sexta-feira, novembro 26, 2021
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Miles Davis: 30 anos da morte do homem que mudou a música

O icônico trompetista Miles Davis morreu em 28 de setembro de 1991 após se consagrar como um dos músicos mais influentes do Século XX

Miles Davis — o celebrado trompetista e inovador musical quem morreu em 28 de setembro de 1991 aos 65 anos — relutantemente concordou em participar de uma premiação na Casa Branca de Ronald Reagan em 1987. Era atípico para um homem que sempre foi honesto, sobre si mesmo e os outros, aparecer para uma ocasião como essa.

Em sua franca e corajosa autobiografia, Miles (1989), escreveu que Cicely Tyson, uma das muitas mulheres em sua vida, convidou-o e foi em sinal de respeito por um dos premiados, Ray Charles. Mas, problemas pareciam inevitáveis. De acordo com Davis, estava sentado na mesa com uma mulher descrita como “esposa de político” quando ela lhe perguntou algo aparentemente bem-intencionado sobre a rejeição do jazz nos Estados Unidos.

“Jazz é ignorado aqui porque o homem branco gosta de vencer em tudo,” respondeu Davis com sua asperidade habitual. Incomodada, a mulher perguntou: “O que você fez de muito importante na vida?” Novamente, o trompetista tinha uma resposta pronta: “Bom,” disse, “mudei a música cinco ou seis vezes.”

A autoavaliação improvisada de Davis parece exata agora que seu espírito indomável nos deixou. Mas, “mudar a música” não é o único aspecto pelo qual será lembrado. Foi um dos trompetistas mais pessoais, dotados e influentes a aparecerem na segunda metade do Século XX. Seus discos — desde Birth of the Cool (1957) a Kind of Blue (1959) e Sketches of Spain (1960), passando pelas tempestades eletrônicas de Bitches Brew (1970) e Pangaea (1975) e seguindo até lançamentos mais recentes como Tutu (1986) — são gravações estupendas.

Muitas pessoas se lembram do momento em que ouviram um disco de Davis pela primeira vez da mesma forma que recordam os assassinatos de John Lennon ou o ex-presidente dos Estados Unidos JohnF. Kennedy — como pontos decisivos na história e em suas próprias vidas.

Em uma música a qual conheceu mais grandes instrumentistas que líderes de bandas, Davis elevou os parâmetros de para o estilo do conjunto e interação repetidas vezes. A lista de músicos os quais atingiram reconhecimento por meio de experiência nas bandas do trompetista é imensa: os saxofonistas John Coltrane, Cannonball Adderley e Wayne Shorter; os pianistas Bill Evans, Herbie Hancock, and Chick Corea; os bateristas Philly Joe Jones, Tony Williams, and Jack DeJohnette; e os guitarristas John McLaughlin and John Scofield. Mas ótimos artistas nem sempre viram bons grupos; Davis sabia a diferença e insistia em ter os dois.

No jazz, mais até do que em outros estilos criados primeiramente por norte-americanos negros, inovação é o principal da arte. E quando tratamos de inovação — ou como Davis coloca, “mudar a música” —, o homem tinha poucos pares.

Até os revolucionários mais brilhantes do gênero, de Louis Armstrong a Charlie Parker, tendiam a criar um estilo radicalmente novo em seus instrumentos e ficavam com aquilo para desenvolver enquanto o resto do mundo tentava acompanhar. Alguns indivíduos excepcionais — Coltrane, Ornette Coleman — mudaram a música mais de uma vez. Mas a afirmação de Davis de que ele “mudou de música cinco ou seis vezes” não era uma ostentação inútil. E note que ele disse música, não jazz.

Davis foi o elo vivo da música contemporânea com a primeira onda de jazzistas modernos — os primeiros associados do trompetista incluíam Charlie Parker, Dizzy Gillespie, e Thelonious Monk. Mas sua própria música ia além dos limites do gênero desde Birth of the Cool, a coleção de gravações a qual iniciou uma sempre crescente troca de ideias entre jazz e música clássica de inspiração europeia. Durante os anos 1960 e o começo da década de 1970, a admiração de Davis por inovadores populares como Jimi Hendrix e Sly and the Family Stone o levou a fusionar os mundos do jazz, rock e funk.

Esse movimento não apenas quebrou barreiras, mas as pulverizou. Categorias musicais discretas — e distinções teóricas entre “alta arte” e “arte popular” — nunca teriam a mesma força coercitiva novamente. Críticos e músicos que ainda tentam segurar a linha contra essa democratização cultural, a maioria dos campos clássicos e do jazz, são idiotas classistas lutando uma batalha perdida contra realidades musicais e sociais. Se Davis tinha um talento para irritar esses puritanos, é fácil entender o porquê.

Miles Davis antes do sucesso

O cenário familiar de Davis ajuda a explicar por que era tão autoconfiante. Nasceu como Miles Dewey Davis III, filho de um dentista de muito sucesso, no dia 26 de maio de 1926, em Alton, Illinois (EUA). Sua mãe estilosa, uma tecladista e violinista de destaque, usava casacos de pele e diamantes; o trompetista a creditava com a inspiração de sua própria elegância.

Davis cresceu na seção leste de St. Louis, Illinois, local de alguns dos maiores e mais violentos “motins raciais” dos Estados Unidos — eventos que eram mais como desculpas para supremacistas brancos agredirem cidadãos negros. O pior deles aconteceu em 1917, menos de uma década antes do nascimento de Miles III, e a amargura e tensão se mantiveram presentes.

Em 1944, o Miles Davis de 18 anos ouviu jazz moderno pela primeira vez — a música que mudou sua vida — quando Charlie Parker e Dizzy Gillespie tocaram em St. Louis como integrantes da banda de Billy Eckstine. Na época, Davis era um músico talentoso com experiência em grupos e lecionando outros, então substituiu o terceiro trompetista da banda quando ficou doente inesperadamente.

Depois de tocar com a banda durante as duas semanas que ficaram em St. Louis, Davis queria acompanhá-los na turnê. Sua família o restringiu, mas conseguiu convencê-los a mandá-lo para Nova York e estudar música clássica na Julliard, em setembro de 1944. Entrou na prestigiosa escola de música e participava das aulas durante o dia, enquanto desenvolvia suas habilidades de improvisação nos clubes de jazz à noite. Em maio de 1945, lançou a primeira gravação em parceria com o cantor de blues Rubberlegs Williams.

Nesse ponto, Charlie Parker era companheiro de quarto e guru musical de Davis. Mas Parker, cujo vício em drogas tomava proporções absurdas, não introduziu o parceiro às substâncias ilícitas, como muitos pensavam — outros haviam tentado, mas Davis era muito obstinado para suportar as indignidades e incertezas da dependência das drogas indefinidamente.

As gravações Birth of the Cool da banda de nove partes sinalizaram o primeiro sucesso de Davis em “mudar a música,” mas na época eles trouxeram pouca recompensa financeira. Por vários anos, tocou e gravou esporadicamente enquanto lutava contra os vícios. Em 1954, com as drogas no passado, Davis fez gravações importantes com Sonny Rollins, Thelonious Monk e outras figuras formidáveis. Nesse mesmo ano, seu disco Prestige Walkin’ mudou a música mais uma vez. Havia se recuperado das texturas serenas e vítreas de sua banda “legal” para um gênero mais quente baseado no blues que logo se cristalizou, sob a rubrica hard bop, um dos movimentos de jazz mais importantes dos anos 1950 e início da década de 1960.

Em 1955, Davis montou outra banda definitiva, um quinteto com o jovem John Coltrane. Em duas sessões de maratona, o grupo gravou material suficiente para vários discos de destaque no selo Prestige. O último álbum do grupo, ‘Round About Midnight, foi a primeira gravação de Davis para a Columbia Records, uma associação que duraria até ele mudar para a Warner Bros. em meados dos anos 1980.

Davis começou as próximas mudanças musicais importantes com a ajuda de um quinteto de meados dos anos 1960 que incluía Wayne Shorter, Herbie Hancock, Tony Williams e o baixista Ron Carter. A música foi uma reação e alternativa ao florescente movimento de free-jazz do período. Estruturas musicais tradicionais e um pulso rítmico regular não foram abandonados completamente, mas tratados com uma plasticidade impressionante. Os músicos vêm construindo sobre a base deste quinteto desde então; os primeiros discos de Wynton e Branford Marsalis foram em grande parte devidos a este estágio do desenvolvimento incansável de Davis.

Amizades com Hendrix, Sly Stone e outras estrelas do rock deram a Davis o desejo de formar “a banda de rock mais malvada do mundo.” Sua fase jazz-rock começou silenciosamente com os múltiplos teclados  e texturas flutuantes de In a Silent Way. Mas, com a ajuda de novos recrutas como o guitarrista John McLaughlin, mudou-se para climas musicais mais quentes novamente com os discos Bitches Brew e Jack Johnson. Se os críticos de jazz tradicional não gostavam destes, ficaram positivamente horrorizados com o ataque sônico total da banda elétrica de Davis em meados dos anos 1970.

Com dois e às vezes três guitarristas elétricos, os discos AghartaPangea e Dark Magus ultrapassaram o público de jazz, conectando-se com a vanguarda do punk e pós-punk rock. O mais extremo deles, Dark Magus, permanece inédito nos EUA, um descuido inexplicável por parte da Columbia. Mas, como uma importação japonesa, atingiu artistas de rock influentes como o guitarrista Robert Quine (que tocou com Richard Hell e Lou Reed) e o pioneiro do punk-funk James Chance and the Contortions.

Em 1975, logo após gravar esses discos ao vivo, Davis se aposentou por cinco anos. Sofria de problemas de saúde recorrentes, incluindo lesões no quadril e nas pernas que o mantinham com dores quase constantes. Em sua autobiografia, chama este momento de “quase tão sombrio quanto aquele de que eu tinha me tirado quando era um viciado” — o livro observa que “sexo e drogas ocuparam o lugar que a música ocupava em minha vida até então e eu fazia os dois o tempo todo.” Amigos duvidavam que ele tocasse novamente, mas em 1980, gravou um álbum de retorno, The Man With the Horn, e montou outra banda.

Davis continuou fazendo turnê e manteve uma agenda de apresentações exigente No entanto, no início de setembro de 1991, foi ao Hospital e Centro de Saúde St. John, em Santa Monica, Califórnia (EUA). De acordo com seu médico, Jeff Harris, Davis – que morreu no hospital – sofreu de pneumonia, insuficiência respiratória e um derrame.

O veredicto ainda não é claro sobre as gravações pós-retorno de Davis. Qualquer avaliação crítica seria prematura; a música que atingiu muitos ouvintes como superamplificada e freneticamente caótica no início e em meados dos anos 1970 tem um toque diferente do punk, No Wave, rock industrial e bandas de guitarra contemporâneas como Sonic Youth. Para os ouvintes que o experimentaram pela primeira vez nos discos dos anos 1980, como We Want MilesTutu ou Siesta, essas gravações são importantes, até mesmo cruciais.

Davis provavelmente teve mais reconhecimento, controvérsias, mulheres, recompensas financeiras, respeito de outros músicos e uma vida mais pura do que qualquer músico com raízes no jazz do último meio século. Ele teria gostado de ter a última palavra.

De Miles, o testamento escrito mais encorajadoramente honesto que um grande músico norte-americano nos deixou: “O mundo sempre foi baseado em mudança. Pessoas que não mudam se verão como músicos folk, tocando em museus como filhos da p***. Porque a música e o som se internacionalizaram e não faz sentido tentar voltar para o útero onde você estava. Um homem não pode voltar para o ventre de sua mãe.”

ROBERT PALMER | ROLLING STONE EUA. TRADUÇÃO: MARINA SAKAI (SOB SUPERVISÃO DE YOLANDA REIS) 

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