“Minha irmã acusou meu pai de estupro. O que eu faço? – Por: LOLA ARONOVICH

L. me enviou esta dúvida em maio, e eu respondi nessa época também:

Olá Lola, tudo bem? Descobri seu blog há pouco tempo, e já li praticamente todas as postagens. Preciso dizer que, assim como vários outros leitores, mudei minha visão sobre muitas coisas depois de ler seu textos, e acho que por essa razão venho tentando me tornar uma pessoa melhor.

Aconteceu algo em minha família há um tempinho, que ainda não processei direito e até hoje não sei como lidar com a situação. Acho que preciso contar um pouco sobre como é a minha família pra que você possa entender o fato em si.

familia

Tenho 23 anos, uma irmã de 20 e um irmão de 19. Meus pais se separaram há 5 anos. A dinâmica do casamento deles era a seguinte: minha mãe, professora universitária, sempre trabalhou das 7 da manhã até às 10 da noite pra que os filhos tivessem um ótimo padrão de vida.

Do outro lado meu pai, com ensino médio, ganhava bem pouco e nunca contribuiu com as contas de casa, o dinheiro dele só tinha a finalidade de colocar combustível em seu carro (que foi comprado pela minha mãe) e gastar em bares com amigos e amantes. Ainda assim, mesmo dependendo financeiramente da minha mãe, ele era extremamente machista, batia nos filhos, “cantava de galo”, como se diz. Os três filhos sempre morreram de medo dele.

Mas preciso mesmo é falar sobre minha irmã. Desde bem pequena ela tem comportamentos estranhos: dedurava os irmãos para que apanhássemos, fazia maldades gratuitas, mentia muito, não se dedicava na escola, batia na minha mãe, e outras coisas do gênero. Nunca nos demos muito bem. Minha mãe se preocupava com ela, e durante a vida toda minha irmã fez acompanhamento com psicopedagoga e posteriormente, com psicóloga. Até que ela resolveu não fazer mais terapia, e minha mãe acatou sua decisão.

Porém, há alguns meses, minha irmã decidiu fazer terapia novamente, e dessa vez realmente se dedicar a melhorar. Uma noite ela entrou no meu quarto, chorando muito, me pediu perdão por todas as coisas que havia feito de ruim comigo, e me contou uma bomba: meu pai a havia estuprado quando ela tinha uns 7 anos de idade, e isso teria acontecido uma única vez.

No momento em que ela me contou isso, chorei bastante, a abracei, disse que poderia contar comigo, e que aquilo que havia acontecido não a definia, e não era culpa dela. Ela disse que queria contar pra minha mãe, mas precisava de ajuda pra isso, e eu disse que a ajudaria.

No dia seguinte fomos juntas contar pra minha mãe. Foi um dia bem triste… Minha mãe se culpando por não ter percebido, por minha irmã ter passado aquilo tudo sozinha, mas novamente minha irmã recebeu todo o apoio do mundo.
Porém, conversando com a minha mãe depois, começamos a perceber muitas incongruências no relato da minha irmã.

De acordo com ela, meu pai havia ficado em cima da minha irmã e mantido relação sexual com ela no chão do apartamento onde morávamos. Lola, meu pai é um homem grande e bem gordo, ele a teria machucado muito. Além disso, quando éramos crianças, aos domingos minha mãe dava banho na gente, ela lavava e enxugava todas as partes de nossos corpos minuciosamente, já que durante a semana tomávamos banho sozinhos e muitas vezes criança não é lá muito higiênica. Minha irmã teria ficado muito machucada, e minha mãe teria visto algo.

imaginaçao

Minha mãe resolveu então ir até a psicóloga da minha irmã pra ver o que ela achava disso tudo. A psicóloga disse que também se questionava, mesmo porque minha irmã já contou duas versões do estupro: na primeira, ela tinha 13 anos (nessa época, nós já não morávamos mais no apartamento onde isso teria acontecido). Na segunda, teria 7. E a terapeuta, que já atendeu tanto abusados quanto abusadores, diz que dificilmente nesses casos acontece apenas uma vez, como contou minha irmã. Por outros relatos dela, a terapeuta diz que ela pode ser mentirosa compulsiva, e que isso demanda tratamento.

Por tudo isso que expus aqui estou completamente perdida. Sempre tive uma relação dificílima com meu pai, mas ele nunca tocou em mim, sugerindo algo sexual. Tenho medo de acusá-lo, cortar relações com ele, e tudo o que minha irmã contou não ser verdade… Por outro lado, morro de medo de não apoiar minha irmã, não acreditar nela, se ela realmente tiver passado por isso. É claro que jamais vou mostrar a ela essa minha desconfiança, mas estou sofrendo com isso, já chorei muito e sinceramente não sei o que fazer. Gostaria muito da sua opinião.

Minha resposta: Difícil mesmo saber o que fazer. Mas por que você precisa fazer alguma coisa? Vc já apoiou sua irmã. Já chorou com ela. Ela está fazendo terapia. Não acho que no momento vc precise fazer mais alguma coisa.
E seu pai é separado da sua mãe, então você não deve vê-lo com tanta frequência.

Pelo que vc conta, vc já tinha inúmeros problemas com seu pai muito antes da revelação da sua irmã. E é compreensível que vc o veja com tantas reservas. Ele foi um pai abusador. Ainda que sua irmã esteja mentindo e que ele não abusou dela sexualmente, ele batia em vcs, vcs tinham medo dele, ele não era nem bom pai, nem bom marido pra sua mãe.
Mas ser acusado de estupro é grave. Se alguém tiver que confrontá-lo sobre isso, será sua mãe ou sua irmã, não vc.

Acho que sua mãe agiu bem em conversar com a psicóloga. Pode ser sim que sua irmã seja uma mentirosa compulsiva, como sugeriu a psicóloga. Ou pode não ser uma mentira proposital, e sim uma fantasia (não no sentido d’ela desejar aquilo, mas de construir na sua mente que aquilo aconteceu). Ou pode ser que ela de fato tenha sido estuprada. De qualquer modo, sua irmã parece ter muitos problemas, e é fundamental que ela continue na terapia.

Entenda: você não precisa tomar um lado. Dê todo o apoio que sua irmã precise, não duvide dela, e não a chame de mentirosa de jeito nenhum. Mas também não fale com seu pai sobre isso. Não ainda.

Independente do estupro ter ou não ocorrido, é certeza que vc tem muitas coisas pra resolver tanto com seu pai quanto com a sua irmã.
Posso publicar seu relato tirando qualquer coisa que te identifique? É um caso difícil, e talvez as pessoas tenham outras sugestões.

Resposta da L.: Lola, impressionante como me sinto mais leve depois de ler sua resposta. Acho que você não tem a menor dimensão do quanto atinge a vida dos seus leitorxs, e principalmente das pessoas que te procuram com um problemão em busca de alívio e conselhos. MUITO obrigada, de todo o coração.

Pra mim ainda é extremamente difícil encontrar com meu pai, nas poucas vezes em que isso acontece, e conseguir conversar normalmente com ele, apesar de toda a repulsa e tristeza que o relato da minha irmã me cause. Por outro lado, é aquela questão né, é difícil apontar o dedo e acusá-lo de algo que não tenho certeza que aconteceu…

Pode publicar sim Lola, será muito bom ler as sugestões de seus leitorxs. Mais uma vez agradeço, e pode acreditar que toda essa energia positiva que você emana, volta pra você com toda a certeza.

 

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