Moisés Mendes: racismo e apatia no metrô de Paris

Por que as pessoas ficaram passivas, enquanto os ingleses racistas ofendiam um jovem negro?

por Moisés Mendes no ZH

Onde foi parar a empatia, essa virtude que o australiano Roman Kznaric tenta revigorar com suas pregações contra o egoísmo? Li a entrevista que a colega Maria Rita Horn fez aqui na ZH com o filósofo que nos provoca a tentar assimilar da forma mais profunda possível o que os outros sentem.

Li e fiquei querendo mais. Empatia é a identificação com o drama, a alegria ou simplesmente a cara, a voz ou o silêncio de quem vemos a nossa frente, na vizinhança, no trabalho ou numa reportagem sobre as misérias distantes lá dos haitianos. Ou pode ser, quem sabe, nossa identificação com as indiferenças, as nossas e as dos outros.

Kznaric pretende que se melhore o mundo interagindo mais com quem pouco conhecemos. Defende, na sua biblioteca humana, que alguém pegue, ao invés de um livro para aprender, uma pessoa estranha para conversar.

Li a entrevista dois dias depois de ter visto muitas vezes o vídeo do jovem negro ofendido por torcedores ingleses do Chelsea no metrô de Paris. Foi na terça-feira, na estação Richelieu-Druout. Souleymane S. volta do trabalho e tenta entrar no trem, quando é empurrado pelos torcedores que estão na porta e cantam alto que são racistas e gostam de ser racistas.

Souleymane faz três tentativas, é empurrado para fora do vagão e desiste. Pessoas passivas estão na volta. Não se nota nada, nenhum gesto, uma mão erguida, uma fala, um movimento sequer em direção ao grupo.

A salvação pela empatia tem longo caminho nesses tempos de distanciamentos. No metrô, o que prevalece é a apatia tão perturbadora quanto a agressividade dos racistas.
Isso quer dizer que, olhando aqui de longe, eu faria diferente? Talvez não. É bem provável que aquela cena, se repetida em outros lugares, imobilizasse a maioria, mas nem todos.

Muita gente, em circunstâncias semelhantes, reage com vigor ao se colocar na situação do humilhado. Na Paris das passeatas libertárias pelos humoristas assassinados da revista Charlie Hebdo, não apareceu esse personagem.

E assim o otimismo de Kznaric vai levando tombos. Quanto tempo levaremos para melhorar o mundo, se estivermos na dependência de gente com déficit de empatia, como os que admiram bovinamente a ação de racistas, nos metrôs de Paris e aqui ao nosso lado?

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