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Mate o amor romântico antes que ele te mate: por outras insurgências do amar

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As nossas mártires, as nossas matriarcas, as nossas mais velhas carregaram em seus corpos negros a insuficiência da realização do amor romântico. A tradução desse lamento pode-se perceber pela hereditariedade trazida por nós, mulheres negras, que ainda insistimos (in)conscientemente na busca desse amor. 

A aspiração desse desejo imposto tem um caminho enraizado por conta das mediações do colonialismo patriarcal e a formação da sociedade capitalista. Normatizar os padrões do sentir, e hierarquizar socialmente os estágios da felicidade e realização pessoal, foram algumas maneiras de contagiar as pessoas com a ideologia da romantização do amor. 

Um amor substantivo, único e essencializado. Construído a partir de dispositivos de controle dos corpos e da mente a fim de designar ao outro a total responsabilidade do servir amor. Essa subserviência enquanto consubstancialidade de uma relação afetiva é a morte para os nossos povos pretos. 

Afinal, a construção histórica das nossas sociabilidades – desde as embarcações – foram (e ainda permanece) marcadas por variadas formas de cárceres. Os cativeiros vividos pelos nossos não foram somente de uma geofísica. Mas também de territórios delimitados por políticas de castração e violências simbólicas. 

Para as mulheres negras há uma maior notoriedade sobre esses aprisionamentos. Basta observarmos as pesquisas quantitativas sobre o estado civil da grande maioria das consideradas pardas e negras no Brasil. 

Somos nós a “destinadas” a solidão e a procriação. Esse amor substantivo não foi gozado pelas nossas mais velhas, pela minha avó, pela minha mãe. E nem por mim. No entanto, todas elas buscaram alcançar essa idealização amorosa. E sofreram muito por isso. Das humilhações às violências. Das subalternidades às carências. 

O resultado disso foi morte em vida. Elas morreram inúmeras vezes em que negaram a sua existência em detrimento do servir ao amor romântico. Por se designar totalmente a um jeito de amor em que o sofrimento é tido como o sinal de que é de fato um amor. Uma luta inglória, inalcançável e autodestrutiva. 

O amor romântico te mata na medida em que ele te aprisiona, te encarcera em uma relação unilateral de sentir. Em que o se doar é entregar o sentido da sua existência para a pessoa amada. E incumbir da obrigatoriedade de sua felicidade. Se isentar dos seus verdadeiros desejos para satisfazer a outra e reproduzir as imagens plásticas de um casal romântico.

Naturalizar e romantizar a dor e o sofrimento emocional em um relacionamento são os exemplos mais comum do discurso de alguém que vive um amor romântico. E essas dores de amores foram nutridas desde o cordão umbilical. Trazemos também na nossa ancestralidade essa falta, esse não preenchimento do amor. E tendemos a reproduzir em nossos ideais de realização pessoal. 

Eis, então, o desafio histórico de assumir a responsabilidade de romper com essa herança da miserabilidade afetiva. De matar o amor romântico que há em nós e protagonizar insurgências do amar.

Portanto, tornar o amor um verbo, cuja semântica seja de processo, ação, estado e flexão. Que surja na escrita da primeira pessoa que enuncie o amar a si mesmo – feito a rainha das águas doces, Oxum. E a partir disso flexione; conjugue o verbo amar em tempo, ação, pessoa, e modos diferentes de transmissão. 

Um amar que te levanta todos os dias para as batalhas da vida precária. Que recolhe em si múltiplas formas de manifestações. Um amar que prepara uma refeição saudável. Uma companhia que se dedica ao cultivo da amizade. Um amar que gera energia para as produções epistêmicas e diaspóricas. Que acolhe e aquilomba outra mulher negra. 

Um amar com dengo, (auto)cuidado e dororidade. Que te constrói por dentro, pois te leva ao seu autoconhecimento. Um amar que te devolve ao abebé (seu espelho) ancestral e potencializa as potencialidades que seu corpo negro é capaz de manifestar. 

O verbo amar não desequilibra seu orí (cabeça). Não te seca e te suga. Ele germina e floresce criatividade, inspiração, força, poesia e resistência. Esse amar se nutre da liberdade. É uma imensidão de sentir feito mar de Iemanjá que acolhe e cura. É um amar feito ar, feito brisa de Oya – e que ninguém doma e controla. É livre e se torna encantado. 

Eu vivo em meu corpo varginal, e pintado com as cores do arco-íris, essa primavera insurgente por outro jeito de amar. Tenho matado em mim todos os amores românticos pelos quais eu morri. 

Desobedeço a dor e busco nas águas das minhas embarcações a força ancestral para cicatrizar as dores herdadas do amor romântico. Agora, busco a partir de mim – e das que possam vir depois da minha existência – outra autoria e autoridade sobre o que sou, trago e manifesto nesse chão lavrado com o sangue dos nossos povos. 

A partir do reconhecimento da sacralidade dos nossos corpos que traz a energia ancestral. Pela valorização de cada folha macerada nos banhos de equilíbrio e vitalização do nosso ser. Por acreditar que um corpo negro que carrega não só as dores do vivido, mas sobretudo a preciosidade sacra de ser a sua própria ambiência de cura. 

São por essas e outras razões que não podemos mais morrer por algo que não nos pertence. Nunca nos pertenceu. Mas sempre esteve presente nas nossas certidões de óbito subjetiva, cuja causa de morte sempre foi uma só: amor romântico autodestrutivo. 

Insurgir outras maneiras de amar é também erguer outras trincheiras de confronto com o racismo estrutural. É antagonizar as classes de privilégio afetivo e social. É sepultar o peso do desamor, honrando a memória das que vieram antes de nós e não gozaram do amor. 

É por mim, e por elas, que declaro a morte do amor romântico – mesmo, nas vezes, em que agonizei do seu não desfrute. Escrevamos, então, com tinta cor de sangue um amar cor de azul mar ancestral.

 

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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