terça-feira, setembro 21, 2021
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Meritocracia: uma piada de mal gosto

Era 13 de março pela manhã…

Bum… bum.. bum …… e um menino sai desesperado pelas ruas. Seu único desejo: sobreviver.

Correndo, aquele menino negro, esguio e assustado se depara com várias pessoas, mas nenhuma o acolhe. Todos estão olhando para ele, apavorados, e ele?! Com mais medo ainda, tinha em seu ombro um machado, um machado fincado, que sangrava, sangrava e sangrava.

Ele era apenas um jovem menino negro assustado no meio de uma tragédia, um agravo social que havia acabado de presenciar –  o horror – mas, nem o tempo foi generoso e enquanto todos corriam pedindo compaixão, mais uma vez o menino negro teve que se justificar antes, que não queria fazer mal a ninguém, apenas pensou em sobreviver e percorreu quase meio km para conseguir ajuda em um hospital.

Esta cena foi noticiada em vários veículos de comunicação da imprensa escrita e falada há um ano e meio atrás durante o agravo social acometido a escola Raul Brasil, no dia 13 de março de 2019. Ela, sem nenhuma novidade, denuncia o quanto o racismo em nosso país é estrutural. Há tempos nos deparamos com esta luta diárias contra as formas mais perspicaz e já tão naturalizadas existentes. O que mais esta cena nos revela? Ela nos revela o quanto a violência é uma resposta a diferença e a indiferença, a percepção de compaixão fica aqui completamente desumanizada quando medimos as interseccionalidades de quem a pede.

E naquele dia, mais uma vez, perdemos a oportunidade de tratar a violência como uma escolha política, como uma política pública de enfrentamento que, apoiada pelo racismo, pode ceifar vidas.

É sobre isso que quero dialogar com você leitor, sobre quantos de nós ficamos pelo caminho quando uma ação perversa é disparada. Primeiro te fazem acreditar que se você for o melhor em tudo chegará lá, será aceito e terá sua própria voz. Depois te toleram, aceitam conviver com você, mas na menor possibilidade te negam a humanidade, silenciam e mostram o quanto juntos eles são mais fortes.

Até hoje me pergunto que tipo de política pública ajudamos a fortalecer naquele espaço de tempo?! 

Pouca coisa mudou do que tínhamos para os dias de hoje. Acrescentamos meia dúzia de profissionais de saúde, num contrato precário das condições de trabalho, não houve um fortalecimento da cultura, dos espaços de convivência entre adolescentes e jovens e sequer tivemos a oportunidade de compreender o agravo como um fenômeno social que dava resposta a políticas públicas de Educação, Cultura, Lazer e Esporte tão sucateadas e atravessadas  pela violência estrutural.

Silenciamentos, espaços privados, reuniões a portas fechadas, para onde foi a comunidade? Qual a participação dos órgãos de controle? O que buscamos e o que queremos com estas ações?

A única resposta era andiamo. Como diriam os italianos.

Esta cena traduz o que ocorre nos espaços das organizações públicas e privadas, nas suas estruturas de poder, no que tange a mobilidade social das pessoas negras: até podemos fazer parte, inclusive da mesa de negociação, mas não terá compaixão se não for não permitido ou além do permitido.

Quantas vezes perdemos a oportunidade de olhar a fundo o problema da violência e do racismo estrutural? Essas duas bombas relógio com o seu tic tac nervoso.

Muitos jovens mudam e mudarão suas vidas permanentemente por essas violências sofridas, que deixam marcas que perpétuas.

E assim temos que lidar com a violência e o racismo estrutural, fingindo que eles não existem, que estamos livres disso enquanto sociedade e olhando pela superfície algo tão profundo e devastador.

O racismo por sua vez evoca o desprezo ponderado no modelo estético, intelectual, moral (incapaz, feio, desonesto, grosseiro, incompetente, violento) na expressão de dominação, opressão, desigualdade e exploração, elevando uma outra raça ao nível da superioridade, traduzida em outras palavras em privilégios que não se pode perder: “eu devo ser mais assistido, mais amparado que você, mais suprido do que você, estou para ser servido”. Tudo isso regado ao silenciamento e omissão de forma inconsciente no coletivo da população, impactando diretamente na produção da subjetividade, afetividade e cultura da população negra.

O que pensar quando se pede ajuda, e em troca, se vê sozinho no cenário mais caótico e inimaginável? Foi este imaginário carregado de representações sociais de superioridade que negou ajuda a um menino negro em pânico e com machado em seus ombros.

Esta forma de lidar com duas questões complexas e que traz constantemente a desumanização de pessoas negras nos custa e representa o aniquilamento de subjetividades brilhantes.

No caso do menino, com o machado, felizmente sua mãe feito uma leoa pôde defendê-lo, protegê-lo resistindo a todas as críticas sobre seus gritos de indignação e injustiça. Não meus amigos, ela não queria aparecer, era apenas uma mãe consciente de todo este processo de racismo e violência estrutural, afinal, ela o viveu na pele durante toda a sua vida… defendendo sua cria no qual seu recurso mais poderoso era sua voz, utilizada exatamente nos meios em que solidificam este mesmo racismo estrutural e essa violência reproduzida e reforçada contra os jovens negros, contra a população negra em geral, o lugar do tal reconhecimento perverso. E quantos aos outros?

Sim, existem outras subjetividades negras caminhando distraídas por aí, com seus machados dependurados sobre suas cabeças pronto a serem fincados por esta organização social perversa. Todos os dias assistimos a morte física e simbólica da população negra.

Essa população, lembre-se, está em todos os lugares, resistindo, mas não pode apresentar a mobilidade social, não pode sair do seu lugar de servir, que logo é atingida fatalmente pela violência aliada ao racismo naturalizado. Esta população que depende de um sistema único de saúde sem investimentos, e que, portanto, já no presente sente os impactos dessa violência em sua saúde.

Nas instituições e organizações vivenciamos o mesmo horror, o seletor perverso no qual vai minando a subjetividade do sujeito aos poucos, lentamente, minando desejos, perspectivas e suas saídas.  Ali não há lugar para compaixões, não há lugar para o afeto senão para demonstrar o quanto o homem branco é caridoso e permite que você, pessoa negra, somente sinta dor quando lhe for conveniente”.

Até mesmo as instituições públicas, que deveriam ser lugares menos perversos, guardam em suas estruturas e propagam a manutenção do racismo e da violência juntos, naturalizados nos momentos do cotidiano e na tentativa de silenciamento de pessoas negras.

Jeane Saskya Campos Tavares,  psicóloga e doutora em saúde pública, nos relembra no seu brilhante texto “Falando de perdas” que “as mortes físicas e simbólicas, a humilhação, o medo e o ódio têm feito parte da experiência de ser negro no Brasil

Não há como desembocar no dilema do Estado de bem estar social, Estado este que deveria proteger, cuidar e zelar pela manutenção da vida que é gestado por políticos que fomentam a pulsão de morte como motriz de suas decisões.

A população negra vive e está exposta ao horror social fabricado por quase primos irmãos chamados violência e racismo estrutural, mantidos pelos justiceiros de plantão, donos dos privilégios e que vez ou outra levantam suas armas e atiram, mas que diariamente de forma coletiva, lenta e organizada subliminarmente, e de forma bem orquestrada, inicia a sua empreitada de acabar com qualquer possibilidade de mobilidade social da população  negra, que é vista como uma ameaça e mais que rapidamente o grupo se organiza para aniquilar a sua subjetividade e a de quem o acompanha.

Os dados estatísticos infelizmente nos colocam esta perspectiva:

Onde estão as lideranças negras nas instituições públicas? Como chama à pauta Monalyza Alves, que foi Superintendente de Promoção da Igualdade Racial no estado ou município (?) do Rio de Janeiro, nas posições de liderança apenas 29,9% de negros estão presentes em relação aos brancos e 44,4% das mulheres negras quando ganham, ganham menos do que os homens brancos. 

Onde estão nossas lideranças negras???? 

Confiem em mim, elas existem e estão por aí sendo sufocadas por natural genocídio autorizado na máquina do Estado, há séculos esta população desenvolve surpreendentemente a arte de resistir a tantos disparos.

Evoco novamente Monalyza e suas palavras: O que é ser uma liderança negra no serviço público?, qual é este lugar de invisibilidade social? Quantos passos para trás até se fazer presentes? Quantos te estenderão a mão na corrida pela sobrevivência? Quem fincará o machado e te acusará de ser agressivo desta vez?

São perguntas de um dilema que nos reconhece de forma perversa, mas não nos legitima enquanto pessoas de direitos e em livre ascensão. Aqui, a meritocracia, uma piada de mal gosto, se torna a maneira mais perversa ainda de reconhecer o fracasso de quem ousou a se mexer.

Magna Barboza Damasceno, é psicóloga, Mestre em Psicologia Social pela PUC SP, Profa. Universitária, Gestora Pública, especialista em Gestão Pública pela FESPSSP e nos Impactos da Violência na Saúde pela (ENSP/FIOCRUZ) e na Gestão da Clínica nas Regiões de Saúde, pelo Instituto Sírio-Libanês,  Conselheira do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo gestão 2016-2019, Coordenadora da Gestão da Educação e do Conhecimento de (2017 – 2019) e atual Coordenadora da Rede de Atenção às Pessoas em Situação de Violência Doméstica e Sexual de Suzano RAPSVDS de Suzano.

Instagram: @magna_damasceno / @negrasquemovem

Facebook: Magna Damasceno

Linkedin: https://www.linkedin.com/in/magna-damasceno-46619b35 

 

Referência Bibliográfica: 

https://ponte.org/tenho-certeza-que-se-meu-filho-fosse-branco-ele-teria-recebido-ajuda/

https://diplomatique.org.br/falando-da-perda-hoje-estou-mal-espero-que-voce-entenda/

 

Leia Também: 

Juventude e política de morte no Brasil

Direito à Ancestralidade

Autocuidado e bem viver: Algo muito distante das periferias refém de Salvador- Bahia

 


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