sexta-feira, janeiro 27, 2023
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Mortes: Mãe Lídia dedicou 70 anos ao candomblé na Bahia

Por sua influência, festa religiosa Bembé do Mercado foi reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil

Lídia Queiroz dos Santos, a mãe Lídia, era uma das ialorixás mais antigas em atividade na cidade de Santo Amaro, na região do Recôncavo Baiano. Foram sete décadas de vida dedicadas ao candomblé, religião de matriz africana à qual foi iniciada com apenas 16 anos.

Foi escolhida no jogo de búzios pela orixá Nanã para suceder a falecida Valeriana Lopes na casa Ilê Axé Yá Oman. Assumiu o terreiro com apenas 38 anos e ficou na função por 48 anos.

“Ela encontrou muita resistência porque, à época, era muito nova. Mas quem escolhe é o orixá”, conta Romilda Cintra, 62, ialaxé —cargo de quem é responsável pelos ritos do terreiro e pelas oferendas— da mesma casa de mãe Lídia.

À frente do terreiro, mãe Lídia também exerceu por décadas o protagonismo na organização da festa religiosa Bembé do Mercado. Conhecida como “o maior candomblé de rua do mundo”, a celebração foi criada em 1889 para comemorar o primeiro ano de abolição da escravatura.

Naquele ano, a festa teria sido iniciada por João de Obá, em celebração a Oxum e Iemanjá. Por influência de mãe Lídia, em junho de 2019 o Bembé foi elevado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional à condição de Patrimônio Cultural do Brasil.

Romilda Cintra conta que, a despeito das obrigações religiosas, mãe Lídia levou uma vida dura e trabalhou muitos anos como empregada doméstica na capital baiana, Salvador. Até receber o chamado da divindade para liderar o Ilê Axé Yá Oman.

Nunca se casou, prossegue Cintra, tampouco teve filhos, mas criou, como se tivera dado à luz, os rebentos alheios. “Era uma pessoa maravilhosa. Uma mãe mesmo. Preocupava-se com todo mundo, queria saber como estava a família de todos”, recordou a ialaxé.

Ela lembra ainda que, ao longo da vida, mãe Lídia desenvolveu um quadro de saúde delicado em decorrência de uma bradicardia (ritmo cardíaco lento). Também era diabética e sofria com baixa pressão arterial.

No último mês, conta Cintra, mãe Lídia chegou a ficar internada por alguns dias na Santa Casa de Santo Amaro. Mas foi liberada pelos médicos para receber tratamento em casa, até que foi “chamada de volta ao Orun [mundo espiritual, em iorubá]”, no último dia 8 de dezembro.

Nascida em 31 de julho de 1936, mãe Lídia foi sepultada no cemitério Campo da Caridade, em sua cidade natal, no último dia 9. “Foi uma cerimônia muito linda, com membros de vários terreiros. No cortejo, em respeito, o comércio baixou as portas”, conta Cintra.

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