Moda afro, apropriação cultural e silenciamento das minas negras

“Ser negra é ser morta, chamada de vadia e silenciada o tempo todo”

Por Isabella Otto, da Capricho 

Para começo de conversa, gostaríamos que você analisasse a imagem abaixo. Ela mostra a evolução de uma It Girl que foi acompanhando as tendências ao longo dos anos, desde quando era moda ter jeitão de surfista californiana até a nossa época atual em que é trend se parecer com uma Kardashian.

Para começo de conversa, gostaríamos que você analisasse a imagem abaixo. Ela mostra a evolução de uma It Girl que foi acompanhando as tendências ao longo dos anos, desde quando era moda ter jeitão de surfista californiana até a nossa época atual em que é trend se parecer com uma Kardashian.

Agora, sim, vamos à discussão sobre apropriação cultural, que é longa, complexa e com vários pontos de vista. Kylie Jenner e Vanessa Hudgens são algumas famosas que já se envolveram em polêmicas, por serem adeptas das tranças afro. Algumas pessoas usam o conceito de liberdade de expressão para dizer que as pessoas podem usar o que bem quiserem. Outras, em contrapartida, entendem que o fato de uma pessoa branca querer ser negra tem um peso grande devido a uma carga histórica, cultural e social.

Isadora Machado é uma Barbie negra, linda, carioca, engajada, ativista e da paz. Mas nem todos conseguem enxergar isso, porque ainda a veem através das lentes do racismo. “Ser negra é ser morta, chamada de vadia e silenciada o tempo todo. Não é uma opção. Essa moda black dá uma ideia falsa de maior aceitação dos negros. Foras das redes sociais o genocídio e o racismo continuam”, afirma a jovem.

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Foto: Arquivo Pessoal/Isadora Machado

Uma das grandes problemáticas da apropriação cultural é o silenciamento dos negros. Na sociedade preconceituosa em que vivemos, uma garota branca que usa a mesma coisa que uma garota negra sempre vai estar à frente, mesmo que ela acabe usando um turbante ou uma trança afro sem propagar todo um legado. “As pessoas querem usar as mesmas coisas que eu e minhas irmãs usamos, mas elas não querem saber da nossa história, elas não querem nos ouvir“, explica Isadora.

Consequentemente, esse silenciamento dá voz a quem não pertence ao lugar de fala. Ou seja, uma menina branca pode propagar a conscientização e lutar contra o racismo, sim, mas ela nunca vai sentir na pele o que a Isadora e suas irmãs sentem. As chances de você já ter escutado alguém falar que o cabelo rastafári daquele negro no metrô deve ser sujo ou que o black power daquela adolescente não deve ver água há anos, já que nem um pente entra ali, são grandes. Entretanto, muitas dessas pessoas, ao ver as duas últimas imagens da montagem da garota branca acima, dizem que ela é cool, moderna e bonita. Porque apesar de estar toda montada para se parecer com uma menina negra, ela não têm traços de alguém afrodescendente. A Isadora usa um exemplo simples e didático para ilustrar a questão: “Você não vê ninguém pegando uma coroa de ouro maciço e banalizando a joia, dizendo que é só um ourinho aí. Isso acontece porque o valor da cultura é o capital. O valor da minha cultura, porém, é a força. E isso não é valorizado. Isso é visto como uma besteirinha qualquer“.

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Foto: Arquivo Pessoal/Isadora Machado

Apesar de toda a problematização, a moda black traz visibilidade, como a própria Isadora Machado gosta de destacar. “Ela dá voz, e isso é maravilhoso para o povo afro, mas só até o momento em que você usa meu turbante e não quer ouvir minha história e minhas razões para não achar isso certo. As coisas boas não podem mascarar tudo de ruim que aconteceu, acontece e continua acontecendo”, alerta a jovem.

Então, você, branca, não pode seguir a moda afro, mas a negras podem continuar pintando o cabelo de loiro, alisando os fios e colocando lentes azuis? Bom, há dois erros em pensar dessa maneira. Primeiro, precisamos destacar que ser negro não é moda nem tendência. Ser negro é pertencer a um povo com um passado duro de escravidão. Segundo, a cor dos olhos e dos cabelo são características físicas, não culturais. Antes de usar ou não usar, é preciso entender a qual lugar social você pertence. “Há duas dificuldades em falar sobre racismo e apropriação cultural. Uma é fazer a pessoa se entender negra e a outra é fazer o racista perceber que está sendo preconceituoso e cometendo um crime, porque ele nunca quer enxergar o absurdo que está propagando”, alerta Isa. O importante é entender então que não se trata apenas de estética, mas de história e da aculturação de uma minoria. E a gente só consegue reverter isso com diálogo. Bora trocar uma ideia?

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