Mercedes Baptista, a dançarina do impossível, senhora do mundo!

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Christian Ribeiro, sociólogo, mestre em Urbanismo, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. (Foto: Arquivo Pessoal)

A dança, em suas mais variadas formas e composições, possuí como premissa elevar tanto o artista quanto ao público a outros patamares de existência. Elevar nossas percepções e entendimentos sobre o mundo em que estamos. Um mundo que pode se tornar mais belo, e libertário a partir das infinitudes transformadoras que as artes nos possibilitam. É a busca em se transformar o impossível em realidade! Por vezes contra todo um conjunto de regras e normas que tentam nos impor limites de como devemos ser e vivermos a vida…

Entre exemplos de artistas que com o legado de sua obra se inserem nessa definição da arte enquanto forma de liberdade e extrema e revolucionária, contra os conservadorismos e preconceitos vigentes, podemos citar a bailarina, dançarina e coreógrafa Mercedes Ignácia da Silva Krieger – artisticamente conhecida como Mercedes Baptista (20/05/1921-19/08-2014) – situando-a no panteão dos grandes artistas brasileiros. Uma referência mundial da dança e incansável defensora das causas antirracistas e das negritudes, um dos grandes ícones do que hoje pode-se definir enquanto feminismo negro. Uma trajetória de artista que através da dança, dava vazão e ordenamento dos seus sentimentos, de suas percepções acerca das nossas desigualdades raciais e sociais, perpassadas diretamente pelo machismo, que desumanizam milhões de suas identidades e orgulho próprio, de suas referências culturais e simbólicas.

A dança de Mercedes era um não aceitar a essa “normalidade histórica-social” que situa as populações negras a sempre ocupar lugares de invisibilidade e silêncio, de apagamento de suas próprias existências. Cada passo seu, cada coreografia era ato de vida ante a morte, da luz perante as trevas! A sua presença em cena era o iluminar que irradia a certeza de novos tempos, da beleza e poesia encarnadas em cada movimento que realizava. Com olhar ferino de postura insolente, desafiadora e combativa ante aqueles que dela nada esperavam ou lhe relegavam ódio e desprezo. Aos que dela contavam com o fracasso, lhes devolvia rebeldia e combate, em forma de poesias que desafiavam as gravidades do mundo, em seu bailar para além das agruras e adversidades da vida.

Como tão bem destaca Paulo Melgaço da Silva Júnior na sua biografia “Mercedes Baptista. A Dama Negra da Dança” (2021), publicada pela Ciclo Contínuo Editorial, Mercedes foi construtora de uma trajetória para além do que apontavam todas as suas possibilidades, rompendo os alcances que as amarras – econômicas, sociais e psicológicas – do racismo estrutural lançam em meio aos caminhos de ascensão social que as populações negras são obrigadas a trilhar nos conjuntos de relações pessoais e profissionais, que nos constituem enquanto sociedade. Barragens essas que são muito mais que simbólicas, mas empecilhos concretos aos sujeitos negros que acabam por buscar romper aos padrões de dominação racista, que acabam por definir qual é o devido lugar dos negros em nossa sociedade. Como tudo aquilo que eles podem ou não fazer, dos espaços que por eles podem ou não ser ocupados/utilizados.

Silva Júnior opta em uma narrativa que nos lembra, nos situa o quanto a vida de Mercedes Baptista se deu enquanto manifestação de uma luta constante e sem descanso contra os males do racismo, não mascarando o quanto essa constância de embates acabou por desgastar e marcar profundamente a vida da grande dama da dança brasileira. O que não permite a constituição de uma discursiva laudatória, em que o biografado é descrito e analisado como imaculado de qualquer falha ou deslize, quando não acima de todas as situações que se faziam acontecer a sua volta. Esse é um recurso narrativo dos mais cômodos e fáceis, que o autor optou por passar ao longe. Nos permitindo termos ao longo de todo o livro, página a página, uma imersão a pessoa-artista-ser humano Mercedes, enquanto pessoa radicalmente mergulhada aos meandros de seu tempo, as historicidades, contradições e potencialidades que constroem e dão sentido aos processos históricos e culturais, sendo diretamente influenciada por estes. Uma relação de pertença as coisas de sua época e de seu tempo e de enfrentamento e contestação as normas diretivas que dali se davam, que se fazia mediar pelo seu processo de consciência racial, social e de gênero, oriundo dos conjuntos históricos-políticos, culturais e religiosos afro-brasileiros, em especial de sua vertente carioca urbana.

A biografia nos aponta termos em Mercedes Baptista a figura socialmente consciente e engajada de uma artista, ciosa do seu papel enquanto potencial agente transformadora da realidade-mundo a sua volta, não só para ela, mas para todos os seus semelhantes. Mas não em sentido de excepcionalidade única como grande parte dos biógrafos, jornalistas e acadêmicos analisam e definem os sujeitos negros descritos em suas análises, como se esses fossem exemplos únicos ou autônomos de uma resistência romântica contra o racismo. Não os compreendendo como inerentes de uma série de tradições e manifestações de resistências coletivas negras que perpassam, atravessam, por séculos e séculos a nossa história. Sendo Mercedes fruto direto desses processos em que se imbricam as heranças e resistências religiosas, culturais e políticas afro-cariocas, sintetizadas no meio artístico-cultural em que se davam e se relacionavam – direta ou indiretamente – os teatros de revista, as companhias de dança, as escolas de samba, as gafieiras, as rodas de samba e jongo, as festas de terreiro. Não por acaso tendo essa forma de amálgama dando gênese ao Teatro Experimental do Negro por Abdias Nascimento, movimento político e cultural seminal da negritude brasileira, em que Silva Júnior tão bem destaca a importância e significado de Mercedes para a sua constituição e desenvolvimento. Dessa forma recolocando e ressignificando a relação entre Abdias e Mercedes, para além do que usualmente se faz debater, engrandecendo a ambos, e dando novos sentidos tanto ao que representou esse grupo artístico, quanto, principalmente o quanto ainda nos falta conhecermos mais e melhor de etapas tão importantes de nossa história.

Uma mulher não a frente de seu tempo, mas inserida e contextualizada a ele, por isso atemporal em suas práxis e sentidos, pois suas lutas não se davam fora ou acima dos grupos sociais e culturais negros, mas a partir destes, sempre em vínculo e nunca em negação a estes. Mesmo que havendo por vezes conflitações, desavenças e rompimentos entre os sujeitos históricos, dentre os atores políticos-culturais que habitavam e caracterizavam as relações sociais destes grupos humanos. E Silva Júnior não esconde essas ocorrências como constituintes da vida e da trajetória de sua biografada, nem das contradições que se faziam inerentes nesse processo de construção de uma vivência artística. Não esconde nem as marcas, boas ou ruins, que tais situações deixou nas pessoas que conviveram com ela, nem as marcas que acabaram gravadas em seu corpo e alma.

Um processo nada laudatório, mas que nos lança luz para uma compreensão de que estamos diante de uma pessoa complexa, falha, contraditória, nem sempre de fácil convívio ou relação, mas demasiada humana e companheira na sua busca em com sua arte contribuir para a construção de uma sociedade realmente livre do racismo, nem que para isso, por diversas vezes, tivesse que renunciar a seus sonhos, ou ter oportunidades negadas exatamente por isso. Por não negar quem era, mulher negra, racial e socialmente consciente, artista revolucionária e combativa na defesa e construção de uma contemporânea negritude brasileira, em seu enfrentamento radical e ininterrupto contra o racismo.

Toda uma série de situações e questões que se deram por essa postura, sempre manifesta, de vida, que exerceu com ardor invejável ao longo de toda a sua vida. Em meio aos silêncios, dores e solidões que caracterizam as vidas das mulheres negras em uma sociedade como a nossa. Racial, social e culturalmente marcada por um machismo latente, que sempre procura desumanizar aos descendentes de africanos, em especial as suas mulheres, como se a essas não fosse possível nem ser dada o uso da imaginação pela constituição de uma outra realidade, sendo imposta as piores atitudes e situações para aquelas não se enquadram nos nossos estereótipos da “mulata hiper sexualizada” ou da “negra submissa”. Mercedes Baptista sabia que era detentora de uma beleza que se dava para além de padrões estéticos discriminatórios e opressores, pois trazia em si e revelava a beleza viva – física e espiritual – de sua ancestralidade. Uma forma de beleza que se dá para além de meras definições de padrões de sociabilidade de um conjunto racialmente tão discriminatório como o nosso. Que se dava e era incorporada como forma de expressão e narrativa de sua arte, de sua dança, para desespero daqueles que não conseguiam conceber a existência de uma concepção artística fora dos padrões civilizatórios europeus. O que acreditamos ser este um dos motivos que levou a primeira mulher negra a fazer parte do corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a ter sua trajetória no corpo do balé mais prestigiado do país, sempre por sofrer percalços, ingerências e descaminhos não condizentes a uma mestra do pas-de-deux e de todos os segredos dessa expressão artística clássica. Ficando a constatação de que por causa do racismo – nem sempre mascarado – vigente a época naquela instituição, sua carreira de bailarina clássica, apesar de histórica e notável, na realidade, nunca se deu por completo. Ficando aquém, do potencial total de sua capacidade e destreza. Mas ao mesmo tempo, foi uma realidade que nos possibilita a compreensão do exercício e manifestação da arte-dança de Mercedes Baptista, no sentido de lhe aguçar, a sempre aprimorar e lapidar a sua dança enquanto expressão de sua moderna insubmissão quilombola, que não aceitava que ninguém ousasse lhe dizer o que fazer, como ser ou agir. E muito menos renegasse, ou escondesse, o orgulho e a potência transformadora de sua negritude, e de sua condição afirmativa, positiva, de humanidade, que se dava a partir de sua realidade enquanto mulher negra afro diaspórica brasileira.

Artista das mais importantes de nossa história, que no ano de seu centenário está recebendo uma série de homenagens – como ser o tema do desfile do antológico carnaval promovido pela sua escola de samba, o “Grêmio Recreativo Acadêmicos do Salgueiro” – e através de eventos e seminários que relembram e lançam novos olhares e percepções para sua vida e trajetória artística-pessoal. Sendo o livro de Silva Júnior, um dos trabalhos que merece mais destaque, pela preciosidade de sua narrativa, corajosa e nada fácil, em conseguir nos dar uma compreensão de persona tão complexa, sem estigmatizá-la por estereótipos racistas, ou supervalorizá-la por apreço pessoal, nos apresentando a sua biografada como ela sempre fez questão de ser vista e compreendida, como sendo ela mesma, com suas falhas e virtudes, sonhos e anseios, sucessos e fracassos, dores e felicidades…

Livro precioso sobre uma pessoa preciosa, que através de sua arte, transformou o mundo com a sua dança. Pois Mercedes sabia que a cada volta da gira, o mundo não será nunca mais o mesmo, e por isso ela nunca parou de girar, reencantando a tudo e a todos com a sua arte pioneira, em técnica e método. Ao dar, literalmente, corpo e sentido, a uma dança moderna brasileira, baseada numa expertise negra de dança, remetendo as umbigadas, jongos, congadas, batuques, sambas e candomblés, tornando-se assim a precursora do balé e da dança afro no Brasil.

A Mercedes Baptista, a dançarina do impossível e senhora do mundo, nosso máximo respeito! Na esperança que saibamos honrar e divulgar o seu legado, obrigado por tudo!

Axé, e que sua gira, nunca pare…

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