Masculinidade e a importância de investir também em causas masculinas

Hoje, quando falamos em “questões de gênero”, o empoderamento feminino é e a bola da vez. Há questões sérias que afetam predominantemente o sexo feminino, como abuso sexual, violência doméstica e abandono paterno, que precisam de políticas públicas e de investimento privado. Espaços de poder e decisão seguem sendo predominantemente masculinos no Brasil: na esfera pública, mulheres representam hoje 12% do Congresso Nacional, 10% do Senado e apenas um dos 27 governadores é mulher; já na esfera corporativa, apenas 14% dos CEOs são mulheres e 11% dos assentos em conselhos administrativos das grandes empresas é ocupado por uma pessoa do sexo feminino. Sem tirar luz da importante luta feminina por igualdade de oportunidades e das questões que afetam predominantemente as mulheres, precisamos ampliar a discussão e investir recursos nas questões masculinas.

Por Patricia Lobaccaro, do ECOA

Foto: nappy.co

Existe um componente masculino na extrema pobreza e vulnerabilidade. Em um artigo na revista Advancing Philanthropy, Susan Raymond fala que o setor filantrópico não está investindo em causas masculinas como deveria. A autora examina pesquisas recentes relacionadas a gênero e situação de extrema pobreza e, ao contrário do que pode se supor, a extrema pobreza nos EUA atualmente está relacionada ao gênero masculino, especialmente considerando questões raciais. As disparidades educacionais e salariais entre homens brancos e negros é maior do que as disparidades educacionais e salariais entre mulheres brancas e negras. Meninas negras que nasceram em situação de pobreza têm mais chances de conseguir emprego do que rapazes negros que cresceram em ambientes similares.

O livro Men Without Work – America’s Invisible Crisis aponta um número crescente de homens que não estão trabalhando nem procurando emprego, que a participação masculina no mercado de trabalho vem diminuindo e que as taxas de desemprego estão crescendo mais entre os homens. Tudo isso reflete muito além do impacto na renda familiar, gerando consequências sociais e comunitárias que tendem a crescer. No Brasil, 95% da população carcerária é masculina, portanto, os egressos do sistema prisional, com enormes desafios de reinserção socioeconômica após o cumprimento de penas, são majoritariamente homens. Além disso, mais de 90% da população em situação de rua também é do sexo masculino.

Isso não quer dizer que as questões femininas não sejam importantes, mas sim que no financiamento de políticas públicas e de projetos sociais deveria haver um foco igualitário entre os gêneros, o que não vem ocorrendo.

Uma questão que me chama muito a atenção é o abandono paterno. O Brasil tem 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai na sua certidão de nascimento. Nesse cenário, ao mesmo tempo em que é importante financiar projetos que reduzam o efeito desse abandono (apoiando mulheres que terão que gerar renda e cuidar dos filhos sozinhas), temos que trabalhar essa questão com homens e meninos no sentido de prevenir esse tipo de comportamento. Precisamos ter uma discussão mais profunda sobre masculinidade no terceiro setor.

Alguns projetos importantes focam nisso, como A Call To Men – líder em questões de masculinidade; a iniciativa da ONU He For She – que trabalha com homens em apoio à igualdade de gênero; e o Instituto FreeFree – que, além de trabalhar com meninas e mulheres, inclui os meninos na promoção de um mundo com menos abuso e violência. Destaco também o importante trabalho do Instituto ProMundo, que tem inúmeras iniciativas como a MenCare – que promove o envolvimento igualitário dos homens nas práticas de cuidado e de paternidade equitativa e não violenta. Contudo, no universo do financiamento de projetos, essas iniciativas são exceções no portfólio das fundações.

O setor social é o que promove inclusão, que precisa ser também de pautas. Se almejamos uma relação saudável entre os gêneros, precisamos abraçar todos os públicos e projetos de acordo.

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