sua potência para a figura central do texto, uma mulher que perdeu o filho para a violência policial. Impossível não se emocionar.

Nascida e criada na periferia do município de Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo, Naruna conheceu o teatro na escola durante a adolescência. Foi quando soube que dançar, cantar e atuar – coisas que ela adorava fazer em casa desde criança – poderiam acontecer juntas. Na infância, a atriz conta que a família não tinha acesso a museus, festivais ou peças, mas Naruna cresceu rodeada da cultura de seus ancestrais graças ao pai mineiro e à mãe alagoana. “As minhas referências de música vêm do meu pai, que vivia cantando os reisados tradicionais e a minha mãe me trouxe muito do Nordeste, a sonoridade das cantadeiras”, lembra.

Após ingressar na faculdade de artes dramáticas da USP, em 2005, Naruna fez parte da fundação do Grupo Espaço Clariô de Teatro, coletivo de artistas do Taboão da Serra engajado no movimento cultural e político periférico. Foi neste espaço que nasceu o Clarianas, trio musical formado por Naloana Lima, Martinha Soares e Naruna. O conjunto se propõe a investigar a ancestralidade das vozes femininas na música popular brasileira.

Trio musical Clarianas: Naruna Costa com as parceiras Martinha Soares e Naloana Lima - todas mulheres negras, vestindo roupas coloridas
Trio musical Clarianas: Naruna Costa com as parceiras Martinha Soares e Naloana Lima na capa do novo CD Quebra Quebranto (Foto: Imagem retirada do site Universa)

Ano passado, Naruna foi a primeira mulher negra a vencer o prêmio de melhor direção teatral da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), este ano ao mesmo tempo em que protagoniza ao lado do cantor e ator Seu Jorge, a atriz também lança o novo álbum do Clarianas, em um show que acontece no dia 22 de novembro, no Sesc Pompéia, com participação especial do bloco percussivo  de  Ilu Obá de Min, as cantoras Dani Nega, de hip hop, e a moçambicana Lenna Bahule.

A seguir, Naruna fala sobre como é transitar entre a arte que é feita dos dois lados da ponte.

MULHERIAS: Como é o deslocamento entre as produções da periferia e as de proporções gigantescas, com recursos infindáveis, que são exibidas pra mais de 40 países?

NARUNA: É uma experiência muito rica e que me permite criar novos argumentos sobretudo para o meu trabalho, que é um trabalho político. Quando eu estou em uma reunião do Clariô ou numa intervenção dentro de uma comunidade, por exemplo, eu consigo trazer informação que colhi na minha experiência na Netflix. Ao mesmo tempo, levo o que rola na periferia para uma sala de roteiro de Irmandade e faço com que aquelas pessoas saibam e discutam pontos que talvez elas não observassem antes.

M: Irmandade fala sobre a dureza do sistema prisional do Brasil em um momento em que a discussão sobre encarceramento em massa está crescente.  Como foi se aproximar dessa realidade?

É o tipo de obra em que a gente quer estar envolvida pela importância que tem, por outro lado, revisitar esses lugares, reconhecer como o país é estruturalmente racista e ver como a população negra sofre as consequências disso é muito cruel. Manter a sanidade é um desafio. Mas a gente entende que é sobre nós. O fato de nunca ter sido presa não me tira a dor, porque eu sei que essa faceta do racismo está direcionada a mim e à minha geografia. Revisito muitos momentos da minha vida na periferia e lembro de muita gente, mas também tenho orgulho de falar disso e colocar na roda pra que todo mundo sinta e debata.

MULHERIAS: Como você vê enxerga a efervescência artísticas que cada vez mais cresce nas periferias de São Paulo?

Há uns bons 15 anos a gente tem vivido essa efervescência, né? Tem aí algumas sementes plantadas pelo governo Lula que estimularam a criação de pontos de cultura onde pipocaram os saraus, os espaços de teatro e a inserção da juventude periférica em locais que até então elas não frequentavam, como as universidades. Tudo isso serviu de combustível para desembocar num movimento um pouco melhor de cultura, mas que ainda está bem longe do cenário ideal que podemos alcançar com a criação de políticas públicas.

M: Você se formou na faculdade de artes dramáticas da USP. Como esse espaço de arte acadêmica recebeu a sua chegada?

Todos os espaços não frequentados por pessoas negras são abalados com a nossa chegada, por si só, já somos um comentário. Mas o que que a gente faz com isso também é essencial para definir a recepção. Penso que a USP me recebeu da mesma forma que recebe todos os estudantes não brancos que ocupam aquele espaço, nossa presença e nossa voz faz aumentar ou brotar uma discussão importante que antes era silenciada.

M: Você fala da “sevirologia”, a arte de “se virar”, que é uma das grandes tecnologias da quebrada, de que maneira essa vivência periférica te ajudou a construir a sua carreira?

Ajuda a gente a estar vivo, né? É uma malandragem que ajuda a desviar da bala que tá direcionada pra população preta e pobre. Quem é periférico consegue se adaptar às piores condições, então, em um ambiente com condições minimamente favoráveis, nós avançamos.

Eu consegui atravessar outras fronteiras e me comunicar com outras geografias e essa é uma maneira de ficar viva.

Naruna durante uma apresentação
“Quando alugamos um teatro na periferia invertemos a lógica de consumo para que as pessoas do centro se deslocassem até a nós” (Foto: Reprodução Facebook)

M: Em 61 anos de APCA, você foi a primeira mulher negra a ganhar o prêmio de melhor direção. O que essa premiação representa para você e para o teatro?

É uma tristeza saber que em tanto tempo, só hoje houve a estreia de uma mulher negra. Mas, essa vitória também é bastante representativa neste ano duro que estamos vivendo e vem como uma referência e um estímulo para jovens negros que querem dirigir. Isso me dá muita alegria.

M: Pode explicar um pouco mais sobre o teatro Espaço Clariô? Em que momento ele nasce e qual o papel social dele?

O Clariô nasce em 2005 de uma reunião de artistas do Taboão da Serra. A gente decidiu se juntar e fazer um espaço onde pudéssemos debater as questões da periferia e dos artistas daquele território, e possivelmente uma nova dramaturgia. Quando alugamos o espaço e começamos a discutir o que poderíamos levantar como montagem, resolvemos que ao em vez de procurar espaços na capital de São Paulo para exibir nossas produções, íamos inverter a lógica de consumo e fazer com que as pessoas do centro se deslocassem até a nossa periferia.

Na peça “Hospital de Gente”, de 2008, sete atrizes rasgavam as palavras do poeta Marcelino Freire dentro de uma favela construída no teatro Clariô. O cenário estabelecia relação direta do público com o beco, o barraco, a roupa com água e sabão e as mulheres que contavam e cantavam o país que a TV não mostra (Foto: Imagem retirada do site Universa)

M: E o grupo Clarianas?

Em 2008 o Clariô estreou o espetáculo “Hospital de Gente” baseado nos contos de Marcelino Freire sobre as mulheres das periferias do país. A peça é encenada inteiramente por atrizes da periferia. Com isso, nasce uma pesquisa sonora feita com as nossas mães, avós, nossas ancestrais, e daí vimos que era um trabalho com muito potencial pra se expandir. Foi quando, em 2012, resolvemos começar o [grupo musical] Clarianas e lançamos nosso primeiro disco, o Girandeira.

M: Nas apresentações do Clarianas, fica evidente que sua voz traz beleza e também dor. De onde vem a inspiração para esse canto?

O Clarianas traduz um tipo de luta que eu acredito: o lugar da voz da mulher ainda é frágil. É um lugar que a gente está tentando conquistar há muito tempo e que ainda não é garantido, estamos em luta. Então, é maravilhoso traduzir essas dores e essas alegrias através da voz e de um canto que traz na memória brasilidade e ancestralidade. A história do nosso povo é a história de um Brasil que a mídia não quer contar. Não tem como falar da história das lavadeiras e das cantadeiras sem falar de dor e de alegria ao mesmo tempo.

Eu tento trazer esses dois sentimentos de maneira muito forte, porque ser uma mulher sertaneja, preta, indígena, ribeirinha num pais como nosso é falar sobre dor, força e alegria.

M: O Sarau Cooperifa, o Sarau do Binho e a Agência Solano Trindade são espaços de resistência artística nas quebradas, né? Qual a sua ligação com esses lugares?

São espaços de tradição de poesia, de música e de cultura nas periferias. São pilares fundamentais para a juventude. O Sarau do Binho atualmente acontece toda segunda-feira no Espaço Clariô e é interessante observar que quando ele sai do espaço popular que é o bar, onde nascem muitos dos saraus, e vai pro teatro, ganha uma configuração mais artística em termos de estética. Surge a possibilidade de jogo de luzes e de outros elementos que complementam a poesia.

M: O que você pensa sobre se tornar uma referência para a periferia e ser uma figura de representatividade para mulheres que convivem contigo?

Muita gente passou a se comunicar comigo por conta da cena de “Hospital de Gente” que viralizou em 2013. [O vídeo com “O Conto da Paz” é desta peça]. Lembro de receber mensagens de pessoas falando que se viram inspiradas a escrever e atuar. Agora com a série Irmandade quem procura descobrir quem eu sou tem uma referência para saber que além de ser uma atriz negra que alcançou um espaço de poder, eu sou uma atriz negra diretamente envolvida com o movimento de cultura periférica, feminista e de negritude.

M: Você recebe mensagens?

Tenho, sim, recebido muitas, de mulheres orgulhosas. Mas essa representatividade não se trata só de visibilidade, ela tem um lugar de consistência política. E eu também não me iludo, sei que essa fama toda tem um tempo de vida e, como pessoas negras não têm espaços consolidados, esse tempo pode ser bastante curto. A luta por reconhecimento precisa ser constante.

M: Qual mulher periférica te inspira?

Acho que uma das coisas mais maravilhosas do movimento de cultura periférica é a gente poder admirar quem tá nosso lado. Ter um espaço como o Clariô onde podemos ver nascer artistas e pessoas brilhantes é um privilégio. A Martinha Soares e Naloana Lima [do Clarianas] são pessoas que eu admiro muito. A Martinha pra mim é uma das melhores atrizes do Brasil. A [cantora de rap] Dani Nega, por exemplo, que também é da quebrada e tem composições muito maravilhosas, me inspira imensamente. A Bia Ferreira é uma compositora jovem e maravilhosa. A Suzi Soares, produtora do Sarau do Binho é uma mulher que consegue produzir coisas grandiosas como a a FELIZS [Feira de Literatura da Zona Sul] que é uma das maiores feiras literárias de São Paulo. Enfim, são pessoas que têm histórias de vida, de construções poéticas e políticas que eu quero sempre ter por perto.

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