Marias Negras Capazes

Ainda me inteirava do projeto e já sentia que tinha a ver comigo. Sou mulher, tenho uma personalidade afirmativa e sou portuguesa.

por Ana Tica via Guest Post para o Portal Geledés 

Partilho da mesma urgência em discutir a condição feminina, até porque, se para todas as mulheres é difícil suportar o machismo, imaginem o que é ser mulher e negra, logo ter de suportar o racismo também.

Lido com este flagelo desde criança. Sei o que é ser humilhada, desvalorizada, inferiorizada (inclusive por outras mulheres), apenas porque tenho uma cor de pele diferente.

Foi na escola, interagindo com outras crianças, que tomei contacto com esta realidade. Decorriam os anos 80 do século passado, eu tinha apenas dez anos de idade. Um pouco por todo o mundo, aclamava-se a libertação de Tata Mandiba. Numa tarde igual a tantas outras, enquanto aguardava o autocarro, uma colega, na impossibilidade de me chamar preta (pois já lhe havia prometido a devida punição física), dirigiu-me as seguintes palavras: “que venha o Apartheid”. Para vos ser franca, não percebi o significado, mas nos seus olhos de menina reconheci a repulsa e o desdém. Como nunca fui de levar desaforo para casa, certamente é-vos fácil imaginar o desfecho da história.

Repetidamente vi-me resumida a uma única pertença – África –  ainda que durante muito tempo, pouco ou nada soube sobre este lugar. Até que a dúvida se instalou em mim:

– Portuguesa, mas a minha cor da pele e a textura do meu cabelo não parecem ser as certas;

– Portuguesa, mas apesar da pertença única que me atribuem, a minha história e a herança dos meus antepassados não são tidos em conta, tão pouco nos currículos escolares;

Foi assim que, produzida por esta sociedade, passei a viver num estado permanente de ansiedade. Ignorava completamente que parte de mim se desumanizava, enquanto outra, nem sempre assertiva, nem sempre justa e nem sempre dona de si, crescia solta dentro de mim.

Hoje para além de ativista, também sou mãe (de uma menina). Procuro integrar na sua educação e na minha vida os valores expressos em ambas as lutas, anti-racista e feminista. Acredito no direito à diferença e na possibilidade desta ser vivida em igualdade.

Dedico este texto a todas as Marias Negras Capazes. Mulheres que, apesar de todos os grilhões, se impõem, lutam contra a opressão e não se deixam moldar pelo peso dos ismos.

Sistas, jamais deixem de sonhar, amar e querer.

Ana Tica

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