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Narrativa confessional: exercício de autoconhecimento como ato político

Escrever uma narrativa confessional¹ é um exercício de autoconhecimento que potencializa a consciência de que esse é ato político cuja finalidade é compartilhar e promover valiosos encontros de histórias e experiências.

Por Iara Aparecida Silva de Oliveira, enviado para o enviado para o Portal Geledés 

 

 

É elemento chave dessa narrativa a representação dos livros na história de duas gerações de mulheres negras. Para uma, eles (os livros) representaram o sonho não realizado e para outra, a concretização da mudança de paradigma. Aqui os livros simbolizam o acesso negado e a chave que abre portas para o conhecimento. Os livros também representam comunicação e o acesso às gerações que ousam e ousaram questionar a história e a produção epistemológica dominante. Gerações que corajosamente alçaram e continuam alçando voos para a luta pela liberdade vislumbrando um novo horizonte em que negros e negras ocuparão massivamente todos os espaços que lhe proporcionem conhecimento, equidade e poder. 

Portanto, o presente texto é um exercício do encontro da mulher negra com sua história, suas raízes e um ato político de construção e contribuição para o futuro. Este é sim um ato de afirmação de identidade! Parece muito pretencioso querer falar de si, quando não se é uma personalidade pública, quando se tem uma história relativamente comum a tantas mulheres negras. No entanto, pensar na própria história é também um exercício de pensar a inserção das mulheres negras em uma sociedade patriarcal, racista e machista e em sua luta contra esse sistema de opressão que subjuga essas mulheres! É aprender investigando a própria vida e inserindo-a no contexto dessa sociedade. 

É mediante essa perspectiva que muito tardiamente comecei a mergulhar no universo feminista negro e sinto um grande júbilo em gozar dessa descoberta, embora, sem conscientemente saber, esse tema tenha constituído a minha existência. Estamos vivendo novos tempos que nos torna ao mesmo tempo objeto e protagonista de uma relação simbiótica de opressão e resistência. Essa simbiose é a alavanca que impulsiona o nosso desejo, a nossa paixão e nossa ação para existir e resistir.

Nesse cenário encontro como estratégia desenvolver o olhar sobre mim para que, só assim seja possível mergulhar nesse mundo que passei a enxergar diferente e compreender que o olhar é sobre nós.

Embora saiba que as nossas vivências e experiências transformam nosso olhar, continuo me indagando porque demorei tanto para desenvolver uma visão crítica sobre a minha negritude? Pois bem, a resposta para esta indagação, imagino que esteja na minha trajetória.

Fui criada somente por minha mãe guerreira, como tantas outras crianças. Estudei em escola pública e sempre fui uma boa aluna. Orgulho-me até hoje de nunca ter tirado notas baixas. Sonhava em fazer duas faculdades e dizia que jamais dependeria de “homem”. Será que aqui já dava sinais de uma consciência feminista?

Certa vez minha mãe me contou que deixou de estudar porque não tinha dinheiro para comprar livros e que o seu professor disse que sem livro não dava para frequentar a aula. Pergunto-me sobre quem era esse professor e qual o legado que deixou em sua profissão? Nesta mesma conversa, minha mãe falou que sonhava em ser uma “doutora” e fazer a faculdade de Direito. Talvez pela sua história, pelo seu tempo, pela falta de incentivo e por tudo o que a mulher negra representava na década de 70, minha mãe conseguiu chegar somente até a 7º série, hoje ensino fundamental. 

Quando cheguei ao mundo ela tinha apenas 19 anos. Em seu parto no Amparo Maternal (local destinado às “mães solteiras” que tinham filha/os), depois de um parto fórceps muito difícil foi indagada pela enfermeira se gostaria de dar a sua filha, ao que minha mãe respondeu: “minha filha não é cachorro, tem mãe e vou cria-la”. 

Tive uma infância feliz e de muito amor, não obstante as dificuldades que minha mãe passou para me criar. Ela exerceu o ofício de uma boa costureira, fazia belas tranças enraizadas, vendeu revistas e plano de saúde, em uma solitária caminhada na busca por nossa sobrevivência. 

Entre tantas boas lembranças, uma memória importante que tenho é a da estante de livros. Na década de 80 havia vendedores de porta a porta e foi dessa forma que minha mãe comprou enciclopédia, livros de inglês, dicionário, atlas, coleção de livros de histórias infantis, entre outros. Até Shakespeare tinha! Além de comprar ela não se furtava a receber doações de livros. 

Ter uma estante de livros, em uma circunstância de pobreza e de baixa escolaridade me leva a crer que a frustração de ter deixado de ir à escola por não ter dinheiro para comprar livros simbolizava, para ela, o resgate de sua formação escolar/ profissional inacabada e tão sonhada. Fiz muitos trabalhos escolares com livros adquiridos por minha mãe! Esta semente que ela plantou definiu meus caminhos e minhas escolhas.

Analisando minha infância e minha trajetória, compreendo que, embora minha mãe não tivesse conseguido concluir nem sequer o ensino fundamental, depositou em mim a esperança dos seus sonhos não realizados. Fazia um grande esforço para que eu tivesse um destino diferente. Colocou-me na melhor escola pública possível e apertava o parco orçamento para pagar a passagem de ônibus, além de me colocar em cursos que ajudassem na profissionalização. Vale ressaltar que nesta época as mulheres não tinham amparo legal para obrigar aos pais a registrarem seus filhos, portanto, não tenho o nome do meu pai e nunca recebi pensão de alimentos. 

Nesta história é possível identificar as diversas violências cometidas contra a mulher negra, tais como: estigmatizar a mulher para ter bebês em hospital destinado às “mães solteiras” e cogitar a possibilidade de doação de uma criança; a ausência ainda hoje da responsabilidade paterna no que diz respeito aos cuidados e educação dos filhos; a violência do Estado quando limita o acesso à educação à condição econômica; entre tantas outras violências. Tal realidade vai se reconfigurando com o tempo e as violências tomando novas faces. Hoje já está pacificada pela lei, por exemplo, a obrigação do genitor indicado pela mulher a realizar exame de DNA e efetivar a paternidade legal e suas responsabilidades. Ainda que muitos não exerçam a paternidade afetiva, pelo menos, tem o dever legal de assumir a obrigação de ofertar alimentos. Contudo, as mulheres que são compelidas a assumirem sozinhas a maternidade continuam submetidas a julgamentos preconceituosos de uma sociedade notadamente machista, racista e patriarcal.

Quando saí do antigo ginásio, atualmente nomeado ensino fundamental, tentei entrar na ETE hoje ETEC, mas infelizmente não passei. Cabe lembrar que apesar de ser uma boa aluna, o ensino público era como ainda continua sendo muito deficitário. Realizei o colégio, hoje ensino médio no curso Técnico de Processamento de Dados (imaginem fazer um curso como esse e não ter computador em casa?), não deu muito certo né? Nesta época eu tinha 15 anos e estudando à noite iniciei o meu primeiro emprego como recepcionista em um escritório de advocacia.

Esta passagem cabe uma reflexão, até os dias de hoje a condição da/o estudante da periferia é trabalhar e estudar. A família necessita que essa/e adolescente seja capaz de auxiliar financeiramente em casa. Dessa forma, ingressar no ensino superior continua para muitos sendo um sonho distante, e quando possível é permeado de muito esforço, diferente daqueles que tem o privilégio de dedicar-se exclusivamente aos estudos. Contudo, atualmente saudamos a importante conquista das cotas raciais, seus efeitos benéficos na inserção da/o negra/o na Universidade e os avanços sociais e políticos que essa ação afirmativa tem proporcionado.

Pois bem, embora nunca tenha parado de estudar ou deixado de tentar, naquele momento, o que eu tinha aprendido estava aquém das exigências para passar em uma faculdade pública. Resolvi fazer cursinho para tentar entrar no vestibular, foi quando eu percebi que apesar de ser uma aluna nota nove/dez eu não tinha aprendido o suficiente para concorrer com o privilégio de quem estudou em bons colégios. Só consegui fazer três meses de cursinho e não tive condições financeiras para continuar, mas é claro que não desisti e continuei estudando em casa. Prestei vestibular na FATEC, mais uma vez não consegui passar. 

Nesse momento, quando constatamos que as tentativas que fazemos não dão certo, sem trabalhar e sem estudar, questionarmos a nossa capacidade. Tal circunstância desafia a nossa autoestima e parece nos jogar no abismo do conformismo. Mas não podemos aceitar o lugar a que fomos historicamente destinada/os e não é opção deixarmos de vislumbrar nossos sonhos.

Em casa vivia o ambiente de uma família negra recebendo a influência da música negra (todas as gerações sabem dançar samba rock). Contudo, essa influência ainda não tinha expressão política para mim, pois aquele, na minha percepção, não era em um espaço questionador e crítico. Não me lembro de diálogos dentro do ambiente familiar que se referissem à opressão sofrida pelos negros. Imagino que a ausência desse diálogo fosse uma realidade muito comum nas famílias negras, já que sabemos que os mitos da miscigenação e da democracia racial, muito contribuíram para que a nossa identidade fosse apagada e nossas vozes fossem neutralizadas. Essa condição, muito provavelmente, afastavam as famílias negras da oportunidade do encontro com as militâncias negras e de construir um ambiente que permitissem o enfrentamento do racismo estrutural ao qual fomos e somos subjugada/os. 

Em uma recente conversa com um tio, quis saber um pouquinho da nossa ancestralidade e ele me disse que o bisavô dele era branco e que, portanto somos também descendentes de italianos, essa foi a única referência que ele considerou relevante sobre a história da nossa família. Problematizar essa questão com ele foi muito difícil, já que falou sobre sua ascendência branca com certo orgulho, mesmo sendo um negro retinto, e não sabendo em que condições ocorreram essa miscigenação. Tal diálogo me reportou à leitura do livro Olhares Negros: raça e representação de Bell Hooks que problematiza que “aprendemos a achar bonito aquilo que é o nosso oposto, pois projetamos no outro aquilo que negamos em nós mesmos”. Fomos ensinada/os a nos sentirmos inferiores e aprendemos que a referência de beleza é o padrão eurocêntrico. 

Ainda sobre as influências das raízes negras em minhas raízes negras, passei por uma fase em que rechacei a minha cultura negra, pois não gostava dos sambas e músicas que minha mãe ouvia. Destilei preconceito sobre as religiões de matriz africana, foram tempos em que a minha referência de beleza eram ”ídolos” como Axel Rose e Jon Bon Jovi, ou seja, passei por um período de negação da minha identidade.

 Contudo, raiz é raiz, não se deixa de ser mulher, negra e periférica. A cultura está no sangue, temos a marca da opressão, da falta e do precário acesso à educação, à moradia, ao lazer, ao esporte, sentimos toda ordem de expropriação. Então, nesse despertar nos encontramos. Migrei do Rock, que no Brasil não é exatamente uma referência de música popular negra, para o Hip-Hop, a Black Music americana, o Samba, o Carnaval e de todas as influências nacionais e internacionais da música negra. Além da música, mudei o meu modo de se ser, de me comportar, as minhas referências, os meus desejos e as minhas preferências agora pautadas na minha identidade racial.

Com o surgimento de um novo olhar sobre o nosso ser e estar social é que refletimos sobre a oportunidade do encontro crítico com a nossa negritude. Apesar de gostar de hip-hop e ser fã de Racionais, não desenvolvi a capacidade crítica sobre a questão racial e hoje, quando revisito suas músicas, entendo o que eles diziam e o quanto as suas letras, embora tivesse um recorte machista, depois de tantos anos ainda estão na vanguarda da cena musical e retratam tão bem o sistema de opressão que continuamos vivendo. A despeito de não ter militado na pauta racial e não ter conhecido o feminismo negro na adolescência, o trânsito pela cena cultural negra deixou raízes, cujos frutos sempre florescem. 

Em relação à Faculdade, já fale que desistir não era uma opção, o sonho se efetivou com ingresso aos 24 anos, quanto já havia perdido minha mãe com câncer de mama aos 42 anos. Morava sozinha, trabalhava como recepcionista e já namorava há sete anos. O custo da faculdade era equivalente ao salário. Para sobreviver, o vale refeição era convertido em dinheiro que custeava água e luz. O sustento era suprido por uma cesta básica e morava na casa do meu falecido avô. 

Entrar na faculdade é um importante passo para a mudança de paradigma, e no meu caso abriram leques de oportunidades, pois logo encontrei um emprego melhor que inclusive pagava auxílio educação. Foi dessa forma que concluí a faculdade de Serviço Social, fiz o curso de pós-graduação em Gestão Estratégica de Pessoas. Fui aprovada em quatro concursos públicos na minha área de formação, me graduei também na faculdade de Direito e atuo como Assistente Social em órgão público estadual. Essas conquistas prenunciam que além das vitórias individuais somos também chamadas às lutas coletivas. Compreendo que a caminhada é longa e que voltar para a Academia para cursar o Mestrado, é também um instrumento político de luta onde é possível concretizar a experiência de entrar em contato com a/os intelectuais negra/os que se engajam e produzem ricamente para subverter o discurso epistemológico dominante para assim beber na fonte e contribuir como agente transformação.

E por falar em discurso epistemológico, aproveito para reinserir os livros nesta conversa. É nesta fase atual que tenho o privilégio de acessar, por meio dos livros, a rica e extensa produção intelectual negra que oportuna o conhecimento da teoria crítica racial. Essa experiência permite compreender a dinâmica do racismo e suas intersecções expandindo nosso olhar e despertando a nossa atenção para as pautas atuais. Temos a oportunidade de acompanhar militâncias pelas redes sociais; acesso à informação sobre onde encontrar coletivos negros; divulgação de diversos encontros que dialogam sobre a luta política na temática racial; presenciamos a valorização de potências intelectuais nacionais e vemos multiplicar suas produções; tivemos o júbilo de receber a potência brilhante de Angela Davis no Brasil; enfim, estamos num momento revolucionário. Não obstante o infeliz retrocesso no cenário político atual, podemos presenciar um avanço crítico, que vem sendo construído desde há muito tempo, por uma militância aguerrida que acessavam com outros meios de comunicação e que hoje tem à disposição a celeridade da informação em tempo real. Somos beneficiada/os pela experiência e conhecimento acumulados de tantas irmãs e irmãos negros brilhantes. Estamos em um grande tempo de possibilidades e oportunidades de luta e transformação!

Somos frutos de gerações que não tiveram acesso à escola e que em um círculo vicioso vimos reproduzindo as condições objetivas de vida de nossos ancestrais, num clássico exemplo de racismo estrutural, cujo sistema de opressão usurpa dos negros e das negras a chance de alcançar posição de poder e, por conseguinte os mantêm subordinados à baixa escolaridade e à pobreza. Neste sentido, em referência às cotas raciais, há quem argumente que é uma forma de privilégio para negras e negros ou que se trata de discriminação contra brancos pobres, por exemplo. Contudo, estamos falando de política compensatória e de reparação para tantas pessoas que como tanta/os de nós, remam contra a maré e encontram correntezas revoltas que tentam minar nossos anseios por oportunidade de escolaridade, empregabilidade e livres de opressão. 

Podemos nos perguntar por que contar uma história que é comum a tantas famílias negras? Sou a primeira pessoa da família que concluiu o nível superior e plantei a semente para a mudança desse paradigma. Hoje trago outra perspectiva de vida e história para a minha filha.

A caminhada é longa, pois observo que quando converso com parentes sobre a escolaridade das gerações que sucederam a nossa, é comum dizerem que já acabaram os estudos com a conclusão do ensino médio e que estão procurando emprego. Para muitos não foi construído o desejo de realizar o ensino superior. O sentimento de incapacidade, de inferioridade e de ter aprendido que aquele lugar é suficiente ainda está presente, pois num Estado cuja estrutura é racista essa lógica prevalece. Mas neste cenário não me furto de falar sobre racismo com os meus familiares e hoje, diferente do que foi na minha adolescência, essa temática está fortemente presente nos diálogos da família. 

Cotidianamente são publicados indicadores dos mais diversos institutos de pesquisas cuja conclusão aponta que negros (pretos e pardos) morrem mais, tem menos escolaridade, tem menos emprego, as mulheres negras ganham menos e sofrem mais violência. Enfim, nos dados e na prática a população negra brasileira está mais vulnerável às mazelas dessa sociedade reprodutora de desigualdades cuja maioria pobre é negra porque estamos enredados em um país racista no qual as oportunidades não são as mesmas.

Para concluir, reafirmo que o encontro com os livros e a leitura da/os intelectuais negra/os e, são ao mesmo tempo um alento e uma estratégia de resistência. Além de indicar o quão é importante compreender a nossa história, permite criar capacidade crítica para questionar o lugar que nos foi imposto nesta sociedade; possibilita compartilhar afetos e experiências; fornecem instrumentos e estratégias para penetrarmos nas estruturas e ocuparmos posições de poder político e econômico. Todo esse arcabouço de informação e acesso ao conhecimento nos oportuna pautarmos temáticas transversais sobre gênero, raça, meio ambiente, genocídio negro, encarceramento em massa, violências contra minorias, política e tantas outras temáticas que afetam nossas vidas negras!!!

Lutando e somando forças somos mais potentes para penetrarmos nas estruturas!

O aprendizado é permanente e conhecimento é poder!

 


¹ Narrativa confessional é um termo usado por Bell Hooks cujo significado se assemelha à narrativa autobiográfica e traz sua definição no livro “Olhares Negro: raça e representação”. P. 125


 

Referência

Hooks, Bell. Olhares Negros: raça e representação. Tradução Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2019.

 

 

*Iara Aparecida Silva de Oliveira – Graduada em Direito e Serviço Social/ Assistente Social da Defensoria Pública


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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